O Distraído

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Musicália

O Distraído




O Distraído
Retrato póstumo de W. A. Mozart | Pintura de Barbara Krafft (1819) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Natural de Salzburgo, W. A. Mozart passou grande parte da infância e adolescência a viajar pela Europa. Já na última década de vida, fixou-se em Viena. Resta, pelo meio, um período de sete anos em que trabalhou efetivamente na sua cidade, coincidindo com a governação do Arcebispo Colloredo. Essa coexistência nunca foi fácil, mas os primeiros anos revelaram-se auspiciosos. A Sinfonia N.º 28 e o Concerto para Fagote datam desse altura. São duas obras compostas em 1774, uma fase que maturou um estilo de escrita que se projetaria mais tarde nas obras-primas que todos conhecemos.

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«Il Commendatore», Escultura de Anna Chromý colocada junto ao Teatro Nacional de Praga, onde estreou a ópera Don Giovanni, em 1787 | Fonte: Wikimedia Commons
 
Entre o drama e a comédia, Don Giovanni de W. A. Mozart é uma ópera dramaturgicamente brilhante. A personagem principal não é somente um nobre depravado que promete casamento às donzelas abandonando-as de seguida. Desafia-nos a questionar o mito do herói. Revela-se uma identidade complexa que vai ao encontro da dimensão humana e tolerante do libreto de Lorenzo Da Ponte.

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O baile | Pintura de Charles Wilda (1854–1907) | Fonte: Wikimedia Commons
 
As valsas da família Strauss são indissociáveis dos tradicionais Concertos de Ano Novo. Hoje em dia já não se realizam bailes, e as pistas de dança transformaram-se substancialmente. Ainda assim, essa mesma música que encantou os salões europeus do século XIX enfrenta o passar dos tempos e das modas sem grandes abalos, encontrando sempre oportunidade e propósitos renovados. Escuta-se agora em formato de concerto e associada a contextos festivos. A sua extraordinária criatividade rítmica e melódica, assim como a contagiante boa-disposição anímica que a distingue, explicam porque assim acontece.

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Retrato de Joseph Haydn | Pintura de Thomas Hardy (1791) | Fonte: Wikimedia Commons


O DISTRAÍDO

 

Nos primeiros compassos do último andamento da Sinfonia N.º 60 de Joseph Haydn, a orquestra para subitamente, e começa a afinar – como se os músicos se tivessem esquecido de fazê-lo antes. Este é um dos vários episódios que não disfarçam a singularidade desta Sinfonia composta no ano de 1774, em Eszterháza. Com efeito, se os tempos fossem outros ter-se-ia chamado Suíte, pois os seus andamentos correspondem a uma Abertura, quatro entreatos, e um Finale originalmente destinados a acompanhar uma comédia teatral intitulada «Il distratto».
 
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    São muitas as sinfonias de Haydn que têm uma disposição teatral explícita. No caso da Sinfonia O Distraído essa propensão é ainda mais acentuada, pois, na origem, a partitura ilustra situações de uma peça teatral. Trata-se de uma farsa que o francês Jean François Regnard escreveu em finais do século XVII, cujo enredo se desenvolve em torno de um personagem de tal forma distraído que quase se esquece de comparecer no próprio casamento. A iniciativa pertenceu a uma companhia teatral que se apresentava com regularidade na corte dos Esterházy, designadamente nos períodos de verão. Foi precisamente no verão de 1774 que teve aí lugar a representação desse texto, para o qual o compositor ao serviço do príncipe, Joseph Haydn, compôs os números musicais que intercalavam com a representação dramática. Mais tarde, o próprio músico extraiu daí uma Sinfonia, a número 60. Assim, através dos andamentos desta obra, que apesar de assumirem um propósito programático assentam numa escrita cuidadosamente trabalhada, é-nos possível imaginar os momentos mais representativos do enredo.

