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Metamorfoses

Richard Strauss compôs a obra Metamorfoses no final da Segunda Grande Guerra, quando a vitória dos Aliados era para todos evidente e tudo se desmoronava à sua volta. Assume, por isso, uma carga simbólica muito grande. Mas é também uma partitura muito peculiar, do ponto de vista técnico. Escrita para vinte e três partes independentes, desenrola-se na transformação progressiva das ideias. É uma polifonia densa e em permanente mutação.

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Há músicas que tanto despertam um sem-fim de ideias e opiniões como se estendem em terreno fértil para a subjetividade das emoções. Esta dualidade resulta avassaladora nesta obra do músico alemão. Metamorfoses é um sentido lamento assinado por um compositor que se manteve durante várias décadas divorciado das correntes estéticas emergentes, mas que neste caso não se coibiu de dialogar despojadamente com o que via à sua volta. Foi escrita entre agosto de 1944 e março de 1945, quando se precipitava o final da Segunda Grande Guerra. Em outubro de 1943, a Ópera da Corte de Munique, onde seu pai tinha sido trompista durante décadas e de onde guardava memórias de infância, foi destruída pelos bombardeamentos. Tudo ruía: o Regime Nazi, com a barbárie que, por fim, se revelava aos seus olhos; a identidade cultural alemã em que firmara a sua existência. Houve ainda quem tivesse relacionado a disposição sentida das Metamorfoses com a morte de Hitler, mas a ideia foi prontamente rebatida. Afinal, quando o ditador se suicidou já a obra estava concluída, e quando nos últimos compassos da partitura se lê a inscrição «In memoriam» é a Beethoven que se refere – nesse momento ouve-se uma melodia do segundo andamento da Sinfonia Eroica. Há um episódio que demonstra bem a feição pessoal desta obra. Strauss não quis assistir à estreia, que teve lugar no dia 25 de janeiro de 1946 em Zurique. Fez questão, todavia, de dirigir o ensaio geral.

O título Metamorfoses terá sido emprestado de um poema de Goethe, mas inverte a conotação positiva do conceito de «Metamorfose» original no texto; uma alusão da evolução do Homem em direção à Harmonia. Em vez disso, é uma reflexão profunda sobre o conhecimento de nós mesmos, sobre a transfiguração da alma humana em espírito de crueldade. Em forma de variações, os motivos melódicos transformam-se lentamente, de maneira obstinada, num entrelaçado de dissonâncias. São polifonias complexas pontuadas por uníssonos dramáticos sobre o timbre tão característico das cordas da orquestra, que aqui se repartem em vinte e três partes distintas.

 

Rui Campos Leitão

 

Imagem: Portão da Vitória em Munique (1945) / Fonte: Wikimedia Commons