Homenagens a Messiaen

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Musicália

Homenagens a Messiaen




Homenagens a Messiaen
 

 

Antonín Dvořák cerca de 1882 | Fonte: Wikimedia Commons
 
Quando Antonín Dvořák foi viver para Nova Iorque, em 1892, pairava a expectativa de aparecimento de um idioma musical genuinamente americano. Paradoxalmente, o Nacionalismo, enquanto tendência estética que procurava fundamento nos umbigos das diferentes nações, era o movimento artístico mais internacional na derradeira década do século XIX. Só assim se explica que tenha sido possível a um músico imerso na cultura da Boémia – o coração da Europa Central – participar na construção de um paradigma musical para o «Novo Mundo».

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Etiqueta do disco da primeira gravação comercializada de Rhapsody in Blue (1924) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Rapsódia Americana, foi este o título provisório de Rhapsody in Blue, a obra concertante para piano e orquestra que em 1924 abriu novos caminhos à carreira de George Gershwin e, bem mais importante, também à música estadunidense. Numa época em que o Novo Mundo buscava uma identidade cultural própria, à semelhança do que ocorreu por toda a Europa, o Jazz impôs-se como a mais genuína expressão musical, alastrando-se às rádios, aos discos e às salas de concerto clássicas. Em forma de Rapsódia, e por entre a azáfama dos teatros da Broadway, Gershwin compôs este precioso «caleidoscópio musical da América».

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Franz Joseph Haydn | Gravura de Francesco Bartolozzi datada de 1791 | Fonte: BnF Gallica
 

UM VERDADEIRO ACHADO

Em 1961 fez-se uma descoberta extraordinária no Museu Nacional de Praga. Tratava-se da partitura manuscrita do primeiro Concerto para Violoncelo e Orquestra de Joseph Haydn, um obra que permanecera duzentos anos silenciada. Espalhou-se a notícia, e não tardaram as gravações dos mais prestigiados violoncelistas, tais como Jacqueline du Pré ou Mstislav Rostropovich, entre tantos outros. Hoje em dia, é uma obra que se impõe nas programações das salas de concertos de todo o mundo, sempre com a aparente naturalidade do primeiro dia em que foi tocada.

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Olivier Messiaen em 1986 | Fonte: Wikimedia Commons
 
HOMENAGENS A MESSIAEN
 
As obras musicais Hommage à Messiaen e Modos de Expressão Ilimitada, respetivamente assinadas por Vasco Pearce de Azevedo e Eurico Carrapatoso, coincidem nalguns aspetos. Ambas estão escritas para orquestra de cordas e prestam tributo a Olivier Messiaen (1908-1992), uma figura pioneira que, de maneira audaz, soube fecundar a criação musical com inspirações improváveis, integrando-as na sua própria linguagem. Os dois compositores portugueses escrevem sobre isso, na primeira pessoa.
 
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Hommage à Messiaen

Texto de Vasco Pearce de Azevedo (Junho de 2019)

 

    Conforme o nome indica, a peça foi escrita como uma homenagem a Olivier Messiaen. Trata-se neste caso de uma versão orquestral de uma peça para coro “a cappella” a 5 vozes (“O Magnum Mysterium”) que eu escrevi em 1988 por ocasião do 80.º aniversário do homenageado.

    É uma peça onde tentei colocar em evidência algumas das técnicas mais características de Messiaen ao longo da sua produção musical: uso de modos de transposição limitada (quer ao nível melódico, quer ao nível harmónico), ritmos com valores acrescentados e forma de mosaico.

    A peça está essencialmente estruturada em 3 secções: a primeira, de carácter lento e contemplativo, expõe o material musical (sequências harmónicas) de forma homofónica. A segunda, de carácter vivo e agitado, começa, numa primeira fase, por expor melodias tocadas em uníssonos e oitavas, sendo que numa segunda fase alterna essas melodias com pequenos excertos das homofonias da primeira secção. A terceira secção regressa ao carácter lento e contemplativo da primeira, usando uma das melodias da segunda secção com uma harmonização semelhante àquela que é utilizada na primeira secção.

