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Joseph Haydn | Gravura de 1820 | Fonte: Bnf Gallica

15/02/2021

A Sinfonia Fúnebre


O título pelo qual conhecemos hoje a Sinfonia N.º 44 de Joseph Haydn cria de imediato a expectativa de um ambiente lúgubre. Mas não é o que acontece. Chama-se Fúnebre em virtude de um relato póstumo segundo o qual o músico teria expressado o desejo de que o terceiro andamento fosse tocado nas suas exéquias. Mas esse Adagio tem uma feição mais contemplativa do que pesarosa. Afinal, foi composto quase quatro décadas antes, em 1772, lado a lado com três andamentos verdadeiramente inquietantes.

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O Adagio da Sinfonia N.º 44 de Haydn não se ouviu quando o músico foi sepultado em Viena, em meados de 1809. O contexto também não o favorecia, numa altura em que as tropas de Napoleão tinham bombardeado e ocupado recentemente a cidade. Ainda assim, não é possível hoje comprovar que fosse esse o seu desejo, já que se trata de uma alusão póstuma. É certo, porém, que esses quatro ou cinco minutos de música foram tocados numa homenagem fúnebre que lhe foi dedicada passados poucos meses em Berlim, então também sob domínio francês. Apesar das conotações fúnebres, quando se ouve por inteiro esta sinfonia somos surpreendidos com um estilo de escrita sem parcimónias, designadamente no que respeita à exploração das tensões expressivas, à gestão flagrante dos afetos, compasso a compasso, por vezes com um dramatismo exuberante.

Com efeito, por volta de 1770, o músico atravessava um período de acentuada experimentação criativa. O príncipe Nikolaus havia sucedido a seu irmão e a ópera começou então a ganhar protagonismo na corte dos Esterházy. Compreende-se, portanto, que esta sinfonia tenha sido um dos primeiros trabalhos em que Haydn explorou deliberadamente recursos eminentemente teatrais na escrita sinfónica, permitindo inclusivamente vislumbrar laivos da estética romântica que despontaria mais tarde. Assiste-se assim a contrastes e sugestões dinâmicas, à imprevisibilidade dos contornos melódicos, a cortes abruptos, texturas complexas, ritmos impetuosos e uma notável instabilidade harmónica, sobretudo nos primeiro e último andamentos. Tal despojamento expressivo tem levado vários teóricos a apontar uma relação com o movimento Sturm und Drang, também ele conotado com as emoções extremadas, a rejeição das convenções formais e, no domínio específico da música instrumental, a influência explícita da música cénica. Isso resultaria de uma necessidade de libertação do estilo galante que imperava desde o fim do barroco. O uníssono orquestral do início ilustra bem esta ideia, anunciando com exemplar gravidade tudo o que acontece de seguida. É um motivo simples, mas categórico. Logo se destaca uma inquietação intensa e o típico desassossego contrapontístico que prossegue no Minueto, com um cânone entre as cordas mais agudas e mais graves. Por sinal, era então raro tocar-se o Minueto antes do Adagio. Este último contrasta nesta sinfonia, com o som velado das surdinas nas cordas, uma serenidade que prepara o ouvinte para um Finale fulgurante. Resulta assim uma obra concisa, onde nada é deixado ao acaso.

 

Rui Campos Leitão

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