Um Romântico no Novo Mundo

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Musicália

Um Romântico no Novo Mundo




Um Romântico no Novo Mundo
Pormenor da pintura «O baloiço», de Jean-Honoré Fragonard (1767) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Tal como a música, também as palavras se transformam no tempo. Por isso, quando se trata de ouvir aqueles concertos que Antonio Vivaldi reuniu no seu Op. 4, é importante termos presente que o termo «extravagância», deste modo reportado às primeiras décadas do século XVIII, não tinha a significação que lhe conhecemos hoje. São doze concertos para violino e orquestra reunidos numa publicação intitulada «La Stravaganza» e que surpreendem pelos contrastes abruptos entre melodias afáveis e momentos de virtuosismo desenfreado.

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W. A. Mozart em 1789 | Desenho de Doris Stock | Fonte: Wikimedia Commons

 

Wolfgang Amadeus Mozart compôs quarenta e uma sinfonias. As últimas três foram escritas em Viena no verão de 1788, num período de tempo considerado tremendamente curto, face à qualidade artística e à importância histórica que lhes é hoje reconhecida. Cada uma delas tem uma identidade própria, sendo a N.º 39 a mais discreta. Talvez por isso seja a menos conhecida do grande público. Ainda assim, e apesar de não ostentar a mesma liberalidade expressiva, está longe de se resumir à condição de prólogo numa trilogia prodigiosa.

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«Cruz e Catedral na Montanha» | Pintura de Caspar David Friedrich (1812) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Missa Solemnis de Ludwig van Beethoven não é uma obra evidente. Está cheia de contrastes e mudanças abruptas, sem transições. De aparência austera, é uma partitura simultaneamente grandiosa e compenetrada, tecnicamente aparatosa e subtil. Curiosamente, é na relação entre música e texto que se descobre um dos seus principais fascínios. Em cada compasso, o ouvinte é convidado a acompanhar uma leitura, a apreciar a expressão e o sentido das palavras como num desfile de esculturas sonoras.

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Franz Schubert em 1821 | Pormenor de um desenho de Leopold Kupelwieser | Fonte: BnF Gallica

 

Há algo na música de câmara de F. Schubert que convida a sonhar. Por vezes, são sonhos turbulentos, deambulações difusas nas margens do inconsciente, vagas de estranheza que sugerem pesadelos. Noutras, paira a despreocupação, o devaneio. Em qualquer dos casos, seja a afetação expressiva ou essa aparente diletância, certo é que o compositor austríaco nunca foi um estratego do calibre de L. v. Beethoven. Schubert buscava diferentes encantos, como o comprovam o Trio com Piano D. 898 e o Quinteto de Cordas D. 956, ambos compostos em 1828, nos derradeiros meses da sua vida.

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Rachmaninov em 1925 | Pintura de Konstantin Somov | Fonte: Wikimedia Commons
 
UM ROMÂNTICO NO NOVO MUNDO
 
O pianista e compositor Sergei Rachmaninov foi uma figura paradoxal no panorama musical do seu tempo. Por um lado, a sua música está impregnada de romantismo oitocentista e de uma Rússia bucólica que nunca revisitou depois da Revolução. Por outro, a carreira de concertista e a condição de exilado fizeram de si um cidadão do mundo, aficionado do automobilismo e dos barcos a motor. O seu quarto e último concerto para piano foi das poucas composições que concluiu após 1917. Muito embora «soe a Rachmaninov», de princípio ao fim, respira bastante na azáfama nova-iorquina dos anos 1920.
 
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    Sergei Rachmaninov cresceu nas margens do Mar Branco, no seio de uma família russa aristocrática. Aos nove anos de idade partiu com mãe e irmãos para São Petersburgo, na sequência da separação dos pais, e três anos mais tarde para Moscovo, onde se formou como pianista e compositor. Aos dezanove anos já tinha notoriedade no meio musical moscovita. Após várias digressões pela Europa, a sua primeira viagem aos E.U.A. aconteceu em 1908, altura em que o Concerto para Piano N.º 3 foi estreado, e dirigido por Gustav Mahler numa das ocasiões em que foi tocado em Nova Iorque. Pelo meio da turbulência social e política de 1917, saiu do país com a família a pretexto de uma digressão, e fixou-se no ano seguinte naquela cidade estadunidense, onde veio a compor em 1926 o Concerto para Piano N.º 4. 

