Sob o Signo de Brahms

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Musicália

Sob o Signo de Brahms




Sob o Signo de Brahms
Antonín Dvořák cerca de 1882 | Fonte: Wikimedia Commons
 
Quando Antonín Dvořák foi viver para Nova Iorque, em 1892, pairava a expectativa de aparecimento de um idioma musical genuinamente americano. Paradoxalmente, o Nacionalismo, enquanto tendência estética que procurava fundamento nos umbigos das diferentes nações, era o movimento artístico mais internacional na derradeira década do século XIX. Só assim se explica que tenha sido possível a um músico imerso na cultura da Boémia – o coração da Europa Central – participar na construção de um paradigma musical para o «Novo Mundo».

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Fonte: www.pxhere.com
 
Licenciado em Composição pela Escola Superior de Música de Lisboa, Bruno Gabirro completou o Mestrado em 2008 na Royal Academy of Music. Foi durante este último período de formação, passado em Londres, que recebeu a encomenda para compor uma obra destinada ao ensemble de cordas Royal Academy Soloists. Nasceu assim a obra Rebel (Chaos), prontamente distinguida com o Premio Eric Coates para Composição.

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O Lago Wörthersee, Pintura de Marko Pernhart (1824–1871) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Tal como as sinfonias de Beethoven com número par, a Segunda Sinfonia de Brahms é por vezes conotada com um período de relaxamento que o compositor se ofereceu após o esforço gigantesco despendido com a sinfonia anterior. Seria então um exercício de escrita descontraído, porventura menos cuidado, em matéria de composição. Mas esta leitura não resiste, sequer, à primeira audição. Ao cabo de uma dúzia de compassos, logo percebemos que é muito mais do que isso. Com ironia, o próprio compositor chamou-lhe «Sinfonia Feliz». Mas também disse, noutra ocasião, que a partitura deveria ter uma orla negra, tal era a melancolia que a trespassava. Em que ficamos?

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Olivier Messiaen em 1986 | Fonte: Wikimedia Commo
 
As obras musicais Hommage à Messiaen e Modos de Expressão Ilimitada, respetivamente assinadas por Vasco Pearce de Azevedo e Eurico Carrapatoso, coincidem nalguns aspetos. Ambas estão escritas para orquestra de cordas e prestam tributo a Olivier Messiaen (1908-1992), uma figura pioneira que, de maneira audaz, soube fecundar a criação musical com inspirações improváveis, integrando-as na sua própria linguagem. Os dois compositores portugueses escrevem sobre isso, na primeira pessoa.

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Brahms ao piano em 1896 | Pintura de Willy von Beckerath (1868-1938) | Fonte: Wikimedia Commons
 
SOB O SIGNO DE BRAHMS
 
Após um longo período em que Brahms foi pejorativamente conotado com a ala mais conservadora do século XIX, a importância do seu legado é hoje por de mais evidente. No âmbito da música coral, soube colher frutos na polifonia renascentista e barroca. Em música de câmara e no repertório pianístico, fez ressoar a mais sublime cumplicidade com Schubert e Schumann. Já na música orquestral, seguiu a peugada de Beethoven. Exemplos de diversidade, a primeira e última obras orquestrais do compositor alemão espelham bem as duas últimas vertentes. O primeiro dos seus dois concertos para piano, esboçado em 1854, evoluiu desde uma Sonata para Dois Pianos para uma obra em que o solista se funde com a orquestra. Já em 1887, surgiu o Concerto para Violino e Violoncelo, a sua derradeira partitura com orquestra, ainda que tenha sido escrita dez anos antes de morrer.
 
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O Jovem Brahms ao Piano

 

 

    Johannes Brahms tinha vinte e cinco anos de idade quando completou o seu primeiro concerto para piano. Já antes, tinha revelado o seu talento em várias sonatas para piano e canções, as quais também mereceram, em 1853, apreciações favoráveis de Robert Schumann, de quem se tornou próximo. Porém, esta foi a sua primeira composição para orquestra – lembra-nos isto que Brahms só fez estrear a primeira sinfonia aos quarenta e três anos. O concerto surgiu a partir de uma sonata para dois pianos esboçada em 1854, numa altura em que Schumann tinha acabado de ser internado num hospício, na sequência de uma tentativa de suicídio. Esse episódio fatídico enredou, portanto, a criação desta obra. O dramatismo inicial corresponde-lhe plenamente, podendo ser entendido como uma expressão de lamento. Sendo verdade, o segundo andamento, que foi trabalhado já depois da morte de Schumann, em 1856, pode dever a sua disposição introspetiva à evocação da memória do malogrado músico. Para outros consiste, em vez disso, num «gentil retrato» de Clara Schumann, por quem Brahms viria a apaixonar-se.

 

    A estreia, em 1859, com o próprio compositor ao piano, foi bastante mal recebida, em virtude das expetativas do público da época diante de um concerto com solista. Inesperadamente, este concerto confiava um papel muito destacado à orquestra, relegando muitas vezes o solista para um papel de sustentação rítmica e harmónica. Os trémulos nos tímpanos, os densos uníssonos nas cordas e a intervenção criteriosa das madeiras, sobretudo no andamento central, juntam-se aqui a inúmeros outros efeitos orquestrais que ostentavam uma diferença. Essa ousadia, precisamente, faria deste compositor um dos maiores sinfonistas de sempre.

