Os concertos musicais por subscrição pública espelhavam em finais do século XVIII uma evolução importante das sociedades europeias. Nessa matéria, a cidade de Londres era então um dos centros mais dinâmicos e competitivos. Havia, inclusivamente, lugar para rivalidades entre músicos e entre empresários. Em março de 1792, Haydn fez estrear uma obra que destaca o violino, o oboé, o fagote e o violoncelo como solistas à frente da orquestra. Respondia assim às sinfonias concertantes com que Pleyel lhe disputava a atenção dos frequentadores da Sala da Praça de Hanover.
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JosephHaydn terá composto cerca de meia centena de concertos para solistas com orquestra. Porém, para lá do Concerto para Trompete em Mi Bemol Maior e do Concerto para Violoncelo em Ré Maior, são muito pouco conhecidos. A maioria data do início da carreira, com excepção daquele Concerto para Trompete (1796) e desta mesma Sinfonia Concertante, composta em 1792, durante a sua primeira permanência em Londres a convite do violinista e empresário Johann Peter Salomon. Distinta das Sinfonias N.º 93 e N.º 98, estreadas antes, tinha um formato insólito, motivado pela assumida concorrência com a temporada de concertos de outro empresário, Wilhelm Cramer. Os concertos de Salomon aconteciam às segundas-feiras. Às quintas-feiras, Cramer apresentava-se no mesmo teatro com os trunfos do rigor orquestral, que trazia de Mannheim, e Ignaz Pleyel, um compositor igualmente prestigiado naquela época.
Haydn conhecia bem o seu compatriota, desde que em 1772 o jovem músico fora estudar consigo em Eisenstadt. Seguiram depois rumos diferentes. A música de Haydn só começou a ser tocada fora da corte dos Eszterháza a partir do anos 1780. Pleyel prosseguiu estudos em Itália e tornou-se Mestre de Capela da cidade de Estrasburgo em 1784, fixando-se em Paris em 1795. O destino juntou-os novamente em Londres, diante de um público que apreciava bastante o virtuosismo instrumental e o estilo concertante. Ainda assim, não se sente nesta obra de Haydn qualquer crispação, mas antes espírito lúdico. Os solistas alternam entre si o protagonismo. Fazem demonstrações de virtuosismo técnico e destreza expressiva, mas prevalece a coerência e a elegância. Haydn mantinha-se fiel a si próprio, mais interessado em encantar do que em desafiar.
Ao contrário de um concerto barroco, os solistas misturam-se muitas vezes com a orquestra. Logo de início, participam na exposição do tema. Depois, destacam-se a solo, ou em pares. São quatro timbres e tessituras contrastantes combinados de maneiras variadas ao longo dos três andamentos: os sopros contra as cordas; os agudos contra os graves; ou mesmo o violino e o fagote contra o oboé e o violoncelo, como acontece no início do segundo andamento. Entre os quatro, o violino assume maior protagonismo, sobretudo no último andamento. Afinal, era solista o próprio Solomon.
Rui Campos Leitão