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Kaija Saariaho | Foto de Andrew Campbell | Fonte: www.saariaho.org

29/02/2020

A Asa do Sonho


A compositora finlandesa Kaija Saariaho, uma das figuras mais destacadas da música europeia contemporânea, confronta-nos em muitas das suas obras com evocações poéticas explícitas. Assim acontece em L’aile du songeuma obra de 2001 para flauta solo, harpa, celesta, percussões e cordas, inspirada num poema com alusões de caráter impressionista sobre a vida dos pássaros no seu habitat natural.

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Em 1987, Kaija Saariaho escreveu um artigo intitulado «Timbre e Harmonia» onde enunciava alguns pressupostos do seu projeto artístico. A respeito do Timbre, destacava a importância que dava àquilo a que chamava «clareza» do som, algo que situava entre a nitidez e o ruído. De igual modo, sublinhava a importância da Textura, entendendo esta num extenso leque de categorias, desde a lisura plena à rugosidade granular, desde a consonância à dissonância tímbricas. Explanava depois sobre como concebia a Forma Musical, cuja dinâmica perseguia nas suas obras por intermédio da Harmonia, quer isto dizer, através da criteriosa combinação intervalar entre os diferentes sons que se sobrepõem em cada momento. Falava, ainda, de noções como «as tensões interiores da música», «a verticalidade do timbre» e «a horizontalidade harmónica», juntando equivalências entre a música e as artes visuais ou o cinema. Passados catorze anos compôs L’aile du songe, obra onde podemos ouvir posto em prática tudo isso que então explicava.

Desta vez, deixou-se sugestionar por uma obra literária que colocou ao serviço de uma construção metafórica de belo efeito. Trata-se da coleção de poemas da autoria de Saint-John Perse, o escritor francês premiado com o Nobel da Literatura no ano de 1960. O livro, intitulado «Pássaros», acompanhava-a desde longo data. Já em 1982 havia recorrido a ele para compor Laconisme de l’aile, uma obra para flauta solo e eletrónica onde o solista recita algumas palavras que aí se lêem. Através delas, o voo e a vida das aves é transposto para uma imensidão de metáforas que reflete sobre a própria existência humana, repartindo-se em dois universos substancialmente contrastantes, o Ar e a Terra. No mesmo sentido, Saariaho não procurou mimetizar o canto dos pássaros, mas sim a agilidade do voo e a fluidez das correntes de ar que os sustêm. O protagonismo é confiado à versatilidade expressiva da flauta transversal, sobre texturas orquestrais que evoluem de forma cuidada ao longo da peça.

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