Sinfonia Londres

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Musicália

Sinfonia Londres




Sinfonia Londres
Palácio das Tulherias em 1757 | Pintura de Nicolas-Jean-Baptiste Raguenet | Fonte: Wikimedia Commons
 
Catorze anos passados, Wolfgang Amadeus Mozart regressou a Paris, em março de 1778. Nessa época, havia no grandioso Palácio das Tulherias duas salas de concertos. Numa delas, a Sala dos Cem Suíços, tinham lugar os concertos da lendária agremiação «Le Concert Spirituel». Foi aí que estreou a sinfonia que ficou conhecida pelo nome da cidade. Escutando-a, nem por sombras se adivinha as adversidades que o músico enfrentava na sua vida pessoal. Era imperativo «contentar» a plateia. Assim aconteceu, e sempre com música de excelência.

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Igor Stravinski e Samuel Dushkin cerca de 1930 | Desenho de Hilda Wiener (1877-1940) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Stravinsky não se deixou encandear pelo prestígio da revolução estética associado às obras que compôs em início de carreira, tais como A Sagração da Primavera. Ao longo de toda a vida, defendeu que a arte de fazer música também é prática de conhecimento, e que inovar, por si só, é insuficiente. Nesse sentido, nas décadas de 1920, 1930 e 1940 enveredou por uma orientação neoclássica, entendida esta na sua conceção mais abrangente. O Concerto para Violino é um dos exemplos mais emblemáticos desse percurso.

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Orquestra da Corte de Meininger em 1882, maestro Hans von Bülow | Fonte: Wikimedia Commons
 
As sinfonias de Johannes Brahms distinguem-se pela combinação virtuosa de um planeamento formal rigoroso com uma expressividade pungente. Provém daqui um efeito atordoante: rasgos de invenção sublimes que despontam de uma aparência previsível e respeitadora das convenções clássicas. Os primeiros e últimos andamentos denotam um labor criativo muito grande e são os pilares que sustentam as obras. Pelo meio, dispõem-se dois andamentos relativamente mais desprendidos que convidam à apreensão espontânea. Em qualquer dos casos, destaca-se uma extraordinária concisão das ideias. Na quarta (e última) sinfonia este desígnio é particularmente bem conseguido.

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Mapa de bolso da cidade de Londres (1795) | Fonte: Wikimedia Commons


SINFONIA LONDRES

 

Joseph Haydn compôs doze sinfonias que foram estreadas em Londres. Foi, todavia, a N.º 104 que ficou explicitamente conhecida pelo nome da cidade, em virtude de opções editoriais que aludem inscrições na partitura dos sons urbanos que envolviam o King’s Theatre naquela primavera de 1795. Foi a derradeira sinfonia do músico austríaco. Curiosamente, fora também em Londres que W. A. Mozart compusera, aos oito anos de idade, a sua primeira sinfonia, em 1764. 

 
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    Joseph Haydn passou duas longas estadias em Inglaterra já numa fase muito adiantada da carreira, após servir durante quase três décadas a família Esterházy – primeiro entre janeiro de 1791 e julho de 1792, depois entre fevereiro de 1794 e agosto de 1795. Ambas as digressões foram bem sucedidas, quer no que respeita aos proveitos financeiros quer à simpatia e reconhecimento públicos. Soube familiarizar-se com as práticas e costumes locais e, no âmbito específico da sua arte, mediu bem o gosto dos ouvintes a quem se dirigia, necessariamente diferentes do da aristocracia centro-europeia a que estava habituado. A Sinfonia N.º 104 culminou essa experiência. Por isso, é um testemunho valioso da adaptabilidade da criação artística em função do contexto a que se destina, muito embora não saibamos, categoricamente, o que faz desta obra a «Sinfonia Londres».

 

    Vários autores destacaram diferentes aspetos. Em particular, a vaga semelhança que se nota entre o tema principal do primeiro andamento com a melodia de um salmo que se ouvia frequentemente entoado nas igrejas anglicanas da época. Já no último andamento, distingue-se uma melodia com raízes numa canção tradicional croata que Haydn trazia na memória, mas que também se parecia à característica entoação dos vendedores ambulantes nas ruas de Londres, quando anunciavam bolos quentes e peixe fresco. Porventura, essa semelhança despertou a criatividade do compositor.

 

    Independentemente de tudo isso, Haydn nunca abdicou da matriz clássica de que foi principal mentor. Esta terá sido, inclusivamente, uma das primeiras sinfonias que se tornou repertório e que, por isso, «fez escola». A longa e lenta introdução serve ideias a um Allegro vivaz e espirituoso. O andamento lento desenrola-se numa falsa aparência de tranquilidade, já que é pontuado por diversos momentos de manifesta perturbação expressiva e intensidade dramática. O Minueto são páginas bem humoradas, repletas de contratempos, graciosos maneirismos e efeitos lúdicos que despertam sorrisos na plateia. Por fim, uma Sonata-Rondó que se recreia sobre a repetição episódica da tão emblemática melodia principal desta sinfonia.

 

 

J. Haydn Sinfonia N.º 104, Londres

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa
Maestro: Pedro Neves

 

 
 
O violoncelista Wilhelm Fitzenhagen (1848-1890) | Fonte: Wikimedia Commons
 
A admiração que Piotr Ilitch Tchaikovsky tinha pela música do passado, em particular do século XVIII, é notória em várias obras que nos deixou. São os casos de alguns excertos da ópera A Rainha de Espadas ou da Suíte Mozartiana. Já anteriormente, em 1877, havia ensaiado exercício semelhante nas Variações sobre um Tema Rococó, uma composição para violoncelo e orquestra que se revelou pioneira do Neoclassicismo.

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Antonín Dvořák cerca de 1882 | Fonte: Wikimedia Commons
 
Quando Antonín Dvořák foi viver para Nova Iorque, em 1892, pairava a expectativa de aparecimento de um idioma musical genuinamente americano. Paradoxalmente, o Nacionalismo, enquanto tendência estética que procurava fundamento nos umbigos das diferentes nações, era o movimento artístico mais internacional na derradeira década do século XIX. Só assim se explica que tenha sido possível a um músico imerso na cultura da Boémia – o coração da Europa Central – participar na construção de um paradigma musical para o «Novo Mundo».

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Primeira gravação do Concerto para Violino de Stravinsky (1935) POLYDOR 78 RPM | Fonte: Youtube
 
No início de 1931, de passagem por Paris, Igor Stravinsky traçou os primeiros esboços do seu Concerto para Violino. Terá então tido conhecimento de que a empresa discográfica RCA Victor tinha anunciado recentemente nos E.U.A. a comercialização de um disco que era lido a uma velocidade de 33 rotações por minuto, de que resultava a capacidade de registar 30 minutos de música. Poderá não ter sido casual, portanto, a coincidência de o tempo somado do 1.º e 2.º andamentos, assim como do 3.º e 4.º, não ultrapassar os 15 minutos de cada face.

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