 

    Rachmaninov é vulgarmente associado ao sentimentalismo hollywoodesco, até porque muitos excertos das suas obras foram utilizados em filmes. Porém, a maior parte da sua música foi composta quando ainda vivia na Rússia. Tem na ostentação melódica umas das suas principais características, para lá de uma exploração exaustiva dos recursos que o piano oferece. Denota, todavia, uma evolução ao longo dos anos, designadamente através de uma crescente economia de recursos, com melodias mais curtas e maior proeminência rítmica. Rachmaninov tinha a perfeita noção de que o estilo neo-romântico da sua escrita não acompanhava as mais ousadas inovações musicais que se conhecia na época, as quais considerava serem excessivamente cerebrais. Numa «terceira via», este concerto transparece uma vaga influência jazzística, certamente devedora de Rhapsody in Blue de George Gershwin, cuja estreia teve a oportunidade de presenciar em 1924, ou dos concertos da orquestra de Paul Whiteman.

 

    Como se espera de um concerto para piano, o solista tem aqui um protagonismo esmagador. Ainda assim, há vários momentos em que sobressaem diferentes instrumentos, num exercício da orquestração notoriamente influenciado por Tchaikovsky. Noutras secções reconhece-se o estilo de Chopin, pela profusão de ornamentos que torneia as melodias, e também o aparato vistuosístico de Franz Liszt. O primeiro andamento tem o caráter de uma improvisação que se precipita em episódios sucessivos. No segundo, disposto na estrutura simétrica A-B-A, o próprio compositor reparou tardiamente que as primeiras notas da melodia eram praticamente idênticas às do primeiro tema do Concerto para Piano de Schumann. Pelo meio, assiste-se a uma agitação súbita que acentua uma sensação de desespero. Por fim, o último andamento é uma evidente manifestação de virtuosismo, também na forma A-B-A, acrescida de uma Coda. Também aqui, o compositor abandonou-se num discurso fragmentado que, ainda assim, favorece um final convincente.

 

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa
Solista: António Rosado (piano)
Maestro: Pedro Neves

 

Sergei Rachmaninov Concerto para Piano e Orquestra N.º 4, Op. 40

 

 

 

 
Dmitri Schostakovich em 1976 | Pintura de Tahir Salahov | Fonte: WIkiart
 
Há dois episódios que ilustram bem a tensão que sempre existiu entre Dmitri Schostakovich e o regime soviético. O primeiro remonta a 1936, quando uma récita da ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, assistida por Josef Estaline, resultou numa crítica feroz publicada no jornal Pravda. O segundo foi a acusação do Congresso Nacional de Compositores que, em 1948, denunciou a sua música como formalista e adversa aos desígnios da Revolução. A Sinfonia N.º 10 foi composta em 1953, logo após a morte do «Grande Líder», pelo que foi sempre associada a esse acontecimento. Porém, mais recentemente, soube-se que a composição do 3.º andamento poderá ter sido inspirada na paixão por uma mulher. Multiplicam-se, deste modo, os enigmas que povoam o legado do músico russo.

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O barítono Johann Vogl, intérprete dileto das canções de Franz Schubert. Litografia de Josef Kriehuber (1830) | Fonte: Wikimedia Commons

 

A repetição melódica é um dos aspetos que, a respeito da música instrumental de Franz Schubert, são mais frequentemente criticados por aqueles que preferem a robustez formal no repertório oitocentista. É evidente, todavia, que não se trata aqui de uma limitação técnica ou criativa que resulta em redundância. Em vez disso, devemos realçar duas outras características que distinguem o estilo musical do compositor. A mais evidente é o dom melódico que todos contagia. A segundo é a importância do uso da Variação, enquanto procedimento. O segundo andamento do Quarteto de Cordas A Morte e a Donzela e o quarto do Quinteto com Piano A Truta são exemplos emblemáticos disso mesmo.

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«Schubertíada», pintura de Julius Schmid datada de 1896 | Fonte: Wikimedia Commons
 

Às reuniões de convivência que ocorriam no círculo de relações sociais de Franz Schubert, chamamos «Schubertíadas». Estes eventos, patrocinados por personalidades que amparavam financeiramente o músico, tornaram-se numa verdadeira instituição na década de 1820, estendendo-se então a vários salões da cidade de Viena. Um dos principais motivos de interesse seriam, naturalmente, as canções, as obras de câmara e as peças para piano solo do compositor austríaco. Mas havia muito mais.

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Antonio Vivaldi | Desenho de Pier Leone (1723) | Fonte BnF Gallica
 
Antonio Vivaldi assinou mais de cinquenta composições para orquestra de cordas, com quatro partes instrumentais, sem solista. Por vezes aparecem designadas como Sinfonias, outras como Concerto ripieno, e até como Concerti a quattro. São, afinal, Concertos ou Sinfonias? Na primeira metade do século XVIII as sinfonias tendiam a ser tecnicamente menos complexas, assemelhando-se às aberturas de ópera. É disso exemplo a Sinfonia em Dó Maior RV 112, composta cerca de 1720.

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