Uma Orquestra, Três Escolas.
 
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Diretor Pedagógico da Metropolitana
faz balanço do ano e olha para os desafios do futuro

 

No final de um exigente e muito motivador ano letivo, Nuno Bettencourt Mendes olha com orgulho para o trabalho feito na AMEC | Metropolitana e reflete sobre as necessidades da instituição. A criação de mestrados é uma das prioridades.

 

 

O ano letivo 2018/2019 chegou agora ao fim. Que balanço é possível fazer na atividade pedagógica da AMEC | Metropolitana?

O balanço é claramente muito positivo. Os planos anuais das atividades da Academia Nacional Superior de Orquestra, da Escola Profissional Metropolitana e do Conservatório de Música da Metropolitana, quer ao nível dos frutos reais do ensino e das aprendizagens programadas, quer das atividades desenvolvidas no plano cultural e artístico tiveram taxas extraordinárias de realização e em alguns casos superaram inclusivamente as nossas expetativas.

 

Uma vez mais, alunos da ANSO foram admitidos em estágios de grande reputação ou atuaram em festivais de nomeada. Isso é um sinal claro da qualidade do ensino que aqui se pratica…

Sim, certamente. Não há a menor dúvida que grande parte do enorme sucesso dos alunos da ANSO ao serem admitidos nas primeiras posições em estágios ou ao ganharem os primeiros prémios de concursos de enorme prestígio se deve ao seu trabalho, motivação e determinação, bem como  à dedicação, ao entusiasmo e ao profissionalismo dos docentes nos vários domínios e especialidades. A estas razões eu acrescentaria ainda as oportunidades que a AMEC | Metropolitana lhes tem propiciado, ao ser ela própria simultaneamente sede e anfitriã de músicos de grande reputação, das mais diversas origens geográficas, que participam na Temporada da Orquestra Metropolitana de Lisboa (OML); são frequentemente figuras de culto de grande inspiração, e com os quais os alunos têm a possibilidade, única no nosso país, de trabalhar.     

 

Entre a oferta da ANSO, o curso de direção de orquestra, não sendo o mais procurado (o de instrumentista continua, naturalmente, a ter mais alunos…), é a marca de diferença no panorama educativo português e até, em certa medida, europeu, uma vez que a oferta não é muita. Como tem visto essa evolução?

A marca de diferença, na realidade, é tripla, embora eu entenda por que razão faz a pergunta nesses termos.  Note-se que o Curso de Instrumentista de Orquestra é único no país, e atingiu em 2018/19 o maior número de alunos desde a sua criação há perto de 30 anos. E o seu grande sucesso em termos de qualificação profissional e taxa de empregabilidade ao longo dos anos tem feito com que atualmente um número crescente de instituições nacionais congéneres tenham vindo a aproximar, ainda que parcialmente, nos seus processos de benchmarking, a identidade dos seus cursos ao nosso. Por outro lado, o Curso de Pianista para Música de Câmara e Acompanhamento centra os seus objetivos na formação pianística direcionada primordialmente para a prática coletiva, contrariamente aos cursos noutras instituições que incidem na formação solística; neste sentido, é também único.

 

Mas o curso de direção de Orquestra…

… Sim, somos de facto a única instituição de ensino superior em Portugal, e sim, não são muitas em toda a Europa, com uma especialidade em direção de orquestra ao nível de licenciatura.  Os critérios de seleção dos candidatos são extremamente rigorosos nos planos técnico e  teórico, bem como ao nível dos conhecimentos gerais e práticos de música erudita.

 

Que tipo de alunos entram neste curso?

Como lhe dizia, os critérios são muito apertados. Só são admitidos alunos de elevado potencial, normalmente já portadores doutro curso superior de música, os quais uma vez diplomados entram facilmente no mercado de trabalho; uns contribuem bastante para a melhoria local das práticas de música em conjunto nos conservatórios e academias, (é o caso de Reinaldo Guerreiro, Henrique Piloto, Élio Leal, por ex.), outros lançam os seus próprios projetos independentes (Yan Wierzba), e uma boa parte desenvolve carreiras de grande sucesso como maestros convidados e/ou maestros residentes em orquestras nacionais e no estrangeiro (Pedro Neves, Joana Carneiro, por ex.).      

 

A Metropolitana descreve-se como “Uma Orquestra e Três Escolas”. É nessa diversidade que assenta o projeto educativo da Metropolitana?

Sem dúvida. As três escolas ministram um ensino intensivo eminentemente voltado para a prática musical em conjunto, e cada uma delas tem pelo menos uma orquestra própria de formato clássico e/ou sinfónico, para além de várias dezenas de grupos de câmara. Note-se ainda que a Metropolitana proporciona aos alunos, desde muito cedo, a aquisição de experiência de palco nos espaços mais conceituados do país, com abordagens técnico-artísticas in situ, num ambiente que no caso da EPM e, sobretudo, da ANSO é muito próximo do de um estágio profissional.

