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Peter Eötvös | © Klaus Rudolph

09/09/2020

Diálogo com Mozart


Em «Diálogo com Mozart», Peter Eötvös surpreende-nos como uma releitura sofisticada dos cadernos de apontamentos do músico de Salzburgo. Não se trata de um trabalho de reconstituição, mas antes de uma recreação improvável em que coexistem harmoniosamente o passado e o presente. Partindo sempre de fragmentos melódicos que nos transportam até ao século XVIII, evolui e transforma-se em sucessivas vagas sonoras que remetem para novos tempos.

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Ainda adolescente, Peter Eötvös formou-se como compositor na Academia de Música de Budapeste e nos circuitos mais comerciais do cinema e do teatro. A versatilidade que tal lhe exigia, juntamente com o facto de muita da música que compunha ser imediatamente tocada em público, marcou profundamente o seu percurso de compositor. Foi nessa época que começou a criar efeitos dramáticos contrastantes e a sobrepô-los em «montagens sonoras», prática que o acompanhou ao longo da carreira. Assim, a criação de ambientes e a variedade de recursos são características marcantes nas suas obras, nas quais há sempre uma componente teatral de apreensão imediata que permanece inscrita em segundo plano. De certo modo, pode-se afirmar que a identidade do seu pensamento musical deve mais ao cinema e ao teatro do que ao classicismo sinfónico.

Este retrato poderá estranhar aqueles que, sobretudo, conhecem o percurso de Peter Eötvös enquanto maestro. Com efeito, o músico saiu da Hungria em 1966 para ir estudar em Colónia. Viveu depois um longo período em Paris, onde esteve à frente do Ensemble Intercomtemporain durante cerca de uma década, e depois na Holanda. Desde finais da década de 1770, tornou-se habitual a sua presença à frente das principais orquestras mundiais. Estreou várias obras de Karlheinz Stockhausen e aprendeu muito com a sua criatividade mental. Pierre Boulez ensinou-o a comunicar com os músicos e abriu-lhe portas para interpretar repertório de referência da segunda metade do século XX. Apesar disso, enquanto compositor, sempre se manteve independente das escolas artísticas do pós-guerra. Mostrava-se mais próximo do primado da emoção que sempre foi paradigma na escola húngara, com a influência da música tradicional, de Kurtág, Kodály e, sobretudo, Bartók, cuja música considera ser a sua língua musical materna.

Por tudo isto, o compositor Peter Eötvös explora em quase todas as suas obras recursos de escrita diferentes, atravessando fronteiras entre os mais variados universos expressivos – afinal, mais importante do que o estilo, é o efeito pretendido, a totalidade da experiência. Como tal, o seu catálogo distingue-se pela diversidade estilística, sendo Diálogo com Mozart disso bom exemplo. Esta curta peça orquestral resulta da adaptação para orquestra de uma obra originalmente composta para cimbalão, marimba e agrupamento de câmara, intitulada Da capo (com fragmentos dos fragmentos de W. A. ​​Mozart). Em 2013, a Fundação Mozarteum de Salzburgo mostrou a Peter Eötvös vários cadernos de apontamentos de Mozart com esboços musicais que nunca foram aproveitados… até ao dia em que Eötvös se interessou em «dialogar» com eles. Curiosamente, a peça foi estreada em Portugal, na Casa da Música (Porto) em maio de 2014. Passado um ano, a mesma Fundação encomendou a Eötvös uma versão orquestral da mesma obra para assinalar o seu 175.º aniversário. A «nova» estreia aconteceu já em dezembro de 2016 com o título Diálogo com Mozart, em Salzburgo.

Da capo significa «voltar ao início», e é precisamente esse o princípio condutor da partitura. Em cada recomeço, Peter Eötvös recupera fragmentos melódicos que encontrou nos apontamentos de Mozart e recria-os de maneira sempre diferente, com transmutações de escrita que se explanam em sucessivos contrastes de grande efeito dramático. Deparamo-nos, assim, com disparidades estilísticas muito grandes que se desenrolam sobre vagas sonoras que evoluem ciclicamente desde o conforto harmónico tão característico do repertório clássico até aos mais inusitados tópicos musicais oriundos de outros contextos. Assim se espelha o ecletismo e a imprevisibilidade que distingue o selo criativo de Peter Eötvös.

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