A Patética de Tchaikovsky

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Musicália

A Patética de Tchaikovsky




A Patética de Tchaikovsky

Sergei Rachmaninov em 1901 | Fonte: Wikimedia Commons

 

O Concerto para Piano N.º 2 de Rachmaninov depara-nos com um dos maiores mistérios da Arte dos Sons. Como é que a Música consegue induzir sentimentos no ouvinte? Que mensagem é essa que se transmite de maneira tão convincente, mas cujo conteúdo não podemos objetivamente decifrar? Apesar de não haver respostas consensuais para estas perguntas, há adjetivos que ecoam sempre em torno desta obra. Fala-se de ambientes sombrios, nostalgia, ansiedade e paixão ardente… de uma teatralização profunda da comoção romântica.

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Carta de Schubert datada de março de 1824 em que escreveu que se preparava para compor uma grande sinfonia | Fonte: Wikimedia Commons
 
O historial da numeração das sinfonias de Schubert é confuso. Em parte, isso resulta da circunstância de terem sido publicadas postumamente e de haver manuscritos que permaneceram inacabados. A sinfonia «A Grande», que mais frequentemente é acompanhada pelo número 9, também aparece, por vezes, indicada com os números 7, 8 e até 10.

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Piotr Ilitch Tchaikovsky em 1888 | Fonte: Wikimedia Commons 

 

A maior parte das críticas feitas à música de Tchaikovsky centra-se na organização estrutural das obras. Apontam um pensamento musical focado numa sucessão de episódios que se precipitam em clímaxes expressivos sem maturação prévia e desenvolvimento das ideias substanciais. Com efeito, as qualidades que melhor distinguem o compositor russo são a beleza das melodias e o brilhantismo das orquestrações. Assim acontece na Sinfonia N.º 5. Porém, a coerência formal da sua construção é, também ela, determinante. Para o comprovar, basta relacionar o ânimo dolente do tema inicial com o registo expansivo dessa mesma melodia quando reaparece no último andamento.

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A Peregrinação de Childe Harold | Pintura de Joseph Mallord William Turner (1823) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Há grandes diferenças entre o estilo musical de Berlioz e aquele praticado pelos compositores alemães do seu tempo. A clareza das suas orquestrações permite distinguir em cada momento os diferentes timbres instrumentais. Mas também é certo que o compositor francês se deixou fascinar pelos imaginários fantasiosos do primeiro romantismo germânico, tantas vezes contagiado por referências literárias. É o caso de Harold em Itália, uma Sinfonia de 1834 inspirada no poema narrativo de Lord Byron «A Peregrinação de Childe Harold».

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Fotografia Tchaikovsky em Odessa em Janeiro de 1893 | Fonte: Wikimedia Commons


A PATÉTICA DE TCHAIKOVSKY

 

Piotr Ilitch Tchaikovsky dirigiu a estreia da Sinfonia N.º 6 no final de outubro de 1893, em São Petersburgo. Morreu nove dias mais tarde, de maneira inesperada, o que contribuiu para as inúmeras alusões extramusicais que surgiram em torno da obra. Tanto mais porque o próprio compositor admitiu a existência de um conteúdo programático subjacente, muito embora nunca o tenha revelado. Seria redutor, no entanto, resumi-la a um aceno de despedida por parte de um grande músico que pressentiu a morte, e mais ainda, a uma narrativa musical baseada em angústia criativa ou vivências pessoais sofridas.

 

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    Com o provável consentimento do compositor, a partitura da Sinfonia N.º 6 intitula-se «Patética», o que sublinha bem a intensidade expressiva que a caracteriza. O nome deriva da palavra «Pathos», que em grego significa sofrimento, mas também remete para a paixão e para emoções exacerbadas. Era comum Tchaikovsky evocar aspetos da sua vida emocional nas «entrelinhas» das sinfonias que compunha. Porém, neste caso parece ter levado isso até às últimas consequências, até porque o dramatismo dos episódios biográficos que enredaram esta composição terão contribuído para tal. Em 1890, Nadezhda von Meck, mecenas de longa data, suspendeu o apoio que lhe dava, devido a privações económicas. O compositor nunca aceitou tal argumento, sentindo-se traído e afetado na sua auto-confiança. Por outro lado, a homossexualidade também lhe trazia dificuldades crescentes, numa altura em que mantinha uma relação apaixonada com o seu sobrinho Vladimir Davydov (a quem a partitura é dedicada) e se via confrontado com normativas legais intolerantes a esse respeito. Não se estranha, por isso, que numa fotografia que lhe conhecemos tirada em janeiro de 1893, quando contava somente 53 anos de idade, pareça um homem desgastado e envelhecido. Existe, assim, um grande mistério em torno da sua morte repentina. Levantam-se possibilidades como o suicídio, entre outras igualmente graves. Há relatos que falam de uma infeção de cólera motivada pela ingestão de água insalubre, mas questionando se se tratou de acidente ou se foi de algum modo provocada por terceiros.