 

 

 

Modos de Expressão Ilimitada

Texto de Eurico Carrapatoso (5 de Outubro de 1998)

 

    “Modos de expressão ilimitada”, obra composta em Agosto de 1998 para celebrar o 50.º aniversário de meu irmão António, seu dedicatário, é simultaneamente uma homenagem a Olivier Messiaen (1908-1992) e a uma das suas obras mais emblemáticas, Turangalila Symphonie, que, de igual modo, completa 50 anos de existência. A homenagem a Messiaen e a seu legado estético exprime-se não apenas no conteúdo da obra, mas também no seu próprio título, ao conter uma referência óbvia a “Modos de Transposição Limitada”, uma das técnicas mais célebres de Messiaen no que diz respeito ao universo melódico e harmónico de sua música. Tenho assim o ensejo de honrar a memória de um compositor por quem nutro uma especial predilecção e que, afirmo-o com desassombro, tanta influência exerceu, exerce e certamente exercerá sobre a minha própria música. Sendo um oásis no pensamento harmónico novecentista, Messiaen inoculou um verdadeiro potencial sinestésico na combinatória dos sons, colorindo-os, perfumando-os, dando-lhes uma volumetria expressiva que paira num delicado equilíbrio entre a visão metafísica e hedonista da vida. O resultado é impalpável e a expressão ilimitada.

 

 

V. Pearce de Azevedo Hommage à Messiaen
E. Carrapatoso Modos de Expressão Ilimitada, Op. 18

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa

Maestro: Pedro Amaral

 

Sexta-feira, 12 de julho de 2019, Biblioteca Nacional de Portugal

 
 
Fonte: www.pxhere.com
 
Licenciado em Composição pela Escola Superior de Música de Lisboa, Bruno Gabirro completou o Mestrado em 2008 na Royal Academy of Music. Foi durante este último período de formação, passado em Londres, que recebeu a encomenda para compor uma obra destinada ao ensemble de cordas Royal Academy Soloists. Nasceu assim a obra Rebel (Chaos), prontamente distinguida com o Premio Eric Coates para Composição.

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Brahms ao piano em 1896 | Pintura de Willy von Beckerath (1868-1938) | Fonte: Wikimedia Commons
 
SOB O SIGNO DE BRAHMS
Após um longo período em que Brahms foi pejorativamente conotado com a ala mais conservadora do século XIX, a importância do seu legado é hoje por de mais evidente. No âmbito da música coral, soube colher frutos na polifonia renascentista e barroca. Em música de câmara e no repertório pianístico, fez ressoar a mais sublime cumplicidade com Schubert e Schumann. Já na música orquestral, seguiu a peugada de Beethoven. Exemplos de diversidade, a primeira e última obras orquestrais do compositor alemão espelham bem as duas últimas vertentes. O primeiro dos seus dois concertos para piano, esboçado em 1854, evoluiu desde uma Sonata para Dois Pianos para uma obra em que o solista se funde com a orquestra. Já em 1887, surgiu o Concerto para Violino e Violoncelo, a sua derradeira partitura com orquestra, ainda que tenha sido escrita dez anos antes de morrer.

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O Lago Wörthersee, Pintura de Marko Pernhart (1824–1871) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Tal como as sinfonias de Beethoven com número par, a Segunda Sinfonia de Brahms é por vezes conotada com um período de relaxamento que o compositor se ofereceu após o esforço gigantesco despendido com a sinfonia anterior. Seria então um exercício de escrita descontraído, porventura menos cuidado, em matéria de composição. Mas esta leitura não resiste, sequer, à primeira audição. Ao cabo de uma dúzia de compassos, logo percebemos que é muito mais do que isso. Com ironia, o próprio compositor chamou-lhe «Sinfonia Feliz». Mas também disse, noutra ocasião, que a partitura deveria ter uma orla negra, tal era a melancolia que a trespassava. Em que ficamos?

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