O que há de comum nas melodias de Natal? Uma alegria nostálgica, talvez. Nas últimas semanas de cada ano, os espaços comerciais, as ruas das cidades, os meios de comunicação social e as redes sociais são invadidos por essas melodias que se repetem até à exaustão. Ainda que quiséssemos, é impossível ficar indiferente. Provêm de uma celebração religiosa com projeções seculares. Assumem múltiplas conotações, tantas vezes relacionadas com o consumo. Há, porém, uma comoção latente em todas elas. Para lá da paisagem sonora, o maestro Pedro Neves propõe-se trazê-las a palco. Juntou quatro delas numa partitura orquestral, e reclama-lhes a atenção.
**
Estas são melodias que evocam memórias de gentes e lugares. Despertam estados de ânimo que guardamos connosco sem ter disso consciência. Não nos saem da cabeça. Nalguns momentos, provocam um encantamento que não se explica. A par das luzes, dos gestos, das palavras, das prendas, da comida… contribuem para encenar a atmosfera festiva própria da quadra natalícia. Na origem, são hinos litúrgicos, cantos devocionais, canções populares que se tornaram «clássicos». Atravessaram séculos com a função de ritualizar contextos de comunhão e partilha. São também mensagem de esperança.
A peça musical que Pedro Neves intitulou Luzes de Natal estrutura-se numa sequência de quatro melodias de Natal conhecidas de todos. Primeiro, o hino Adeste fideles, cuja autoria se atribui hoje a John Francis Wade, um músico inglês do século XVIII que a integrou numa coletânea de cânticos publicada em França em 1751 com o título Cantus Diversi. Curiosamente, ficaria mais tarde conhecido como o «Hino Português», por ser cantado regularmente da Capela Real Portuguesa no período de Natal (será lenda que tenha sido criado pelo rei D. João IV). Já o clássico Jingle Bells, teve origem em meados do século XIX. James Lord Pierpont compôs então One Horse Open Sleigh, uma canção destinada a espetáculos teatrais representados em Boston e em Nova Iorque. A letra descreve corridas de trenó e diversões de inverno. Por isso, seria associada ao Natal poucas décadas mais tarde, até aos nossos dias. Segue-se We Wish You a Merry Christmas, um cântico de Natal que remonta ao século XVI no sudoeste da Inglaterra, quando músicos itinerantes desejavam boas festas pedindo doces e boa disposição. Tornou-se «universal» por intermédio de um arranjo coral de Arthur Warrell, em 1935. Por fim, o Natal de Évora ou, mais precisamente, a cantiga tradicional alentejana O Menino está dormindo que Mário de Sampayo Ribeiro datou de finais do século XVIII e tornou popular em 1955, com a publicação das Sete Cantigas Populares Portuguesas. No final, tudo se junta numa textura polifónica festiva.
Rui Campos Leitão