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Mozart e Constanze em Lua de Mel | Pintura de Hugo Schubert (1910) | Fonte: Wikimedia Commons

04/06/2020

A Sinfonia Linz


Um dos feitos mais extraordinários da carreira de W. A. Mozart, e seguramente de toda a História da Música, foi a composição das suas últimas três sinfonias em apenas três meses, no verão de 1788. Antes disso, havia composto a Sinfonia Praga, no final de 1786, e a Sinfonia Linz, em 1783. Menos conhecida, esta última também esconde proezas notáveis. Para lá de ter sido composta em escassos quatro dias, pode ser entendida como «pé de apoio» na projeção daquelas que lhe seguiram.

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A cidade austríaca de Linz situa-se a meio caminho entre Salzburgo e Viena, lugar de paragem oportuno para quem no século XVIII percorria aquela estrada. Assim aconteceu com W. A. Mozart, que vinha de apresentar ao seu pai a esposa Constanze e o primeiro filho do casal. Esse foi um encontro relativamente tenso, já que Leopold não consentira a união. Já de regresso, foi convidado a ficar alguns dias no palácio do Conde de Thun, o que obrigava uma retribuição musical a condizer. Como Mozart não trazia consigo nenhuma partitura, viu-se obrigado a compor de raiz um nova sinfonia. O resultado foi surpreendente: a sinfonia que ficou conhecida com o nome daquela cidade.

Há vários aspetos que tornam esta obra fascinante. Sobretudo, destacam-se os efeitos contrastantes obtidos a partir de parcos motivos melódicos e rítmicos. Estes são recriados de múltiplas maneiras, através de variações harmónicas, dinâmicas ou da própria orquestração. Assiste-se a continuados exercícios de transformação que passam, no entanto, facilmente despercebidos. De maneira subtil, existe uma exploração dramática de opostos expressivos em que, por debaixo de uma luminosidade ostensiva, é sempre possível descortinar uma penumbra inquietante. A orquestra que Mozart tinha à disposição não incluía nem flautas nem clarinetes, mas tudo o resto é explorado até à exaustão.

Muitos musicólogos defendem que a influência de Haydn nesta sinfonia é determinante. Com efeito, esta foi a primeira sinfonia de Mozart com uma introdução lenta, o que se veio a repetir nas sinfonias 38 e 39. Esta era, precisamente, uma marca distintiva das sinfonias que Haydn vinha compondo pela mesma altura. O Adagio inicial da Sinfonia Linz instala-se num clima expectante, como se antecipasse o que se ouve ao longo dos quatro andamentos. Destaca-se aí o padrão ritmo de uma marcha, a belíssima melodia dos segundos violinos, a instabilidade harmónica e os cromatismos descendentes que sugerem premonição e mistério. Já no Allegro spiritoso que se segue, abunda a aparente facilidade mozartiana, mas também aqui com contrastes que acentuam a dramaticidade. O primeiro tema é bucólico e relaxado. O segundo é bastante mais impetuoso, de cariz operático. Após uma secção de desenvolvimento em que todas as referências parecem perdidas, regressa-se como que por magia ao ponto ideal para apresentar uma Reexposição. Com poucos recursos, a partitura discorre como se fosse uma peça de teatro em que as personagens enfrentam vicissitudes imprevisíveis. O «segundo ato» começa delicado e gracioso, com o ritmo ternário de uma siciliana e o tema melódico de um duo para violino e viola que Mozart trazia de Salzburgo. Pelo meio, há momentos de maior densidade dramática que parecem contrariar esse espírito ensolarado. Depois, esperar-se-ia a elegância aristocrática de um Minueto. Em vez disso, o compositor prefere a inspiração rústica de uma dança popular, ainda que mantendo a métrica ternária e uma secção central mais lenta, onde se destaca o diálogo entre o oboé e o fagote. Por fim, o último andamento precipita-se numa sucessão frenética de temas que se entrelaçam num contraponto concludente. Aqui, os músicos são convidados a tocar o mais rápido que conseguirem. Se a sinfonia teve início com um registo de ópera séria, agora tudo descamba num ambiente de ópera bufa, com um tipo de humor que nos permite adivinhar o temperamento de um artista que aos 27 anos de idade, e apesar das contrariedades da existência, conseguia resguardar-se no mais genuíno prazer de criar música, como se nunca tivesse deixado de ser uma criança prodigiosa.

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