Em 1899, Arnold Schoenberg descobriu a poesia de Richard Dehmel, designadamente o livro de poemas Weib und Welt (Mulher e Mundo), que inclui Verklärte Nacht (Noite Transfigurada). A leitura foi de tal modo intensa que deu azo à composição de umas quantas canções e da sua primeira obra exclusivamente instrumental. Esta última consiste numa recriação programática. Originalmente escrita para sexteto de cordas, em 1917 viu ampliado o alcance dramático numa adaptação para orquestra de cordas. O poema aborda os temas da culpa e da transcendência do amor numa atmosfera noturna transformadora. A partitura acompanha livremente a sequência dos versos e resulta numa obra de grande beleza expressiva, com momentos de tensão, lirismo e êxtase.
**
O poema de Dehmel divide-se em cinco estrofes que, em proporção variável, dão voz a três personagens: o narrador, a mulher e o homem. Descreve um momento íntimo e tormentoso do casal, numa caminhada ao luar, num bosque frio e inóspito. A mulher revela então que se encontra grávida de uma relação anterior, da qual se arrepende. Expressa a angústia profunda que sente. O homem responde com compreensão, confiante de que o amor entre ambos é garantia de uma «transfiguração» da criança, tornando-a também sua. O termo «Transfiguração» refere-se, portanto, a essa transformação emocional e espiritual. Deste modo, um encontro inicialmente carregado de tensão e sofrimento é convertido, pelo poder do perdão e do amor, numa noite de luz e redenção.
Por tudo isto, é tentador buscar no decurso da criação de Schoenberg a estrutura «A B A’ C A’’» do poema – correspondendo as secções «A» às intervenções do narrador. De início, a cadência processional dos violoncelos instala um ambiente sinistro. A expectativa fica criada. À medida que a música avança, surgem diferentes camadas sonoras. Torna-se agressiva, com uma violência contida que ilustra bem a agonia psicológica da mulher. Precisamente no meio da peça, sofre uma inflexão notória, com uma melodia gloriosa que se traduz no alívio de uma tensão acumulada. Parece corresponder ao momento em que o homem fala pela primeira vez.
Mas nem tudo é assim tão linear. É certo que podemos vislumbrar na música a superação da dor. Mas o próprio compositor teve a oportunidade de esclarecer que não pretendeu ilustrar a ação e o drama. Limitou-se a retratar a natureza e a expressão dos sentimentos humanos. Assim, as ideias musicais sucedem-se com grande celeridade, sobrepõem-se, entrelaçam-se em texturas densas. Os cromatismos dificultam a distinção dos fluxos harmónicos. Os ritmos irregulares e os saltos intervalares criam imprevisibilidade. Schoenberg começara então a desprender-se das influências de Brahms e Wagner. Paradoxalmente, prosseguia a tradição, mas desafiava as convenções de um passado exaurido. A estreia da obra no Musikverein de Viena, em 1902, causou polémica, tanto em virtude do conteúdo do poema – considerado escandaloso naquela época – como das inovações musicais. É hoje reconhecida como chave para compreender o expressionismo germânico e os prenúncios do modernismo musical. É marco da «transfiguração» do estilo romântico tardio nas vanguardas estéticas do novo século.
Rui Campos Leitão
Imagem: «Clair de Lune», Pintura a óleo de Henri-Joseph Harpignies (1897) / Fonte: Wikimedia Commons