 

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O Duplo Concerto

 

    O Concerto para Violino e Violoncelo, Op. 102, foi a derradeira partitura orquestral de Brahms, ainda que tenha sido escrita dez anos antes da sua morte. Nessa ocasião, o compositor alemão optou por apresentar dois solistas à frente da orquestra, um dispositivo que já se conhecia desde o período barroco e que permitia enriquecer bastante as texturas sonoras – o catálogo de Antonio Vivaldi inclui várias obras que ilustram exemplarmente este efeito. Porém, e apesar de no período romântico terem sido vários os compositores que recorreram a tal prática, no final do século XIX impunha-se um propósito acrescido para o fazer, normalmente motivado por circunstâncias alheias a matérias estritamente musicais. Com efeito, era suposto Brahms ter escrito um concerto para violoncelo e orquestra destinado ao violoncelista Robert Hausmann, um músico a quem havia dedicado três anos antes uma sonata e que nessa ocasião o desafiara para este projeto. Porém, juntou-se pelo meio uma valiosa oportunidade para restabelecer a sua antiga amizade com Joseph Joachim, o célebre violinista que já antes estreara o Concerto para Violino, em 1878 – a rutura entre o dois músicos devera-se ao conturbado processo de divórcio de Joachim, quando Brahms testemunhou em favor de sua mulher Amalie. Acabou, por tudo isto, por ser acrescentada uma segunda parte solista à do violoncelo, designadamente o violino.

 
    A estreia teve lugar na cidade de Colónia em novembro de 1887, com aqueles dois intérpretes na condição de solistas. Uma vez mais, resultou uma obra em que a parte orquestral predomina em largos momentos. O violino e o violoncelo «dialogam» continuadamente entre si, estabelecendo uma relação de equidade, muito embora o violoncelo assuma mais vezes a liderança, quando introduz os temas melódicos principais. Coexistem assim duas das principais marcas distintivas do estilo de Brahms: a música de câmara, no papel dos solistas, e a música sinfónica. Uma convivência improvável que só os grandes mestres conseguem moldar.

 

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa

Solistas: Filipe Pinto-Ribeiro * (piano) Corey Cerovsek * (violino), Adrian Brendel * (violoncelo)

Maestro: Pedro Amaral

 

J. Brahms Concerto N.º 1 para Piano e Orquestra, Op. 15    

J. Brahms Duplo Concerto para Violino e Violoncelo, Op. 102

 

* Membro do DSCH-Schostakovich Ensemble, Agrupamento associado da Temporada 2018/19

 

 
 
 
 
Franz Joseph Haydn | Gravura de Francesco Bartolozzi datada de 1791 | Fonte: BnF Gallica
 

UM VERDADEIRO ACHADO

Em 1961 fez-se uma descoberta extraordinária no Museu Nacional de Praga. Tratava-se da partitura manuscrita do primeiro Concerto para Violoncelo e Orquestra de Joseph Haydn, um obra que permanecera duzentos anos silenciada. Espalhou-se a notícia, e não tardaram as gravações dos mais prestigiados violoncelistas, tais como Jacqueline du Pré ou Mstislav Rostropovich, entre tantos outros. Hoje em dia, é uma obra que se impõe nas programações das salas de concertos de todo o mundo, sempre com a aparente naturalidade do primeiro dia em que foi tocada.

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Etiqueta do disco da primeira gravação comercializada de Rhapsody in Blue (1924) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Rapsódia Americana, foi este o título provisório de Rhapsody in Blue, a obra concertante para piano e orquestra que em 1924 abriu novos caminhos à carreira de George Gershwin e, bem mais importante, também à música estadunidense. Numa época em que o Novo Mundo buscava uma identidade cultural própria, à semelhança do que ocorreu por toda a Europa, o Jazz impôs-se como a mais genuína expressão musical, alastrando-se às rádios, aos discos e às salas de concerto clássicas. Em forma de Rapsódia, e por entre a azáfama dos teatros da Broadway, Gershwin compôs este precioso «caleidoscópio musical da América».

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Capa da 1.ª Edição da Segunda Sinfonia de J. Brahms (1878) | Fonte: IMSLP
 
A Segunda Sinfonia de Brahms é bastante mais discreta do que a Primeira. Requer, por isso, uma atenção especial. Em muita música alemã da segunda metade do século XIX sente-se a nostalgia provocada por um modelo de criação artística que se esgotava. Em Brahms, todavia, não se vislumbra qualquer laivo de decadência. A destreza técnica e a sobriedade expressiva que se reconhecem neste seu Op. 73 ajudam a explicá-lo. Brahms não ansiava por um lugar na História. Ele interpretava o seu lugar na História. Encarava a Tradição com uma atitude construtiva, sempre buscando novos caminhos e soluções.

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