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Erwin Schulhoff e a bailarina Milča Mayerová cerca de 1931 | Fonte: Wikipmedia Commons

08/10/2021

A Radiofrequência de Schulhoff


No Concerto para Quarteto de Cordas e Orquestra de Sopros de Erwin Schulhoff convergem influências tão díspares como o Jazz, a música tradicional eslava, as vanguardas europeias dos anos 1920 e uma consciência histórica que remonta a dispositivos instrumentais do período barroco. Entre muitos outros aspetos, surpreende por inverter a proporção expectável do número relativo de instrumentistas de cordas e sopros. Foi composta em 1930 para ser difundida pela Rádio Checa.

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O compositor Erwin Schulhoff morreu vítima de tuberculose em agosto de 1942 num campo de concentração nazi, o Gueto de Theresienstadt. Começou por estudar música em Praga, depois em Viena, Leipzig e Colónia. Foi encorajado por Dvořák, em criança. Teve aulas particulares com Debussy e Max Reger. Como pianista, distinguiu-se aos dezanove anos, em 1913, quando venceu o prestigiado Concurso Mendelssohn. Prosseguiu depois uma notável carreira de concertista, mas também de compositor. Em ambos os casos, procurou conciliar as tendências musicais mais relevantes da época. Como tantos outros músicos da sua geração, também se interessou pelo Jazz, cuja influência é particularmente notada neste seu Concerto para Quarteto de Cordas e Orquestra de Sopros onde a constituição do ensemble que se junta ao quarteto se assemelha à de uma banda de Jazz.

A peculiar combinação da música tradicional checa com as sonoridades norte-americanas tinha Dvořák como percursor. Schulhoff juntou-lhe ainda as vanguardas europeias da época, já que tivera a oportunidade de se familiarizar em Dresden e Berlim com a música de Schoenberg, Berg e Webern, para lá do movimento do dadaísmo. Todas estas influências confluem nesta obra, onde se pode também vislumbrar o formato de um concerto barroco, designadamente na contraposição de texturas sonoras muito diferentes. Por um lado, um pequeno agrupamento de solistas, onde a intimidade de um quarteto de cordas assume a condição de concertino. Por outro, o tutti instrumental na exuberância de uma orquestra de sopros. De certo modo, é como se houvesse uma inversão do que acontece na constituição normal das orquestras, onde o efetivo das cordas é sempre mais numeroso que o dos sopros.

A obra está escrita, portanto, para quarteto de cordas, flauta, flauta piccolo, oboé, corne inglés, clarinete, clarinete baixo, fagote, contrafagote, duas trompas, duas trompetes, dois trombones e uma tuba. A influência do Jazz reconhece-se, desde logo, nos ritmos pulsantes de um primeiro andamento que se desenrola na estrutura convencional da Forma Sonata e que inclui uma secção onde o quarteto de cordas é deixado a sós, como se de uma candenza se tratasse. O segundo andamento, repleto de cromatismos, evoluiu de uma ambiência reminiscente do Blues para um lirismo característico do Music Hall. No terceiro andamento podemos assistir a momentos de uma jovial treatralidade que recorda vagamente a História do Soldado de Stravinsky. A dada altura, após um interlúdio com pizzicatos, somos convidados a dançar um foxtrot em passo lento.

Schulhoff foi um dos primeiros músicos formados na tradição clássica a interessar-se pela gravação em disco e pela rádio. Foi pianista da Orquestra da Rádio de Praga e, enquanto compositor, compôs este mesmo Concerto para Quarteto de Cordas e Orquestra de Sopros para um programa radiofónico que foi para o ar em novembro de 1932. Foi então interpretado pelo Quarteto Ondriček e os sopros da Orquestra Filarmónica Checa sob direção de Václav Talich.

 

Rui Campos Leitão

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