 

    Em todo o caso, sabe-se que Tchaikovsky estava plenamente satisfeito com a sua nova Sinfonia, chegando mesmo a admitir que se tratava da melhor composição que alguma vez escrevera. De certa maneira, encarnou o ideal artístico romântico, no sentido em que projetou os sofrimentos pessoais numa obra de arte sublime, como verdadeiro processo de libertação, partindo de uma reflexão sobre a Vida e sobre a Morte. Ao longo dos quatro andamentos é possível vislumbrar um confronto colossal entre o entusiasmo pela existência e a exaustão profunda, entre uma força vital e o esgotamento físico e anímico. O arrebatamento das emoções dirige-se ao desespero e à desolação.

 

    Os primeiros compassos são premonitórios, com uma melodia grave no fagote, acompanhada pelos contrabaixos e pelas violas, como se emergisse dos confins da Terra. Mas logo desperta um registo confiante e determinado, por entre uma orquestração suntuosa e melodias de belo efeito. Carregada de referências, a melodia que se destaca no primeiro andamento é um derivação livre da ária «La fleur que tu m’avais jetée» que Don José canta no segundo ato da ópera Carmen de Bizet. Também não é casual a breve citação que se ouve a dada altura do Requiem da Igreja Ortodoxa Russa. A intensidade dramática que se atinge gradualmente ao longo do primeiro andamento desagua no retorno à primeira melodia e, em particular, na aparente vacuidade de um segundo andamento que se alimenta na ambígua sensualidade de uma valsa desfigurada, uma iminência de colapso que se estende no tempo. O terceiro andamento contrasta de forma excessiva, numa disposição algo grotesca que mistura o Scherzo com a Marcha, e aponta a acordes finais que convidam enganadoramente a aplausos «fora de tempo». Surge então o desfecho mais improvável. É a extinção inexorável de um lamento que rompeu com todos os paradigmas à época associados ao formato Sinfonia. Pressente-se a desistência, em sentido contrário do confronto com o destino que trespassara nas sinfonias anteriores.

 

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa

Solista: António Rosado (piano)
Maestro: Mykola Dyadyura

 

Sergei Rachmaninov Concerto para Piano N.º 2, Op. 18

 

Sexta-feira, 10 de maio de 2019, Fórum Municipal Luísa Todi, Setúbal

 

Sábado, 11 de maio de 2019, Cineteatro da Academia Almadense (Grande Auditório)

 

Domingo, 12 de maio de 2019, Grande Auditório do Centro Cultural de Belém

 


 

 

 

 
      
Edward Elgar em 1919 | Desenho de William Rothenstein | Fonte: Wikimedia Commons
 
Em 1957, escrevia-se na reputada revista Music and Letters que a música de Edward Elgar estava «um pouco fora de moda». Celebrava-se então o centenário do nascimento do compositor inglês. Deste então, essa avaliação perdeu o sentido. Hoje, as suas duas sinfonias, a oratória O sonho de Gerontius, o estudo sinfónico Falstaff e os concertos para violino, são obras de referência no repertório orquestral. Junta-se-lhes ainda o Concerto para Violoncelo, uma composição que neste ano de 2019 celebra, também ela, o seu centenário.

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Franz Schubert em 1821 Desenho de Kupelwieser Leopold | Fonte: BnF Gallica

No primeiro dia de 1839 Robert Schumann visitou por cortesia a casa do irmão de Franz Schubert, em Viena – o compositor austríaco tinha morrido havia mais de dez anos. Poucos dias mais tarde escreveu assim, numa carta dirigida à Breitkopf & Härtel, uma editora sediada em Leipzig: «… Vi com estupefação os tesouros que ele guarda. Encontram-se lá… quatro ou cinco sinfonias…». Uma delas era a Sinfonia em Dó Maior, a mesma que ficou mais tarde conhecida como «A Grande».

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A cidade de Veneza cerca de 1750 | Pintura de Francesco Guardi (1712–1793) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Nas primeiras décadas do século XVIII, a cidade de Veneza era referência da moda e das artes. Era visitada pelos seus monumentos, teatros e casas de jogo. O turismo era uma atividade económica em expansão, e a música uma das principais atrações. Nesta vertente, para lá das óperas e das celebrações religiosas da Basílica de São Marcos, seria «obrigatória» uma passagem pela pequena igreja do Ospedale della Pietà, onde Antonio Vivaldi se dava a conhecer. Os seus concertos para dois solistas e orquestra permitem imaginar o aparato sonoro e cénico daqueles eventos.

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A cidade de Hamburgo cerca de 1750 | Pintura Anónima | Fonte: Wikimedia Commons
 
Carl Philipp Emanuel Bach foi o segundo filho de Johann Sebastian, e aquele que teve maior sucesso enquanto compositor. Reputado cravista, assinou um número relativamente pequeno de sinfonias, muito embora seja provável que várias se tenham perdido. As primeiras foram compostas em Berlim ao serviço de Frederico o Grande, sendo a mais conhecida a Sinfonia WQ 178. As restantes datam da década de 1770, quando já vivia em Hamburgo. Em particular, aquelas reunidas no caderno WQ 183 antecipam a subjetividade romântica do século XIX.

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