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Gran Partita

No século XVIII as serenatas eram peças instrumentais divididas num grande número de andamentos. Tocavam-se em situações de entretenimento social e eram muitas vezes dedicadas a alguém. Não sabemos a quem Mozart dedicou a Serenata N.º 10, no princípio da década de 1780, quando se mudou para Viena. Talvez ao Imperador José II. Talvez a Constanze, com quem se casou por essa mesma altura. Certo é que seria mais tarde conhecida pelo nome Gran Partita, ou não fosse a composição instrumental mais longa de todo o seu catálogo, mais extensa do que qualquer uma  das sinfonias.

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Quem teve a oportunidade de ver o filme Amadeus, realizado por Miloš Forman em 1984, poderá eventualmente recordar-se de uma cena em que a personagem que representa Antonio Salieri, então já envelhecido, recorda o deslumbramento que sentiu quando se deparou pela primeira vez com uma partitura de Mozart. Descreve a simplicidade com que tudo aí se desenrola, mais parecendo, na vez da criação de um homem, a voz de Deus. A música em causa era o Adagio desta serenata, mais precisamente, o quarto andamento. É certo que se trata de uma situação ficcionada, mas não deixa de ser uma apreciação que muitos de nós poderíamos partilhar e que nos ajuda a perceber o que torna esta obra tão singular.

Dispõe doze instrumentos de sopro em pares, sempre apoiados por um contrabaixo. Cada um deles intervém com uma identidade única, nunca se afastando das características naturais do instrumento – o timbre, a tessitura, as condicionantes próprias do manuseamento técnico. Os momentos de conjunto assemelham-se à sonoridade dos tubos de um órgão. Alternam com os pares dialogando entre si, sempre com oportunidade e cortesia, à boa maneira dos salões aristocráticos de Viena da segunda metade do século XVIII. Foi para esse contexto que Mozart escreveu esta serenata, pouco tempo depois de se instalar definitivamente na capital da Monarquia dos Habsburgo, no início dos anos 1780. Entre os músicos da orquestra do Imperador José II que estrearam a obra, achava-se Anton Stadler, o mesmo músico que viria a estrear a parte solista do célebre Concerto para Clarinete e Orquestra.

 

Rui Campos Leitão

 

Imagem: Primeira página do manuscrito autógrafo da Serenata N.º 10 de W. A. Mozart.