 

Esse modelo organizativo favorece a formação interligada dentro da Metropolitana…

Sim, claramente. Este modelo potencial a interligação da formação dos alunos das três escolas com a prática musical dos professores e músicos profissionais da OML. Pelo que a partilha dos espaços com a orquestra profissional e a possibilidade de atuações conjuntas de alunos e professores no plano da música sinfónica, por exemplo, são uma notável rampa de lançamento, do ponto de vista pedagógico e artístico, para um entendimento holístico das profissões de maestro e de instrumentista, e das suas responsabilidades estéticas e socio-comunicativas na fruição musical cultivada dos públicos. 

 

Como se gere, do ponto de vista pedagógico, esse projeto tão diverso, sabendo que cada uma das escolas tem as suas particularidades?

Ui, se eu me puser a dar-lhe pormenores, não saímos daqui (risos…). Muito sumariamente, a gestão pedagógica é feita graças ao grande empenhamento, ao saber, sensatez e sensibilidade no planeamento atempado dos calendários escolares, e ao pragmatismo das três direções pedagógicas setoriais na articulação das atividades internas e externas das três escolas, particularmente durante os períodos de maior concentração e intensidade de ensaios, audições, concertos e provas públicas. Faria notar ainda que a larga maioria dos músicos profissionais da Orquestra Metropolitana de Lisboa são docentes pelo menos numa das nossas escolas, e, portanto, a gestão pedagógica passa também por uma articulação muito estreita com a Direção Artística e as estruturas de competência administrativa, de produção, de economato, e de comunicação da Temporada de Concertos da AMEC| Metropolitana. Por fim, é importante salientar que o aumento sustentado da população de alunos nos últimos anos teve ainda de ser acompanhado de adaptações logísticas e ajustamentos de funcionamento desta grande Casa, e tal tem obrigado a esforços redobrados de todo o staff e da Direção na procura das melhores soluções de rendibilização dos espaços disponíveis.

 

Peço-lhe que olhe para a frente: em sua opinião, que desafios se colocam à ANSO no médio prazo?

Olhar para a frente a médio prazo obriga a que, primeiro, nos certifiquemos de forma estruturada e sistemática da evolução histórica da qualidade interna da ANSO; segundo, que tenhamos consciência crítica dos novos interesses e desafios artísticos e necessidades culturais de Portugal e do Mundo Global relativamente à música; e terceiro, obviamente e muito em particular, que saibamos ler com muita clareza o impacto das formações promovidas junto dos nossos diplomados em matéria de qualificações e sucesso profissional.

 

Mas esse impacto é evidente naquilo que é imediato: a “colocação no mercado”.

Verdade. A taxa de empregabilidade da ANSO tem oscilado invejavelmente entre os 95% e os 100% nos últimos três anos, isto se pensarmos nos licenciados que optaram por não prosseguir estudos de mestrado ou de outras pós-graduações. Entretanto, já sabemos que dos nossos alunos diplomados há poucas semanas 28% irão continuar estudos de performance ao mais alto nível artístico em instituições europeias de topo, nomeadamente na Alemanha, Reino Unido, Suíça, Bélgica e Holanda; 12% mostram vontade de enveredar por uma carreira (ainda que não em exclusividade) no ensino artístico especializado, e por isso vão iniciar em outubro mestrados em ensino da música em Portugal; mas 60%, ou seja a larga maioria, decidiram iniciar atividade profissional de instrumentistas de imediato, muitos dos quais mantendo a esperança de que a ANSO venha a promover cursos de mestrado dentro de um, dois anos.

 

Mas, sem fugirmos à questão, estes valores são algo diferentes dos de 2017/18?

Não são muito diferentes. Aliás, este ponto leva-nos precisamente a um dos nossos principais desafios a médio prazo: atendendo ao esforço de consolidação da qualificação académica do corpo docente de exceção e às sinergias desenvolvidas com outros especialistas externos em pedagogia e psicologia da música, justamente para dar resposta à crescente procura de formação inicial de professores do ensino artístico especializado da música num 2º ciclo de estudos superiores, vamos finalmente apresentar em setembro próximo uma candidatura autónoma para acreditação de um novo mestrado em ensino da música a ter início em 2020/21.

 

Não é o único.

