Em 1943, já no final da vida, Richard Strauss compôs a Sonatina N.º 1 para dezasseis instrumentos de sopro. O músico recuperava então de uma gripe que persistia. Com algum humor, subintitulou a partitura «Da oficina de um inválido». Dividida em três partes, desenrola-se num registo sóbrio, mas sem ser monótono. É como se o autor da Elektra sentisse necessidade de revisitar os clássicos. Vislumbra-se a influência da Gran Partita de Mozart.
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Em 1943, em plena Segunda Grande Guerra, Richard Strauss aproximava-se dos oitenta anos de idade. Encontrava-se, por isso, refugiado com a família em Garmisch, uma pequena vila da Alta Baviera, no sul da Alemanha. Confrontado com as imensas perguntas que as guerras sempre colocam, assistia incrédulo ao desmoronamento do universo cultural sobre o qual tinha construído a sua carreira. Naquele ambiente rústico, rodeado de impressionantes paisagens montanhosas que convidavavam à reflexão, compôs as suas derradeiras obras. Entre elas, contam-se duas sonatinas para instrumentos de sopro que ilustram bem a extraordinária capacidade que tinha para criar a partir de ideias aparentemente simples. Na vez de longas melodias, rendilhou pequenos motivos em técnicas de contraponto e variações que quase parecem improvisadas. Antes de completar vinte anos, havia composto outras duas obras para instrumentos de sopro: a Serenata Op. 7 (1981) e a Suíte N.º 4 (1984). Havia, portanto, algo de pessoal na recuperação desse formato que abandonara seis décadas antes; porventura em diálogo com a própria juventude, ou com uma tradição secular.
A Sonatina N.º 1 contava inicialmente o mesmo número de instrumentos – treze. Mas Strauss ampliou o efetivo, juntando um clarinete em Dó, um cor de basset e um clarinete baixo. Há inúmeras passagens que soam familiares, mas não se identificam proveniências. Resulta numa combinação delicada de sobriedade e sofisticação em que se destacam harmonias carregadas de cromatismos. Tem início com uma ideia afirmativa que irradia profusamente, aqui e ali pontuada por apontamentos solísticos que perturbam o dramatismo e a solenidade dominantes. Segue-se uma lufada de ar fresco, em registo bucólico. Nesta segunda peça, as melodias assumem maior protagonismo. Por fim, um Finale em que a componente rítmica irrompe energicamente. Partindo de uma fanfarra, desenvolve-se em sucessivas variações que surpreendem compasso a compasso.
Rui Campos Leitão
Imagem: Residência de Richard Strauss em Garmisch