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Franz Schubert com cerca de 17 anos | Pintura de Josef Abel (1764–1818) | Fonte: Wikimedia Commons

25/09/2021

A Pequena Sinfonia em Dó Maior


No manuscrito autógrafo da Sinfonia N.º 6 de Franz Schubert lê-se a inscrição «Grande Sinfonia em Dó Maior». Talvez o compositor quisesse sublinhar a sua aproximação ao «grande estilo» romântico, ou assinalar um aparato orquestral maior do que o da sinfonia anterior, a N.º 5, ao qual acrescentou tímpanos, trompetes e clarinetes. Quis o destino que ficasse conhecida por «A Pequena», para não se confundir com uma outra sinfonia em Dó Maior que completaria uma década mais tarde, «A Grande» – esta sim, com quase uma hora de duração.

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Quando no dia 14 dezembro de 1828 a Gesellschaft der Musikfreunde (Sociedade dos Amigos da Música, em Viena) se propôs homenagear Franz Schubert, tinham passado apenas quatro semanas desde a morte do músico. Decidiu-se então tocar a Sinfonia N.º 6 na Redoutensaal do Palácio Imperial de Hofburg. Curiosamente, foi esta a primeira ocasião em que uma sinfonia de Schubert foi tocada num concerto público. O músico tivera a oportunidade de escutar a mesma obra interpretada por uma orquestra na primavera de 1818, mas num sarau musical privado organizado pelo violinista Otto Hatwig no Burgtheater, reunindo pouco mais de duas dezenas de músicos amadores, entre eles o anfitrião violinista e o próprio Franz Schubert, tocando viola d’arco.

Nas primeiras décadas do século XIX, os salões privados desempenhavam um papel muito relevante na promoção da música instrumental em Viena. Apresentavam peças de música de câmara e repertório orquestral para plateias que reuniam pessoas da classe média e da aristocracia, num universo de relacionamentos sociais restrito. Os concertos públicos tinham uma contextualização diferente. Ou eram promovidos por instrumentistas virtuosos, ou por sociedades civis dinamizadas por melómanos, ou eram expressamente organizados para juntar dinheiro em benefício de um compositor. Mas era no contexto mais reservado que a música de Schubert era frequentemente tocada, em lugares como a residência de Otto Hatwig, uma figura então muito respeitada do panorama musical de cidade. Esta foi a última das sinfonias de juventude de Schubert, que contava vinte anos de idade em 1817. Foi também a última que compôs com o propósito de ser tocada nestes encontros informais. Muito embora tivesse sido na altura forçado a dedicar-se ao ensino, na escola de seu pai, foi também quando começou a ter maior reconhecimento público. A suas ambições cresceram daí em diante. Ainda assim, a sua produção sinfónica teve que esperar até à década de 1870 para se afirmar no repertório das orquestras.

A Sinfonia N.º 6 foi composta entre outubro de 1817 e fevereiro de 1818. Se, no ano anterior, o modelo da Sinfonia N.º 5 havia sido Mozart, esta evidencia outras três influências: Beethoven, Haydn e Rossini. Relativamente a este último, deve-se assinalar o recente sucesso das suas óperas em Viena. O próprio jovem Franz Schubert não escondia o fascínio, ao ponto de interromper por duas vezes a composição desta mesma sinfonia para escrever duas aberturas «ao estilo italiano». A influência de Rossini projeta-se aqui no estilo melódico do segundo andamento, que parece lembrar a cavatina de uma ópera. Também é reconhecível na aparente espontaneidade do último andamento, cuja estrutura se assemelha às aberturas das óperas de Rossini. Feito o balanço, assiste-se à confluência da leveza característica do estilo italiano e da densidade expressiva e formal do estilo germânico. Este último é evidente na solenidade dos acordes iniciais, que lembram Beethoven, ou no protagonismo confiado aos sopros um pouco à frente, lembrando Haydn. O  primeiro andamento termina com uma coda em estilo grandioso. O andamento lento pode ser entendido como um confronto entre a elegância do tema melódico principal e os passagens abruptas do trio. Já no terceiro andamento, revela m-sesemelhanças com o Scherzo da primeira sinfonia de Beethoven. Foi esta a primeira vez que Schubert substituiu o Minueto por um Scherzo, enérgico e exuberante. O bom humor do Finale flui numa orquestração engenhosamente irrepreensível.

 

Rui Campos Leitão

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