Na Terceira Sinfonia, Franz Schubert revela a sua faceta mais clássica, mas com a irreverência de um jovem de 18 anos de idade. Nela predomina o rigor formal e os diálogos entre as diferentes partes instrumentais. Por isso, parece soar menos romântica do que as cerca de seis centenas de canções que compôs. Mas não deixa de surpreender com ideias que despontam em cada virar de página. Em particular, destaca-se a imensa energia do último andamento, ao ritmo da tarantela. Esta é uma conclusão que lembra as óperas cómicas que tanto sucesso faziam no início do século XIX.
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Em 1815, ano em que esta sinfonia foi composta, Viena era uma cidade que vinha sofrendo profundas transformações num curto espaço de tempo. As tropas de Napoleão instalaram-se ali entre 1809 e 1813, provocando um tremendo abalo nas práticas de cultura e, muito particularmente, na atividade das orquestras profissionais e privadas anteriormente financiadas pela aristocracia. Predominavam, por isso, pequenos agrupamentos amadores que, com dispositivos instrumentais menos ambiciosos, atendiam às principais necessidades de entretenimento na convivência doméstica. Na casa dos Schubert formou-se um pequeno ensemble instrumental inicialmente composto pelos membros da família. Porém, não tardou em crescer, à medida que se lhe foram juntando músicos amigos. A dada altura já se formara uma orquestra com dimensão suficiente para tocar sinfonias de Mozart e de Haydn. Foi este o contexto que encorajou Schubert para se aventurar no domínio da música orquestral. Ouve-se, por isso, nas sinfonias iniciais, influências daqueles dois compositores, assim como do primeiro período criativo de Beethoven. Mas o seu cunho pessoal impõe-se com uma atmosfera jovial e uma fluência rítmica e melódica que florescem de compasso em compasso.
Nesta Terceira Sinfonia prevalecem padrões rítmicos e orquestrais inspirados na música popular. Escutam-se células repetitivas pontuadas pelo tempo forte nos contrabaixos, respostas sincopadas nos violinos e intervenções vivazes dos sopros a todo o instante. São texturas sonoras como esta que impulsionam a conduzem a obra. Resta, portanto, pouco espaço para grandes melodias. Tudo parece simples, espontâneo, com sucessivas alusões a danças tradicionais. Começa com um ambiente solene, depois bucólico, mas não tarda em precipitar-se em jorros de criatividade sobre pequenos motivos melódicos e uma orquestração verdadeiramente entretida. A graciosidade e o humor sobem ao palco no segundo andamento, na vez do lirismo cantabile. O minueto, de caráter rústico, deixa ecoar influências mundanas. Por fim, um Presto vivace que parece dialogar com as óperas de Rossini. Apresenta uma escrita plena de vivacidade, vertiginosa imaginação e ideias musicais assentes em contrastes incrivelmente sedutores.
Rui Campos Leitão
Imagem: Retrato de Franz Schubert em 1825 / Wilhelm August Rieder / Fonte: Wikimedia Commons