 

    O primeiro andamento ilustra a inconstância e falta de tino do protagonista. A dada altura os músicos começam a tocar repetidamente o motivo melódico que dá início à célebre Sinfonia do Adeus, como se se tratasse de um engano. Neste momento o ouvinte percebe que a própria orquestra assume a condição de personagem no contexto do espetáculo. Já no segundo andamento, descobre-se a preparação cerimoniosa do casamento, que a dado instante é surpreendida por uma banda de música que irrompe ao compasso de uma marcha. Reconhece-se também uma melodia tradicional francesa que corresponde ao momento em que o protagonista bebe vinho na companhia de amigos. O terceiro andamento consiste num Minueto que se poderia muito bem ouvir num casamento daquela época. Assiste-se, todavia, a alguns elementos intrusos que se desviam do padrão expectável daquela forma de dança, o que se explica pelos incidentes dramatúrgicos e pelas deambulações mentais do protagonista. O quarto andamento poderia ser o último andamento de qualquer outra Sinfonia de Haydn daquele período, com uma impetuosidade próxima do estilo Sturm und Drang. Pelo meio ouve-se uma melodia tradicional dos Balcãs, um elemento que remete para o desvario do noivo, que parece ter-se perdido. Abre, no entanto, caminho aos últimos dois andamentos. O quinto é uma expressão de lamento evocativa do desalento da noiva, que vê o seu noivo tardar. Mas porque se trata de espetáculo, a atmosfera contemplativa é interrompida pelo som de uma fanfarra em que os metais da orquestra sobressaem. Por fim, discorre a azáfama da boda, também ela repleta de percalços.

 

    Há um registo curioso acerca do percurso desta sinfonia. Apesar da sua ideologia conservadora, em 1775 o Arcebispo Colloredo mandou construir em Salzburgo um pequeno teatro destinado a representações de teatro e ópera. O espetáculo que estreou esse palco foi, precisamente, esta mesma produção apresentada um ano antes em Esterháza. Adivinha-se que o jovem Mozart, então com dezanove anos de idade, não perdeu a oportunidade para conhecer a faceta mais bem humorada do mestre, que veio a conhecer pessoalmente alguns anos mais tarde em Viena.

 

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa

Maestro: Evgeny Bushkov

 

Sábado, 12 de janeiro de 2018, Teatro Thalia

 

J. Haydn Sinfonia N.º 60, Hob.I:60, O Distraído

 

 
      
Retrato de W. A. Mozart em 1777 | Autoria anónima  | Fonte: Wikimedia Commons
 
O Concerto para Oboé e Orquestra em Dó Maior é o único concerto que W. A. Mozart dedicou a este instrumento. Mas é também uma obra incontornável no repertório dos oboístas. Composto no verão de 1777, explora exaustivamente os recursos sonoros que então se tornaram possíveis graças às inovações introduzidas pelos luthiers. Durante mais de um século pensou-se que a partitura estaria perdida, até que em 1920 foi descoberto em Salzburgo um manuscrito revelador. Afinal, o célebre Concerto para Flauta N.º 2 KV 314 era resultado de uma transcrição daquela «misteriosa» obra.

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O barítono Francisco d'Andrade do papel de Don Giovanni | Pintura de Max Slevogt (1912) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Il dissoluto punito é o título alternativo da ópera Don Giovanni de W. A. Mozart e traduz-se como «O libertino punido». Trata-se da segunda das colaborações do compositor com o libretista italiano Lorenzo da Ponte – ao lado Le nozze di Figaro e Così fan tutte –, e divide-se em dois atos na narração da história dessa figura lendária da literatura. Apesar da sua conduta pérfida, Don Juan reflete as ambiguidades da condição humana. Enfrenta o Céu e o Inferno com sacrifício da própria vida, mantendo-se fiel aos seus princípios e ideais.

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Nikolai Rimsky-Korsakov em 1898 | Pintura de Valentin Serov (1865–1911) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Em 1909, Rimsky-Korsakov referiu-se nos seguintes termos ao Capricho Espanhol que havia composto duas décadas antes: «A opinião da crítica e do público que defende que o Capricho é uma peça magnificamente orquestrada, está errada. O Capricho é uma brilhante composição para orquestra. A alternância de timbres, a escolha feliz de melodias e padrões rítmicos que se ajustam a cada instrumento de forma precisa, as breves cadências virtuosísticas para os instrumentos a solo, os ritmos da percussão, etc., é isso que determina a essência desta composição – não é a sua “roupagem”, i.e. a orquestração».

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