Baseados nos princípios dos Direitos Humanos, os Dias Internacionais da ONU promovem a consciência e a ação sobre realidades do nosso tempo que carecem da transformação de valores e comportamentos. Este dia 8 de março lembra-nos que ainda há muito por fazer no que respeita aos direitos das mulheres. À semelhança de tantos outros domínios, a música de tradição clássica sempre refletiu essa necessidade. Mas também nos mostra que já muito foi feito. Neste concerto, podemos ouvir obras assinadas por quatro compositoras interpretadas por uma orquestra que vem mantendo a representação paritária de género na sua constituição.
Orquestra Metropolitana de Lisboa
Maestro: Alberto Roque
Sexta-feira, 8 de março, 21h00, Picadeiro do Museu Nacional do
Joan Tower (n. 1938) – Chamber Dance (2006)
Anne Victorino d’Almeida (n. 1978) – Suíte para Cordas (2009)
Ruth Gipps (1921-1999) – Sea Escape, Op. 53, para duplo quinteto de sopros (1958)
Beatriz Arzamendi (n. 1961) – Hacia la Sal…, para orquestra de cordas (2007)
Malcolm Arnold (1921-2006) – Variações para Orquestra,
sobre um tema de Ruth Gipps
Chamber Dance
Joan Tower é uma das figuras mais prestigiadas (e premiadas) do panorama musical norte-americano. Compositora, pianista e maestrina, tem uma carreira que remonta aos anos 1960, quando explorava as sonoridades vanguardistas daquela época. Viria depois a aproximar-se mais dos universos de George Crumb e de Olivier Messiaen, com uma escrita assumidamente expressiva, ritmos intensos e uma energia vital.
Chamber Dance foi estreada pela Orpheus Chamber Orchestra em maio de 2006 em Nova Iorque, na Carnegie Hall. Explora, precisamente, uma das características que distingue este agrupamento, em particular a circunstância de tocar muito frequentemente sem maestro. Depende assim, por um lado, da interação cúmplice entre os instrumentistas. Por outro, do virtuosismo de cada um deles. Não espanta, por isso, que ressaltem nesta obra tantos pequenos solos e duetos, como se os instrumentos dançassem uns com os outros. Em diferentes momentos, cada um deles assume um protagonismo que mais se parece com o de um concerto para solista e orquestra.
Suíte para Cordas
A Suíte para Cordas foi baseada na banda sonora do documentário «Cartas a uma Ditadura» de Inês de Medeiros, composta pela violinista e compositora Anne Victorino d’Almeida. O documentário revisita a memória dos anos do Salazarismo. Uma centena de cartas escritas por mulheres portuguesas em 1958, mobilizando-se em nome da paz e da ordem em defesa do Salazar, considerado por elas o salvador da pátria. Essas mulheres falam da gratidão e da admiração que têm pelo ditador. Mas, como se uma necessidade de falar fosse mais forte, por entre chavões e frases feitas, revelam-se por vezes o medo, a tristeza e o isolamento com que se vivia em Portugal nos anos 50.
Cada andamento retrata esses momentos angustiantes, começando pelo primeiro andamento – originalmente o genérico de abertura do documentário – e o seu longo solo para violino, inspirado no sinistro contraste entre as famílias que viviam nessa época uma felicidade alicerçada em falsas ilusões, e as outras famílias que, por sua vez, procuravam sobreviver à miséria. O segundo andamento, através dos pizzicatti permanentes, recria uma obsessão vivida na devoção a Salazar, sobretudo nas mulheres que não sabiam entender ou sequer explicar essa devoção. Segue-se, originalmente o genérico final do documentário e que foi adaptado para terceiro andamento por se tratar de um Minuetto. Ele foi escrito a pensar na Belmira, a mulher mais marcante e emocionante do documentário, que nos traz um comovente testemunho sobre a sua vida, a fome, a pobreza, e a luta tormentosa que enfrentou ao longo dos anos para conseguir criar os seus filhos e netos, sem nunca perder a coragem e a esperança. Ao seu olhar cheio de ternura e bondade, é-lhe dedicado esse Minuetto, sublinhando a alegria interior que lhe permitiu vencer todas as dificuldades. O quarto e último andamento é uma última recordação de todos esses momentos, o que restou escrever sobre um período que a autora não viveu, marcada pelos testemunhos do documentário e celebrando, com gratidão, a liberdade.
Sea Escape
A carreira de Ruth Gipps estendeu-se ao longo de grande parte do século XX. Revelou-se como uma criança prodígio ao piano, mas veio a ser também oboísta, maestrina e compositora. Uma das suas obras mais conhecidas é a Sinfonieta para Sopros, datada de 1989 e que pode ser entendida como sequente de uma obra pré-existente com a qual tem muitas afinidades. Sea Escape está escrita para duplo quinteto de sopros – duas flautas, oboé, corne inglês, 2 clarinetes, 2 fagotes e 2 trompas –, mas foi composta três décadas antes, em 1958. Foi composta num hotel situado junto a uma praia da costa de Kent. Isso explica o título, que é uma alusão explícita ao fascínio que esta compositora inglesa tinha pelas paisagens costeiras do sudeste de Inglaterra. Esta sugestão imagética acompanha-nos ao longo dos seis minutos de duração da peça.
Hacia la Sal…
Há muitos anos responsável pela programação de música nos Teatros del Canal, em Madrid, a compositora e gestora cultural basca Beatriz Arzamendi é uma das figuras mais atentas à realidade da mulheres na música. Foi vice-presidente da Asociación Mujeres en la Música entre 2010 e 2014 e participou em vários projetos iberoamericanos dedicados à divulgação do trabalho de mulheres compositoras. Nesta última vertente, as suas próprias criações são o principal contributo, constituindo um catálogo com largas dezenas de títulos. Hacia la Sal…, uma obra datada de 2007, para orquestra de cordas, é disso bom exemplo.
Hacia la Sal… foi composta por encomenda das autoridades da província de Guipúscoa, no País Basco, para celebrar o Museu das Salinas de Léniz, onde podemos ficar a conhecer os engenhos utilizados ao longo de vários séculos para a extração do sal por intermédio de um mecanismo de aquecimento da água com fogo de lenha. A música dialogava então com imagens projetadas, mas também com uma consciência de valor antropológico, evocando práticas, pessoas e lugares que fizeram História. São quatro miniaturas musicais cujos títulos correspondem a diferentes qualidades de sal.
Sobre um tema de Ruth Gipps
Malcolm Arnold e Ruth Gipps conheceram-se enquanto estudantes no final da década de 1930 no Royal College of Music, em Londres. Ele tocava trompete. Ela piano e oboé. Ambos aprendiam composição e tornaram-se figuras de renome. Na qualidade de compositora, Gipps conquistou o reconhecimento internacional em 1954, aquando da estreia de Coronation Procession para orquestra, em Melbourne (Austrália). Já em 1978, Arnold recuperou um tema desta obra e fez-lhe suceder seis variações que pendulam entre rasgos impetuosos e registos bucólicos. Estreou no Queen Elizabeth Hall em fevereiro desse mesmo ano, com Ruth Gipps à frente da London Chanticleer Orchestra, uma formação que a própria fundara em 1961.
Textos de Rui Campos Leitão, com exceção de «Suíte para Cordas», cedido pela própria compositora.