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A cidade de Dresden em 1750 Aguarela de Georg Balthasar Probst | Fonte: Wikimedia Commons

01/02/2020

Da Saxónia a Brandeburgo


A cidade de Dresden fica situada cerca de 200 quilómetros a sul de Berlim, uma distância que em meados do século XVIII demorava cerca de quatro dias a percorrer numa carruagem puxada por cavalos. Pertencia ao Ducado da Saxónia, do qual também dependiam Weimar e Leipzig, cidades bem conhecidas da família Bach. Berlim, por seu turno, ficava em Brandeburgo e era a capital do Reino da Prússia. Havia uma intensa rivalidade política e militar entre os dois territórios, mas tal não impediu que, em matéria de música, Frederico O Grande se tenha inspirado em tudo aquilo que se fazia na Saxónia.

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No decurso do século XVIII, as realidades musicais da Saxónia e da Prússia moldavam-se nas circunstâncias políticas da época. Em 1697, a corte saxã havia acrescentado à sua soberania o trono da Polónia. Para o fazer, teve de optar pela conversão ao catolicismo, o que trouxe uma marca distintiva à música que foi daí em diante praticada, designadamente em Dresden, já que nas outras cidades se manteve o culto luterano. Começaram assim a chegar influências musicais de outras paragens: o rigor e a disciplina orquestral eram importados de França, ao passo que o lirismo melódico provinha da ópera italiana. A tudo isto, juntavam-se as tradições musicais da própria região, tais como a Boémia e a Polónia. Tornou-se assim num dos principais centros musicais europeus.

Mas a aproximação da Saxónia aos Habsburgos e a Roma era fonte de preocupação para a Prússia. Este Reino resultou da fusão entre o Ducado da Prússia e o Principado de Brandeburgo, em 1701. Tinha como capital a cidade de Berlim e liderou mais tarde a unificação dos estados alemães, em 1871. Em meados do século, representava uma das principais ameaças para as monarquias católicas, pelo que a tensão política e militar com a Saxónia era bastante grande. Frederico O Grande invadiu a Silésia em 1756, no início da Guerra dos Sete Anos que culminaria na derrota da Saxónia e seus aliados. Nesta altura, o monarca empregava cerca de 50 músicos instrumentistas, projeto que começara três décadas antes, quando aos 16 anos de idade visitou Dresden e ficou deslumbrado com o esplendor musical a que aí assistiu. Ainda antes de subir ao trono, em 1740, a sua residência já contava quase duas dezenas de músicos ao serviço. Teve assim início uma curiosa migração. Com o fim da opulência musical de Dresden, muitos músicos mudaram-se para Berlim. São disso exemplos F. Benda e J. Graun, que saíram de Dresden para se juntar à corte do príncipe, em 1735. Seguiu-se depois J. J. Quantz. Por sinal, a Sinfonia em Ré Maior que foi composta pelo próprio Frederico O Grande em 1743 revela afinidades estilísticas com a música orquestral que se fazia na corte de Dresden. Assemelha-se a uma abertura de ópera italiana, o que também explica que tenha sido recuperada quatro anos mais tarde no contexto de uma representação lírica intitulada Il Re Pastore.

Pode-se afirmar, portanto, que a tradição musical da Saxónia teve continuidade em Brandeburgo. Esta ideia reforça-se num segundo foco de influência. Para lá dos músicos da Capela Real de Dresden, houve vários outros que haviam estudado em Leipzig junto de J. S. Bach e que também rumaram a Berlim. Entre eles, C. P. E. Bach foi o primeiro a trabalhar na corte (1740). Seguiram-se C. Nichelmann (1745), J. F. Agricola (1751) e J. P. Kirnberger (1753). Muitos deles nunca serviram Potsdam, mas distinguiram-se no seio da aristocracia ilustrada berlinense, cuja principal referência era a própria irmã do monarca, a princesa Ana Amália. Aí encontramos o nome de Wilhelm Friedemann Bach, já no final da sua vida, e também o do irmão mais jovem, Johann Christian Bach. Berlim tornou-se assim no principal local de culto do legado de J. S. Bach, e a corte da princesa no seu centro. Por tudo isto, fala-se da existência de uma Escola Bach em Berlim. Todos estes músicos era provenientes de Leipzig e marcaram o meio musical berlinense, para lá da corte, através de apresentações públicas e da edição de partituras. Por sinal, Berlim, terá sido o único sítio que na segunda metade do século XVIII cultivou a ideia de uma «música do passado», muito tempo antes do revivalismo de Bach que se atribui à iniciativa de Mendelssohn, já no início do século XIX. O legado de J. S. Bach participou, por esta via, na construção da identidade do panorama musical berlinense, mas também da tradição musical clássica centro europeia.

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