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Camille Saint-Saëns cerca de 1886 | Fonte: Wikimedia Commons

25/09/2021

O Carnaval dos Animais


O Carnaval dos Animais é uma obra instrumental que foi composta por Camille Saint-Saëns em 1886 com o suposto propósito de entreter alguns amigos numa Terça-Feira de Carnaval. Não se estranha, por isso, os apontamentos burlescos que a atravessam. A música ilustra uma série de animais, tais como galinhas, cangurus, fósseis… pianistas?! Trata-se, portanto, de uma verdadeira sátira musical.

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Em grande medida, O Carnaval dos Animais é um exercício de estilo (ou estilos), por parte de Saint-Saëns. Tudo terá tido origem duas décadas antes, quando ensinava na École Niedermeyer, no coração Paris, onde tinha como alunos Gabriel Fauré e André Messager. Nessas aulas havia lugar a improvisações ao piano muito bem humoradas. Em jeito de caricaturas musicais, o professor ilustrava o estilo de escrita dos mais diferentes compositores. Vinte anos mais tarde, a «brincadeira» resultou nesta encantadora «fantasia musical zoológica» em que as tartarugas dançam lentamente ao som do cancan mais lento de que há memória; neste caso a manipulação de uma música de Jacques Offenbach, um dos mais populares compositores de opereta do século XIX. Os elefantes movimentam-se ao som de um muito transformado Minueto de Hector Berlioz. E os exemplos sucedem-se, com acentuado tom trocista. A tal ponto que o próprio compositor preferiu não autorizar a execução pública da obra, pois queria manter o estatuto de compositor sério que havia conquistado. Só a leitura do seu testamento, já no final de 1921, permitiu que voltasse a ser tocada. Curiosamente, logo se tornou na sua composição mais popular.

Recuando agora até janeiro de 1886, Camille Saint-Saëns fazia uma digressão pela Alemanha, da qual se esperava grande aclamação. Porém, à passagem por Berlim enfrentou uma forte contestação. O seu (novo) Concerto para Piano N.º 4 era rejeitado, não porque a música não fosse apreciada, mas porque o músico tinha anteriormente tomado partido numa querela que visava impedir a representação de Lohengrin de Richard Wagner em Paris. Seguiu então viagem, terminando com um período de férias numa pequena localidade próxima de Viena. Foi aí que compôs O Carnaval dos Animais. Trata-se de uma suíte de catorze pequenas peças que, na vez de danças, evocam animais. A mais conhecida é «O Cisne», a única que Saint-Saëns permitiu ser tocada em público durante a sua vida e que se tornou presença obrigatória no repertório de qualquer violoncelista. Foi originalmente pensada para ser tocada por Charles-Joseph Lebouc, o violoncelista que promoveu e organizou aquele sarau de 9 de março de 1886. «O Cisne» viria a ser coreografada em dezembro de 1907 por Mikhail Fokine em São Petersburgo, tendo como bailarina Anna Pawlowa.

Entre todas, há mais três peças que se destacam como pilares estruturantes da obra: «Introdução e Marcha Real do Leão», «Aquário», e «Final». A instrumentação, invulgar – flauta, clarinete, jogo de sinos, xilofone, dois pianos, dois violinos, viola d’arco, violoncelo, contrabaixo –, é diferente para cada uma das peças. Juntam-se todos somente no «Final», pelo que é uma ótima maneira de ficar a conhecer melhor cada um deles. Não por acaso, é uma obra frequentemente tocada em programas de caráter didático. Costuma também ser alternada com a declamação de textos que fazem alusão aos animais em questão. O mais conhecido foi escrito no final da década de 1960 pelo humorista Francis Blanche. Mas existem outros.

Rui Campos Leitão

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