Para apreciar plenamente o Concerto para Clarinete de Jean Françaix, é bom saber que se trata de uma das obras mais difíceis alguma vez escritas para este instrumento. Não é que o virtuosismo garanta, por si só, um bom resultado artístico. Porém, quando é colocado ao serviço de um discurso coerente e expressivo, como acontece neste caso, produz um efeito distintivo.
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Jean Françaix foi um compositor e pianista que morreu em 1997. É hoje um nome praticamente desconhecido para a maior parte das pessoas, isto apesar de ter composto centenas de obras de grande qualidade. Não foi seguramente um músico que tenha apresentado soluções inovadoras ao mundo da criação musical; o recurso às formas tradicionais da música clássica é uma das principais marcas da sua identidade. Porém, cultivou uma estética genuinamente pessoal em que as referências «emprestadas» de outros tempos e de outras realidades se diluem numa linguagem própria, indiscutivelmente sua. Nesta obra ressaltam duas das suas principais características enquanto compositor: o extraordinário domínio dos recursos da orquestra e a forma como sempre procurou conhecer profundamente os instrumentos para os quais se propôs escrever.
Este concerto foi composto no final da década de 1960. Nessa época, foi considerado por muitos especialistas como «praticamente intocável», ao ponto de lhe prenunciarem a necessidade de esperar por significativos desenvolvimentos técnicos do instrumento para se tornar frequente nas salas de concerto. Em boa medida, isso deve-se ao facto de ter sido escrito para um grande clarinetista, Jacques Lancelot. O seu virtuosismo, aliado a uma sonoridade límpida em todos os registos, fizeram deste músico uma das principais referências do clarinete na segunda metade do século XX. Percebe-se, assim, que a interpretação deste concerto seja hoje considerada pelos jovens clarinetistas virtuosos como um desafio irresistível; uma verdadeira oportunidade de afirmação.
Rui Campos Leitão