O Labirinto Penderecki

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O Labirinto Penderecki




O Labirinto Penderecki
Krzysztof Penderecki em 2008 | Fonte: Wikimedia Commons
 
Nascido em 1933, Krzysztof Penderecki desenvolveu a carreira de compositor lado a lado com as profundas mudanças que vingaram na História da Música mais recente, desde as vanguardas modernistas do pós-guerra até à globalização civilizacional da atualidade. Para lá disso, a condição de protagonista destacado no panorama musical internacional, já desde o início da década 1960, acrescenta à sua obra uma grande importância. As inflexões do seu percurso ajudam a entender aspetos que o transcendem. Ainda assim, a identidade criativa do compositor polaco permaneceu incólume. Diante das notas em papel pautado, deu sempre primazia a um espírito de busca insaciável, à intensidade expressiva e emocional, a uma música com rosto humano.

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Etiqueta do disco da primeira gravação comercializada de Rhapsody in Blue (1924) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Rapsódia Americana, foi este o título provisório de Rhapsody in Blue, a obra concertante para piano e orquestra que em 1924 abriu novos caminhos à carreira de George Gershwin e, bem mais importante, também à música estadunidense. Numa época em que o Novo Mundo buscava uma identidade cultural própria, à semelhança do que ocorreu por toda a Europa, o Jazz impôs-se como a mais genuína expressão musical, alastrando-se às rádios, aos discos e às salas de concerto clássicas. Em forma de Rapsódia, e por entre a azáfama dos teatros da Broadway, Gershwin compôs este precioso «caleidoscópio musical da América».

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Carta de Schubert datada de março de 1824 em que escreveu que se preparava para compor uma grande sinfonia | Fonte: Wikimedia Commons
 
O historial da numeração das sinfonias de Schubert é confuso. Em parte, isso resulta da circunstância de terem sido publicadas postumamente e de haver manuscritos que permaneceram inacabados. A sinfonia «A Grande», que mais frequentemente é acompanhada pelo número 9, também aparece, por vezes, indicada com os números 7, 8 e até 10.

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Fonte: www.pexels.com


O LABIRINTO PENDERECKI

 

Krzysztof Penderecki recorre frequentemente à metáfora do labirinto para explicar a natureza do processo criativo. Ao longo da conceção e realização da obra musical, o compositor depara-se com múltiplas possibilidades. As suas escolhas rodeiam-se do sentimento ambíguo de alguém que balança entre a angústia da incerteza e a expectativa confiante de chegar a bom porto, o único possível. Este estado de encantamento parece também ser uma sugestão certeira para quem ouve o seu Concerto para Violino N.º 2.

 
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    No seu segundo concerto para violino, composto entre 1992 e 1995, Penderecki fez uma síntese das soluções estilísticas que desenvolveu e frequentou nas décadas precedentes. Sobrepôs o espírito de vanguarda que o notabilizou em início de carreira e a reconciliação com a tradição clássica e romântica pela qual enveredou a partir de determinada altura, sendo o seu primeiro concerto para violino, de 1977, uma das primeiras obras que denotou essa transição de paradigma.

 

    O concerto tem como subtítulo «Metamorfoses», uma alusão explícita ao modo como os motivos se transformam gradualmente, enquanto procedimento estruturante da obra. Expõe-se num andamento único, muito embora seja possível identificar claramente seis secções, com manifestas alterações de tempo e diferentes texturas instrumentais. A obstinação inicial das cordas instala-se em paisagens de mistério, das quais emerge o solista. Sucedem-se episódios marcados pela incisão rítmica e por contrapontos intrincados numa teia dispersa pelos timbres da orquestra. Há lugar a acordes épicos, melodias lânguidas, intervenções meticulosas das percussões, ritmos dançáveis, ambientes bucólicos em que sobressaem as madeiras, e um final indagante. Sobretudo, uma parte solista extraordinariamente exigente, ou não tivesse sido estreado por (e dedicado a) Anne-Sophie Mutter.

 

    No todo, o compositor não pretende uma obra artística harmoniosa e imaculada, como produto final. Mais parecendo um diário de bordo, a partitura regista o percurso sinuoso de onde provém, sem esconder hesitações e apoteoses. Partilha com o ouvinte gestos e decisões, na vez de propor um momento de contemplação comodamente confinado em quarenta minutos de duração, sem antevisões nem consequências. A música é uma atividade que envolve riscos. Estes são «relativamente» controlados, é certo, mas requer compromisso para experimentar qualquer tipo de satisfação.

 

 

 

Krzysztof Penderecki – Concerto para Violino N.º 2, Metamorfoses

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa

Solista: Sayaka Shoji (violino)
Maestro: Pedro Amaral

 

Domingo, 9 de junho de 2019, Grande Auditório do Centro Cultural de Belém

 
Antonín Dvořák cerca de 1882 | Fonte: Wikimedia Commons
 
Quando Antonín Dvořák foi viver para Nova Iorque, em 1892, pairava a expectativa de aparecimento de um idioma musical genuinamente americano. Paradoxalmente, o Nacionalismo, enquanto tendência estética que procurava fundamento nos umbigos das diferentes nações, era o movimento artístico mais internacional na derradeira década do século XIX. Só assim se explica que tenha sido possível a um músico imerso na cultura da Boémia – o coração da Europa Central – participar na construção de um paradigma musical para o «Novo Mundo».

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Brahms ao piano em 1896 | Pintura de Willy von Beckerath (1868-1938) | Fonte: Wikimedia Commons
 
SOB O SIGNO DE BRAHMS
Após um longo período em que Brahms foi pejorativamente conotado com a ala mais conservadora do século XIX, a importância do seu legado é hoje por de mais evidente. No âmbito da música coral, soube colher frutos na polifonia renascentista e barroca. Em música de câmara e no repertório pianístico, fez ressoar a mais sublime cumplicidade com Schubert e Schumann. Já na música orquestral, seguiu a peugada de Beethoven. Exemplos de diversidade, a primeira e última obras orquestrais do compositor alemão espelham bem as duas últimas vertentes. O primeiro dos seus dois concertos para piano, esboçado em 1854, evoluiu desde uma Sonata para Dois Pianos para uma obra em que o solista se funde com a orquestra. Já em 1887, surgiu o Concerto para Violino e Violoncelo, a sua derradeira partitura com orquestra, ainda que tenha sido escrita dez anos antes de morrer.

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O violinista Isaac Stern em 1979  | Foto de Rob Bogaerts –  Anefo | Fonte: Wikimedia Commons
 
Ao longo da década de 1970, foram vários os compositores oriundos dos países do leste europeu que optaram por abandonar as técnicas modernistas em benefício de uma conciliação com as referências fundamentais da música de tradição romântica. A melodia e a consonância intervalar foram então resgatadas do anátema a que estavam votadas nos quadrantes artísticos mais vanguardistas. O Concerto para Violino N.º 1 de Krzysztof Penderecki foi uma das suas primeiras obras que denotou essa transição de paradigma.

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