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A Sétima de Bruckner

Os detratores diziam ser «um génio sem talento». Outros, mais benignos, sugeriam que não vivia no seu tempo. Para todos, porém, era impossível ignorar a singularidade das suas sinfonias – simultaneamente avassaladoras, intimistas e espirituais. Porventura o mais incompreendido de todos os românticos, compôs a Sétima Sinfonia já perto dos sessenta anos de idade… e foi o maior sucesso da sua vida. Tem sido esta a porta de entrada mais comum para os que se rendem ao carisma de Anton Bruckner.

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No início da década de 1880, Bruckner compôs aquela que muitos garantem ser a mais bela das nove sinfonias. Com efeito, foi a que lhe trouxe mais sucesso, ao ponto de marcar um ponto de viragem na aceitação do seu trabalho. Começou, a partir de então, a ser mais apreciado fora de Viena, cujo meio musical lhe era manifestamente adverso. A sua reputação cresceu, sobretudo na Alemanha; primeiro em Leipzig, onde estreou em dezembro de 1884, e depois em Munique. Conta-se que as ovações se estendiam durante um quarto de hora após o final de cada apresentação.

A partitura, majestosa, está escrita para a orquestra de maior dimensão com que alguma vez trabalhou. Dá ênfase à expansão dos materiais temáticos e a técnicas contrapontísticas exuberantes. Ainda assim, cumpre a estrutura convencional dos quatro andamentos, sempre no respeito dos padrões clássicos. Um dos aspetos que sobressai é o uso das trompas wagnerianas, designadamente no segundo e quarto andamentos. Este é um instrumento híbrido que mistura características da trompa e da tuba, tendo sido inventado para o ciclo de óperas O Anel do Nibelungo. Bem a propósito, os ouvidos mais atentos conseguem identificar nesta sinfonia de Bruckner alusões a óperas de Wagner.

Os primeiros dois andamentos são monumentais. De início, instala-se um ambiente sereno e contemplativo, com laivos de culto sagrado. A melodia principal é ampla e sonhadora. O segundo andamento desenrola-se num ambiente solene e é sustentação de tudo o resto. À semelhança do Adagio da nona de Beethoven, a textura das cordas lembra um Coral. No clímax lembra a marcha fúnebre de Siegfried em O Crepúsculo dos Deuses. Curiosamente, estas páginas poderão ter sido escritas numa altura em que Bruckner já sabia da morte recente de Wagner. E tal como acontece na Heroica de Beethoven, depois de uma cadência pesarosa, segue-se um Scherzo enérgico e exuberante, o terceiro andamento. Por fim, o Finale recupera o tema principal do primeiro andamento que assim resplandece, pela última vez.

 

Rui Campos Leitão