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Praga em 1853 | Pintura de Ferdinand Lepié | Wikimedia Commons

01/11/2020

A Sinfonia Praga


W. A. Mozart esteve em Praga em três ocasiões: primeiro no início de 1787, depois em outubro e novembro do mesmo ano e, ainda, pouco antes do final da vida, em 1791. As suas obras que estão mais estreitamente ligadas à história daquela cidade são as óperas As bodas de Figaro, Don Giovanni e La Clemenza de Tito. Mas também a Sinfonia Praga. Curiosamente, quando esta foi composta, em 1796, o compositor não tinha em mente a capital checa, mas sim uma viagem a Inglaterra.

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Em boa verdade, a criação desta sinfonia não foi inspirada na cidade que lhe deu o nome. Tal título deve-se à circunstância de ter sido efetivamente estreada em Praga, no início do ano de 1787. Durante muito tempo pensou-se que Mozart tinha composto a obra para essa ocasião. Porém, tal deslocação só se proporcionou em virtude do extraordinário sucesso que uma produção da ópera As bodas de Figaro ali obteve no início de dezembro de 1786. Ora, nessa altura a partitura já estaria completada. Ainda assim, a designação é absolutamente merecida. Em todo o seu percurso biográfico, Praga terá sido a cidade que melhor acolheu o músico de Salzburgo. Segundo um relato do próprio, eram muitos aqueles que pelas ruas trauteavam e assobiavam as suas melodias, pelo que não terá hesitado em oferecer a primeira audição desta sinfonia. E não se arrependeu. Foi amplamente aclamada e tornou-se num monumento ao amor pela música que ainda hoje se respira nas margens do rio Moldava.

Em si mesma, esta obra representa um passo em frente na evolução do estilo clássico. Desde a composição da Sinfonia Linz, em 1783, Mozart havia-se empenhado noutros formatos, tais como a ópera, o concerto para piano e a música de câmara. A Sinfonia Praga reflete, assim, os novos horizontes que nesse período se descobriram, traduzindo-se num passo em frente dado no sentido de uma escrita orquestral mais sofisticada e de maior efeito dramático. Aos trinta anos de idade, o percurso criativo de Mozart tinha entrado numa nova fase e atingido uma maturidade sem precedentes. Em cada página, revela-se uma nova maneira de encarar a escrita sinfónica. Os motivos melódicos relacionam-se num entrelaçado de ideias em que a fragmentação deliberada dos temas não compromete a integridade da obra. Também apresenta uma escrita muito mais exigente para os músicos, com inúmeras passagens ritmicamente complexas e figurações rápidas que colocam à prova a destreza técnica de qualquer instrumentista, em particular dos sopros, o que à data era bastante inovador. Surpreende, também, por ter três andamentos, numa época em que as grandes sinfonias tinham quatro – fica a faltar um minueto, entre a expressiva serenidade do andamento lento e a efervescência rítmica do último.

Tudo começa com uma introdução lenta e extremamente dramática, à semelhança da abertura de uma ópera. Seria prenúncio de Don Giovanni, a ópera que estreou no palco do Teatro Nacional de Praga dez meses mais tarde. Mas é o segundo andamento que mais se aproxima do drama lírico, com três temas melódicos que se sucedem como num desfile de personagens. Por sua vez, também a melodia do último andamento vem ao encontro da influência teatral. Consiste numa citação do dueto entre Susanna e Cherubino que se ouve no segundo ato d’As bodas de Figaro. Com estrutura relativamente simples, este último andamento brota de uma escrita cristalina onde impera a economia dos recursos utilizados.

 

Rui Campos Leitão

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