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Sinfonia N.º 40 de Mozart

Entre as quarenta e uma sinfonias que Mozart escreveu, a N.º 40 é uma das mais tocadas. Todos reconhecemos a melodia que dá início ao primeiro andamento. Ainda assim, parece resistir a qualquer síndrome de desgaste. Apesar dos mais de duzentos anos de história que traz consigo – concertos, emissões radiofónicas, discos, publicidade, filmes, estudos académicos… – apresenta-se invariavelmente disposta a connosco dialogar; misteriosa, jovial, sempre com algo novo para revelar.

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Enquanto ouvintes, sentimos muitas vezes a dificuldade de apreciar plenamente uma obra quando a escutamos pela primeira vez; porventura por falta de referências. Mas também é certo que pode ser custoso manter uma atenção genuinamente interessada quando se trata de música que já escutámos vezes sem conta. Neste caso são outros os entraves, seja porque se torna previsível o que vem de seguida ou porque as partes mais conhecidas obscurecem o que acontece em redor. Por tudo isto, é sempre deslumbrante quando uma obra musical nos cativa e surpreende de princípio ao fim em cada oportunidade, independentemente de já  sabermos como acontece e como acaba.

Para lá da célebre melodia inicial, desenvolve-se em quatro andamentos que cruzam a transparência do estilo clássico e a afetação romântica. No primeiro, o acompanhamento enérgico dos instrumentos mais graves mantém uma expectativa iminente – «algo está prestes a acontecer». Um curto motivo descendente reaparece com insistência, mas sempre com renovado propósito. No Andante que se segue, prevalece a elegância e, uma vez mais, assiste-se a uma notável concisão das ideias musicais, desta vez ao serviço de um sentimento de resignada tristeza. Já no Minueto, regressa uma ambiência incisiva e dramática baseada em acentuações sincopadas, fazendo esquecer a identidade original daquela dança social. O quarto andamento resulta na mais cabal demonstração da audácia e mestria do compositor austríaco, por intermédio de motivos contundentes que apontam a uma rutura surpreendente na secção central, o Desenvolvimento. Por fim, tudo regressa às ideias iniciais – «como se nada tivesse acontecido!»

 

Rui Campos Leitão