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Retrato póstumo de Franz Joseph (1810) Edme Quenedey (1756-1830) | Fonte: Bnf Gallica

13/01/2021

A Sinfonia N.º 102 de Haydn


Um dos aspetos mais fascinantes das doze sinfonias que Joseph Haydn estreou aquando das duas permanências em Londres, na década de 1790, é a evidente evolução estilística. Ao escutá-las podemos acompanhar um linha que se desloca desde os salões de entretenimento aristocrático até ao contexto mundano dos espetáculos públicos londrinos. Tal representa um contributo determinante para a projeção simbólica, política e social que o género sinfonia veio a assumir no século seguinte. A N.º 102 é bom exemplo da fase final desse trajeto.

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Em fevereiro de 1795, quando estreou a Sinfonia N.º 102 no Teatro de Sua Majestade, em Londres, Joseph Haydn contava sessenta e dois anos de idade. Conta-se um episódio curioso que terá ocorrido durante essa apresentação. Um candelabro terá caído numa zona da plateia que se encontrava felizmente vazia, em virtude de todos se terem deslocado para junto do palco para ver bem de perto o famoso Haydn que se encontrava sentado ao piano. «Milagrosamente», ninguém se feriu com gravidade. A veracidade da história é questionável. Foi revelada numa nota biográfica sobre o compositor assinada por Albert Christoph Dies, reportando à estreia da Sinfonia N.º 96 em abril de 1791, razão pela qual esta ficou conhecida pelo nome «O milagre». Há, porém, uma outra notícia semelhante que foi publicada num jornal do dia seguinte ao concerto em que foi pela primeira vez tocada a Sinfonia N.º 102. Quer isto dizer que, tendo realmente acontecido tal incidente, esta outra sinfonia deveria chamar-se «O verdadeiro milagre». Independentemente de tudo, esta história permite-nos imaginar o entusiasmo que a figura do músico despertava, tal como se fosse uma estrela do canto lírico. Afinal, tratava-se de um público de classe média que pagava o seu bilhete para assistir, pelo que as expectativas eram muito diferentes. Este novo ouvinte queria ser surpreendido. Gostava de se expor a experiências afetivas marcantes. Estava disponível para se sujeitar à manipulação teatral, ainda que proveniente de uma obra instrumental. É por esta razão que conseguimos através destas sinfonias desvelar um pouco da convivência social que se viveu há mais de dois séculos na capital inglesa.

Com efeito, na Sinfonia N.º 102 podemos ouvir uma gestão de recursos teatrais criteriosamente moldados no diálogo que se estabelece entre palco e plateia. O início não poderia ilustrá-lo melhor: uma introdução lenta que cria expectativa através da alternância de momentos serenos com laivos de perturbação contida. Uma vez cumprido esse «acordo solene», abre-se o pano e começa o primeiro andamento, propriamente dito. Os «acontecimentos» prosseguem. Somos sucessivamente surpreendidos com ritmos joviais, impasses abruptos, retomas convincentes, fragmentações rocambolescas, momentos de apreensão e um remate categórico. Ouve-se depois um Adagio simultaneamente pesaroso e idílico, o mesmo Adagio que se reconhece num Trio com Piano da mesma época. Por sua vez, o Minueto deixa para trás a elegância dos palácios e evidencia conotações rústicas mais a propósito. Haydn reservou um apontamento jocoso para o Finale, citando uma melodia tradicional croata que, na vez de nos conduzir a uma conclusão retumbante, é retomada já perto do final pelos violinos em jeito titubeante. Foi assim, com bom humor, que o mestre Haydn assinou os últimos compassos da partitura.

 

Rui Campos Leitão

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