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Hanover Square Rooms cerca de 1830 | Fonte: Wikimedia Commons

26/05/2021

Haydn em Tom Menor


A Sinfonia N.º 95 é uma das sinfonias de Haydn que foram compostas em Londres, já no final da sua carreira. Apesar de nunca ter sido umas das mais populares, distingue-se por diversos aspetos. Como exemplo, é a única das Sinfonias de Londres com tonalidade Menor. Com efeito, Dó Menor é uma tonalidade potencialmente sombria, propensa a dramatismos. Coincidiu dezassete anos mais tarde na Quinta Sinfonia de Beethoven.

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Joseph Haydn completou mais de uma centena de sinfonias, a primeira em finais da década de 1750, a última em 1795. Em conjunto, foram fundamentais na afirmação do prestígio que o género Sinfonia teve junto dos compositores que lhe seguiram, desde logo com Ludwig van Beethoven. As doze últimas são aquelas que se tornaram mais conhecidas. Foram compostas em Londres e demonstram a extraordinária capacidade de um músico que, tendo passado a maior parte da vida dentro das paredes de um palácio, e ao serviço de um só patrono, soube reinventar-se quando lhe foi dada a oportunidade de se dirigir a um público diferente. A classe média de Londres era apreciadora das artes de palco. Valorizava nessas representações a transmissão de um conteúdo moral, pelo que estava mais receptiva à música vocal. Haydn esforçou-se por ir ao seu encontro, também com o «simples» recurso de uma orquestra.

A Sinfonia N.º 95 foi estreada no Hanover Square Rooms em 1791, muito embora não se conheça a data com precisão. É a terceira das doze Sinfonias de Londres, e a única entre estas que não tem uma introdução lenta. Muitos teóricos garantem que estas introduções tinham como intuito sugerir uma disposição moral, como se fosse a abertura de uma ópera ou de uma representação teatral. O compositor procurava então ir ao encontro das preferências da audiência, mas neste caso optou por não o fazer. Preferiu também uma tonalidade Menor e dispensou a introdução lenta. Em resultado, a aceitação do público foi comedida. A composição tornou-se assim singular, com soluções que não se reconhecem nem nas sinfonias anteriores nem nas subsequentes.

O primeiro andamento é eminentemente dramático, ao passo que o segundo é exemplo do formato Tema e Variações, baseando-se nas cordas da orquestra mas com intervenções pontuais dos sopros. O Trio que se ouve a meio do terceiro andamento, o Minueto, mais parece pertencer a um concerto para violoncelo e orquestra. Trata-se de um solo que percorre com elegância toda a tessitura daquele instrumento, desde os graves até aos agudos. É um momento luminoso que desponta a meio de um ambiente relativamente ríspido de caráter. Apesar do registo gravoso da tonalidade de Dó Menor que dá início à sinfonia, no final ostenta uma atitude triunfal, em Dó Maior.

 

Rui Campos Leitão

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