Não, não é. Para 2021/22 é objetivo da ANSO abrirmos outro mestrado, na área da performance, e isto liga-se, em boa parte, ao nosso segundo desafio: o da internacionalização. Ela na realidade já deu os seus primeiros passos, devido às trocas de experiências que referi anteriormente, e ao facto de grande número dos nossos professores (nacionais e estrangeiros) manterem carreiras artísticas de evidência internacional, fazendo com que haja alunos estrangeiros que começam cada vez mais a escolher a ANSO para com eles realizarem cá os seus estudos musicais avançados, e também pela a atratividade do nosso projeto. 

 

E acredita, portanto, que os mestrados suscitarão mais alunos, incluindo estrangeiros?

Exatamente. Com um 2º ciclo de estudos superiores em performance precedido da obtenção da nossa Carta de Mobilidade de docentes e alunos ao abrigo do Programa Erasmus+ da UE em 2020, esperamos que a nossa internacionalização atinja outros patamares, pela extensão da nossa oferta aos mestrados, e pelos apoios financeiros e pelos meios especiais de cooperação com outras instituições congéneres europeias que passarão a estar à nossa disposição e dos nossos alunos. Há mais desafios, mas estes, a curto-médio prazo são os mais relevantes.

 

Como vê o papel da Metropolitana no ensino da música em Portugal?

Quando assumi o cargo de Diretor Pedagógico da Metropolitana em setembro de 2016, pela fama desta Casa e pelas suas inúmeras provas dadas, tinha a noção de que iria passar a pertencer a um universo educacional, artístico e cultural único no país, e que me cumpriria procurar ajudar a prosseguir a sua missão e, muito em particular, a continuar a aprofundar o seu projeto educativo. Volvidos quase três anos, no quadro do ensino da música em Portugal, sinto uma enorme alegria e uma grande admiração por tudo quanto estas três maravilhosas comunidades escolares têm feito, em todas as suas valências, sabendo superar constrangimentos e mostrando uma força excecional e uma capacidade invulgar para progredir, sempre com muita determinação e tenacidade, e cumprindo o papel desta casa. 

 

Como gostaria de ver esse papel no prazo de uma década?

Para além de desejar que numa década a missão e os valores da Metropolitana se mantenham bem vivos e ainda mais expressivos, gostaria que passasse a ser parte da sua imagem de marca uma interação mais frequente, no ensino e na produção cultural, da música com as outras artes, nomeadamente o teatro, a dança, o cinema, os multimédia e a criação artística contemporânea multidisciplinar.

 

Ao nível das três escolas e da orquestra?

Sim, sem naturalmente desvirtuar o projeto global da Metropolitana, mas sim enriquecê-lo. Particularmente ao nível da ANSO, gostaria de, dentro de 10 anos, ver nela integrada e em pleno funcionamento um centro inovador de estudos de performance musical que investigasse no plano teórico-científico e prático, num ambiente de colaboração entre especialistas académicos e músicos profissionais, as várias construções conceptuais de criatividade, originalidade, e tradição relacionadas com a performance musical em diferentes contextos e condições de performance; ou, por exemplo, como a criatividade musical é distribuída nas interações dos compositores com os performers e os improvisadores na preparação e apresentação pública de peças novas.

 

E pesquisa científica centrada na Orquestra, será viável?

Desejável sim, certamente e viável espero que também; aliás é uma das recomendações da Agência de Acreditação e Avaliação do Ensino Superior.  Seria excelente que esse centro de investigação pudesse também incentivar o desenvolvimento de novas perspetivas sobre os processos de ensaio, as escolhas expressivas, a perícia comunicativa e os papéis criativos dos instrumentistas e do maestro ou da maestrina na orquestra, numa visão comparada com outros modelos de “orquestra” noutros países e noutras culturas não-ocidentais. Isto para que, por um lado, a Metropolitana seja parte distinta e, digamos, uma “agência” criticamente participativa no lado bom da Globalização, uma voz forte em termos de internacionalização, e por outro lado, a ANSO possa ser um motor ainda mais dinâmico de novas metodologias de ensino e de aprendizagem avançada em música no plano nacional e internacional.

 

 

BILHETE DE IDENTIDADE

Tem 55 anos. Frequentou as licenciaturas de biologia e geologia na Universidade dos Açores e de Matemática Pura na Faculdade de Ciências de Lisboa, mas foi pela Direção (ESML) e pelas Ciências Musicais – ramo de musicologia (FCSH-UNL) que haveria de enveredar, quer em termos académicos e científicos, quer artísticos.  A sua formação prática de base, obtida no Instituto Gregoriano de Lisboa, e o seu interesse interdisciplinar, levaram-lhe a adotar um percurso profissional eclético, desde o ensino, passando pela direção coral, acompanhamento de performers, e canto solista, até à investigação musicológica e à política educativa.
​É Diretor Pedagógico da AMEC | Metropolitana desde 2017

 

 
 
 
 
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