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O compositor Luís Freitas Branco | Fonte: www.mpmp.pt

26/02/2020

A Sinfonia Gregoriana


Luís de Freitas Branco compôs quatro sinfonias, as duas primeiras na década de 1920. Para trás, ficavam as sonoridades impressionistas dos seus célebres poemas sinfónicos, dando lugar a uma sobriedade formal que revisitava os princípios fundadores da tradição musical clássica. Mas a Sinfonia N.º 2 «dialoga», ainda, com referências mais distantes, designadamente o Canto Gregoriano, que inspirou os traços melódicos que sustentam toda a sua estrutura. Estreou em fevereiro de 1928 no Teatro de São Luiz, com o maestro Pedro Blanch à frente da Orquestra Sinfónica Portuguesa.

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Apesar de descender de uma linhagem aristocrática, conservadora e católica, a intervenção cívica de Luís de Freitas Branco orientou-se nos princípios de uma intelectualidade agnóstica e progressista. Tal não impediu, porém, que a espiritualidade religiosa tivesse emergido em vários momentos importantes do seu percurso criativo. Para lá das obras sacras para canto e órgão, de entre as quais se destaca o Hino a Santa Teresinha, assiste-se a essa confluência num formato improvável, o da sinfonia. Tal deveu-se a um episódio marcante da sua vida pessoal. Pela mesma altura em que desempenhava as funções de diretor artístico do Teatro de São Carlos, a sua irmã mais nova, Maria Cândida de Freitas Branco, ordenou-se como freira em regime de clausura conventual. O compositor passou então a visitá-la com frequência num convento de Carmelitas Descalças situado nas imediações da cidade espanhola de Pamplona. Foi durante esse período que compôs e lhe dedicou esta obra. Explica-se assim a presença subliminar do Canto Gregoriano nos temas melódicos principais, particularmente evidente no início da partitura. O primeiro andamento tem início com uma secção lenta onde se apresentam as ideias ciclicamente exploradas ao longo de toda a obra. Reconhece-se, portanto, um melodia gregoriana que, como uma raiz, vai sendo sucessivamente fragmentada e recriada no encadeamento de diferentes dinâmicas expressivas.

A formação que Luís de Freitas Branco recebeu de Tomás Borba, e a consequente familiaridade com os modos antigos, vislumbra-se nalgumas sonoridades arcaizantes da sinfonia. Ainda assim, prevalece um roupagem orquestral romântica e um aparato harmónico que encobrem a propensão ascética dessa melodia gregoriana original. Do ponto de vista formal é uma obra que respeita os cânones do classicismo. Desde logo com a disposição em quatro andamentos, mas também através de uma contenção expressiva algo surpreendente para um compositor que na primeira fase da sua carreira havia assinado poemas sinfónicos como os «Paraísos Artificiais» e «Vathek». Não por acaso, os segundo e quarto andamentos desenvolvem-se explicitamente na configuração da Forma Sonata, e foram várias as opiniões críticas que na própria época estabeleceram um imediata associação com as tendências neoclássicas que então despontavam noutros países europeus. Ergue-se, assim, uma construção laboriosa. Depois do registo dolente do segundo andamento, do frenesi bruckneriano do terceiro, tudo culmina num Finale cuidadosamente construído em que o Canto Gregoriano volta a ser explicitamente convocado.

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