O Concerto para Piano, Trompete e Orquestra de Cordas de Dmitri Chostakovitch estreou em outubro de 1933 no concerto de abertura da temporada da Filarmónica de Leningrado. Foram solistas o próprio compositor, ao piano, e o trompetista russo Alexander Schmidt, prestigiado pedagogo deste instrumento. O sucesso foi imediato e, desde então, tem sido repertório corrente nas salas de concerto de todo o mundo. Apesar de ser frequentemente anunciado como Concerto para Piano N.º 1, o protagonismo confiado à trompete não deixa dúvidas de que se trata de um «duplo concerto». Dividido em quatro andamentos – o terceiro pode ser entendido como interlúdio – é um acabado exemplo de ecletismo em matéria de música. Ainda assim, consegue uma surpreendente unidade, apesar da enorme diversidade de estilos e referências que agrega. Distingue-se também por harmonizar a diversão grotesca com a seriedade introspetiva.
**
Naquela época, o ambiente social de Leningrado – hoje São Petersburgo – vinha sendo condicionado pelo avanço da repressão estalinista. Em vésperas da Grande Purga, sentia-se a ameaça da censura e a repressão das autoridades que, já desde a década anterior, estavam focadas na mobilização da população para a industrialização e para o serviço comunitário. Mantinha-se, porém, a efervescência cultural e o culto do entretenimento. Sem as extravagâncias dos Loucos Anos Vinte de outras paragens, e muito além das ações educativas e da propaganda, havia espectáculos de teatro, bailados, concertos, cafés e clubes recreativos. Explica-se assim a acutilância e o espírito bem humorado desta obra.
Chostakovitch pretendia inicialmente compor um Concerto para Trompete, mas mudou de ideias. É esta a razão do protagonismo alternado entre piano e trompete. No primeiro e último andamentos ressalta a irreverência das intervenções da trompete. Em contraste, na valsa lenta do segundo andamento esta responde ao silêncio com uma melodia pungente. Mas a articulação entre sonoridades tão distintas – piano, trompete e cordas – não era o principal desafio. Chostakovitch revelou-se nesta obra enquanto virtuoso poliglota de citações e estilos musicais alheios. A partitura está pejada de apropriações e referências a música de outros compositores. É como um mosaico formado por peças das mais variadas proveniências. Mas resulta coerente, graças a uma criatividade deslumbrante. Logo no primeiro andamento, recuperou um excerto da música que ele próprio havia acrescentado anos antes a uma produção russa da ópera O Pobre Colombo de Erwin Dressel. A apropriação caricatural do ritmo característico do ragtime não esconde o sarcasmo que aponta para uma parada de marinheiros norte-americanos. Mas o derradeiro andamento é particularmente ilustrativo. Identificamos três (ou mais) melodias tradicionais citadas na parte de trompete. A que mais se destaca é Poor Jenny is a-weeping, um jogo-canção que se popularizou no folclore inglês do século XIX. Há motivos esparsos que lembram a sonata Appassionata de Beethoven, e até mesmo o Prelúdio N.º 24 de Chopin. Na cadência do piano escuta-se o Rondó a capriccio do mesmo Beethoven, o Op. 129, também conhecido por «Raiva por um centavo perdido». É ainda feita uma breve alusão à Sonata para Piano de Joseph Haydn em Ré Maior Hob XVI:37.
Com tudo isto, vem-nos à ideia o construtivismo russo. Este movimento estético, associado à vanguarda artística que ali despontou no início do século XX, rompeu com as orientações académicas e classicistas, dando preferência a propósitos eminentemente funcionais. Muito embora tenha irradiado na arquitetura, na pintura, na escultura, na fotografia, no cinema e até na dança, não são evidentes semelhantes repercussões no domínio da música. Porém, reconhecem-se algumas afinidades neste Op. 35 de Chostakovitch, designadamente quando desafia o paradigma de uma arte pura e se assume implicitamente como intervenção cívica – ainda que velada e porventura dissonante com a ideologia vigente. É música que convoca materiais dispersos para um exercício de colagens e combinações inusitadas. É experimental, mas formalmente robusta.
Rui Campos Leitão
Imagem: Avenida Nevsky em Leningrado nos anos 1930 / Fonte: Picryl