Música com Rosto Humano

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Música com Rosto Humano




Música com Rosto Humano
 

 

Foto de Patrick Tomasso | Fonte: Unsplash
 
Apesar do título, a obra Largo de Krzysztof Penderecki consiste num verdadeiro Concerto para Violoncelo e Orquestra. Ainda assim, o compositor optou por não lhe chamar Concerto, talvez porque não inclui qualquer andamento com tempo rápido. No conjunto, são três andamentos tocados sem interrupção e atravessados por uma vaga de lamento e comoção articulada com momentos exuberantes de inspiração épica, porventura mística. Esta sobreposição de uma afetação melancólica com apontamentos de humor e sarcasmo resulta num efeito dramático que lembra por vezes Schostakovich.

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Béla Bartók durante a viagem para os E.U.A., em outubro de 1940.
 
É difícil imaginar que o Concerto para Orquestra BB 123, uma das obras orquestrais mais célebres do grande Béla Bartók, escrita em Nova Iorque numa altura em que já havia conquistado uma extraordinária reputação internacional como compositor e pianista, tenha tido origem no período mais difícil da sua vida. Mas foi assim que aconteceu.

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Etiqueta do disco da primeira gravação comercializada de Rhapsody in Blue (1924) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Rapsódia Americana, foi este o título provisório de Rhapsody in Blue, a obra concertante para piano e orquestra que em 1924 abriu novos caminhos à carreira de George Gershwin e, bem mais importante, também à música estadunidense. Numa época em que o Novo Mundo buscava uma identidade cultural própria, à semelhança do que ocorreu por toda a Europa, o Jazz impôs-se como a mais genuína expressão musical, alastrando-se às rádios, aos discos e às salas de concerto clássicas. Em forma de Rapsódia, e por entre a azáfama dos teatros da Broadway, Gershwin compôs este precioso «caleidoscópio musical da América».

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Krzysztof Penderecki em 2008 | Fonte: Wikimedia Commons

MÚSICA COM ROSTO HUMANO
 
Nascido em 1933, Krzysztof Penderecki desenvolveu a carreira de compositor lado a lado com as profundas mudanças que vingaram na História da Música mais recente, desde as vanguardas modernistas do pós-guerra até à globalização civilizacional da atualidade. Para lá disso, a condição de protagonista destacado no panorama musical internacional, já desde o início da década 1960, acrescenta à sua obra uma grande importância. As inflexões do seu percurso ajudam a entender aspetos que o transcendem. Ainda assim, a identidade criativa do compositor polaco permaneceu incólume. Diante das notas em papel pautado, deu sempre primazia a um espírito de busca insaciável, à intensidade expressiva e emocional, a uma música com rosto humano.
 
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    Há características que atravessam toda a obra de Krzysztof Penderecki. A mais notória é uma emotividade dolente, cirurgicamente pontuada por rasgos de grande ímpeto e intensidade dramática, por vezes ancorada numa pulsão espiritual e religiosa. Também a síntese entre o passado e o presente, um equilíbrio entre formatos estabelecidos e a procura de novos recursos criativos. Estas tendências já se faziam sentir na primeira fase da sua carreira, quando explorava ostensivamente técnicas que rompiam com convenções centenárias. Obras como Trenodia para as vítimas de Hiroshima (1960) e Paixão Segundo São Lucas (1966) valeram-lhe então o reconhecimento internacional, tanto mais porque a ousadia provinha de um compositor radicado no bloco soviético – ainda que no contexto do Degelo de Kruschev. Já em meados dos anos 1970, coincidindo com o período em que lecionou nos E.U.A., houve uma mudança no seu estilo. Passou a integrar soluções musicais de séculos passados. Enfrentou as críticas dos adeptos mais fervorosos das tendências vanguardistas, mas também começou a captar a atenção de uma faixa de público mais abrangente. Esta orientação neo-romântica tinha afinidades tão diversas como a polifonia renascentista, os artifícios concertantes do período barroco, as dissoluções cromáticas wagnerianas, o temperamento dramatúrgico de Mahler, o decadentismo de Bruckner ou a inquietude rítmica de Schostakovich. De certo modo, a sua música tornou-se mais acessível. Recuperou métricas regulares e harmonias inteligíveis, por vezes no âmbito de uma tonalidade explícita. Também as orquestrações se tornaram mais transparentes. Por sinal, este último aspeto distingue bastante toda a música orquestral de Penderecki. Desde sempre, tendeu a inovar na forma como articula e combina as sonoridades dos diferentes instrumentos, explorando os limites das possibilidades da orquestra como quem projeta um instrumento que ainda está por inventar.
 

Krzysztof Penderecki – Largo, para violoncelo e orquestra (2003)

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa
Maestro: Pedro Amaral

 

 
 
Mstislav Rostropovich em 1991 | Fonte: Wikimedia Commons
 
Krzysztof Penderecki é sobretudo conhecido pelas suas composições corais e sinfónicas. No entanto, é também autor de um significativo número de obras concertantes. Neste âmbito, destaca-se o seu contributo para o repertório para violoncelo. Em cada uma das obras que o compositor dedicou a este instrumento é explorado um leque de possibilidades técnicas e expressivas sempre vasto. Nesse sentido, a amizade que o aproximou do violoncelista virtuoso Mstislav Rostropovich foi um estímulo determinante.

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Foto de Rob Laughter | Fonte: Unsplash
 
Durante a Segunda Grande Guerra assistiu-se nos E.U.A. a um panorama orquestral particularmente fascinante. Achavam-se aí maestros como Leopold Stokowski, na Sinfónica de Filadélfia, Arturo Toscanini, na Filarmónica de Nova Iorque, e Serge Koussevitsky, na Filarmónica de Boston. Em boa medida devido a problemas de saúde, Béla Bartók não beneficiou grandemente por se achar então nesse lado do mundo. Ainda assim, agarrou a oportunidade de compor o Concerto para Orquestra. Fragilizado, mas do alto da sua cátedra, logrou reinventar a escrita orquestral colocando a orquestra em cena como se de um conjunto de personagens se tratasse. O pano abre-se e tem início um esplêndido espetáculo.

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Antonín Dvořák cerca de 1882 | Fonte: Wikimedia Commons
 
Quando Antonín Dvořák foi viver para Nova Iorque, em 1892, pairava a expectativa de aparecimento de um idioma musical genuinamente americano. Paradoxalmente, o Nacionalismo, enquanto tendência estética que procurava fundamento nos umbigos das diferentes nações, era o movimento artístico mais internacional na derradeira década do século XIX. Só assim se explica que tenha sido possível a um músico imerso na cultura da Boémia – o coração da Europa Central – participar na construção de um paradigma musical para o «Novo Mundo».

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