Pedro Lima distingue-se bem na nova geração de compositores portugueses. Em 2016, venceu o Prémio de Composição SPA / Antena 2 com a obra |…| e tu, de mim voaste. Em 2019, foi o Jovem Compositor em Residência na Casa da Música, onde compôs Remembering When e Talkin(g) (A)bout My Generation. No primeiro dia de 2024, inaugurou em Aveiro a programação da Capital Portuguesa da Cultura com Dance Suite. Entre mais de duas dezenas de obras, estas são as quatro composições orquestrais que já assinou. Junta-lhes agora Dance Step. Faltavam três semanas para o dia da estreia (pela Orquestra Metropolitana de Lisboa no CCB a 1 de abril de 2026) – tivemos a oportunidade de conversar com o compositor e espreitar a partitura ainda antes do primeiro ensaio.
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Em jeito de abertura orquestral, Dance Step enquadra-se num projeto mais amplo: a gravação de um álbum cujo conceito cruza estilos «dançáveis» e uma escrita contemporânea que se inscreve na tradição clássica. No caso específico, existe uma alusão explícita à música Disco. Sem eletrónica, enreda os instrumentos da orquestra em texturas homorrítmicas que remetem para as pistas de dança dos anos 1970. As pulsações regulares percorrem as diferentes cores tímbricas: os metais, as madeiras, as cordas. São impulsos sonoros que evoluem numa dinâmica crescente. Mas nem sempre de maneira regular. Há momentos que interferem na expectativa dos nossos corpos. Respiram. E logo retoma uma intensidade que se acumula em sucessivos fôlegos, até desembocar numa exclamação conclusiva.
A palavra «Step» assume assim sentidos múltiplos. Para lá dos «passos de dança», é metáfora dos degraus que a música vai subindo; porventura também dos sucessivos estágios de um artista que se entrega ciclicamente a novos projetos; ou ainda de uma inquietação existencial. São estas as palavras de Pedro Lima: «Para mim, a criação nunca existe no vazio. Não consigo alhear‑me do mundo que habitamos hoje e ficar indiferente. A verdade é que vivemos tempos frágeis, de caos absoluto.» Lembra-nos também que, na origem, a música Disco deu corpo a um movimento cívico de emancipação racial e de género. Buscou consagrar conceitos que a sociedade insistia em não resolver. «Hoje, muitos desses conceitos continuam por resolver. Falo de guerras, de clima… de todas as apreensões que existem no mundo. O caos é de tal ordem que aquilo que mais parece fazer sentido é, precisamente, dançar. É preciso buscar ângulos diferentes, e construir em cima disso.»
Para o efeito, transfigurou a orquestra num enredo poliestilístico que nos conduz a «outros lugares». «Para mim, enquanto compositor, é muito estimulante poder pegar numa orquestra e abordá‑la com o pensamento de DJ. Vejo paletas e recursos que permanecem inesgotáveis». Afinal, a música de tradição clássica é herdeira do humanismo ocidental, com raiz nos ideais da valorização do indivíduo, da razão e da beleza. Apesar da monumentalidade histórica que carrega, com práticas que se converteram em autênticas instituições, é próprio da sua natureza reinventar-se e colocar questões – mais do que dar respostas. Pedro Lima assume essa missão com a consciência de que nada se faz sozinho. Por isso, o seu trabalho não termina com a barra dupla. Faltam os ensaios e os concertos que permitirão transmitir as suas ideias e entusiasmar todos os outros que fazem a música acontecer.
Rui Campos Leitão