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Mendelssohn em 1821 | Pintura de Carl Joseph Begas (1794–1854) | Fonte: Wikimedia Commons

06/10/2020

Mendelssohn Precoce


Para lá das cinco sinfonias para formação orquestral completa, Mendelssohn deixou-nos várias pequenas sinfonias para as cordas da orquestra – os violinos, as violas d’arco, os violoncelos e os contrabaixos. Surpreendentemente, foram compostas quando era adolescente. Ainda assim, e apesar de não esconderem processos de aprendizagem, revelam a singular identidade artística de um grande músico em plena fase de florescimento.

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Entre os doze e os catorze anos de idade, Mendelssohn completou doze sinfonias para cordas. Só no ano seguinte, em 1824, completaria a Sinfonia em Dó Menor, Op. 11, a primeira para grande orquestra. Trata-se aqui, portanto, de um jovem prodígio, dos poucos que, em matéria de música, podem ser comparados ao fenómeno de Mozart. Porém, Mendelssohn cresceu numa família culta e abastada, e o seu talento foi cuidado de uma maneira diferente do que aconteceu com o músico austríaco, poucas décadas antes. Os tempos também eram outros.

Quando Felix Mendelssohn tinha apenas dois anos de idade, em 1811, ocorreu a anexação da cidade de Hamburgo pelo Regime Napoleónico. A família viu-se então forçada a mudar para Berlim. A Prússia mantivera-se neutra nos conflitos entre as tropas francesas e os outros estados europeus. Mas em 1806 vários principados germânicos foram ocupados, e a confiscação dos portos tornou-se estratégica para controlar as transações comerciais a norte do continente. Hamburgo perdeu assim o estatuto de independência, comprometendo a atividade financeira dos Mendelssohn que, no entanto, mantinham parte importante do negócio em Berlim e não perderam a fortuna. Ali chegados, só mais tarde se instalaram no palacete da Leipziger Straße. Antes disso, viveram numa residência localizada próximo do atual Hackescher Markt, a qual, apesar de tudo, tinha uma sala com cerca de 60 m2 que permitia realizar verdadeiras tertúlias culturais. Aí recebiam personalidades ilustres, tais como o filósofo G. W. F. Hegel. Esses encontros realizavam-se aos domingos, duas vezes por mês, e eram oportunidade para a criança prodígio tocar piano em público e apresentar as suas composições. Eram o contexto ideal para estimular um talento precoce e desenvolver as suas capacidades.

Mendelssohn começara a aprender piano com sua mãe. Prosseguiu depois os estudos musicais com dois grandes pedagogos: o pianista Ludwig Berger e o compositor Carl Friedrich Zelter. Aos dez anos de idade, Mendelssohn traduzia os clássicos da literatura e começava a compor obras musicais de assinalável envergadura. Em seu favor, tinha à disposição uma pequena orquestra formada por familiares e amigos, entre os quais músicos da Orquestra da Corte. Compôs largas dezenas de obras para os mais diferentes formatos. Durante muito tempo esses trabalhos foram relativamente menosprezados, entendidos como meros exercícios de formação. Felizmente, tal preconceito alterou-se desde há meio século, quando surgiram novas edições. As já célebres doze sinfonias para cordas são disso bom exemplo. Não espanta que, já então, ninguém questionasse que aquela criança iria seguir a carreira de músico, pela mais genuína vocação.

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