Schubert e Variações

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Musicália

Schubert e Variações




Schubert e Variações

Franz Schubert em 1821 | Pormenor de um desenho de Leopold Kupelwieser | Fonte: BnF Gallica

 

Há algo na música de câmara de F. Schubert que convida a sonhar. Por vezes, são sonhos turbulentos, deambulações difusas nas margens do inconsciente, vagas de estranheza que sugerem pesadelos. Noutras, paira a despreocupação, o devaneio. Em qualquer dos casos, seja a afetação expressiva ou essa aparente diletância, certo é que o compositor austríaco nunca foi um estratego do calibre de L. v. Beethoven. Schubert buscava diferentes encantos, como o comprovam o Trio com Piano D. 898 e o Quinteto de Cordas D. 956, ambos compostos em 1828, nos derradeiros meses da sua vida.

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W. A. Mozart em 1789 | Desenho de Doris Stock | Fonte: Wikimedia Commons

 

Wolfgang Amadeus Mozart compôs quarenta e uma sinfonias. As últimas três foram escritas em Viena no verão de 1788, num período de tempo considerado tremendamente curto, face à qualidade artística e à importância histórica que lhes é hoje reconhecida. Cada uma delas tem uma identidade própria, sendo a N.º 39 a mais discreta. Talvez por isso seja a menos conhecida do grande público. Ainda assim, e apesar de não ostentar a mesma liberalidade expressiva, está longe de se resumir à condição de prólogo numa trilogia prodigiosa.

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António Pinho Vargas | Foto de João Francisco Vilhena (2018)
A ocasião da estreia de uma obra musical configura-se, necessariamente, como um momento de expectativa partilhado pelo compositor, intérpretes e público. Mais ainda tratando-se de António Pinho Vargas, uma referência incontornável do panorama cultural e artístico do pós-25 de Abril. Apresenta-se aqui a sua primeira Sinfonia, a qual chamou Subjetiva.

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O barítono Johann Vogl, intérprete dileto das canções de Franz Schubert. Litografia de Josef Kriehuber (1830) | Fonte: Wikimedia Commons
 

SCHUBERT E VARIAÇÕES

 

A repetição melódica é um dos aspetos que, a respeito da música instrumental de Franz Schubert, são mais frequentemente criticados por aqueles que preferem a robustez formal no repertório oitocentista. É evidente, todavia, que não se trata aqui de uma limitação técnica ou criativa que resulta em redundância. Em vez disso, devemos realçar duas outras características que distinguem o estilo musical do compositor. A mais evidente é o dom melódico que todos contagia. A segundo é a importância do uso da Variação, enquanto procedimento. O segundo andamento do Quarteto de Cordas A Morte e a Donzela e o quarto do Quinteto com Piano A Truta são exemplos emblemáticos disso mesmo.
 
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    O Quarteto de Cordas N.º 14 e o Quinteto com Piano em Lá Maior coincidem em variações instrumentais de melodias originalmente escritas para serem cantadas. O primeiro foi composto em 1824 e é conhecido pelo nome A Morte e a Donzela, porque o segundo andamento consiste em variações sobre um tema melódico emprestado de uma canção que o próprio Schubert escreveu sete anos antes. O poema dessa canção fala-nos de uma jovem aterrorizada diante da personificação da Morte. Percebe-se assim a razão de tão grande intensidade dramática. No mesmo sentido, a precipitação discursiva e a disposição enérgica do primeiro e último andamentos alimentam aquela analogia, mas reforçados por maior complexidade técnica. Com efeito, nos quartetos do início da carreira de Schubert a parte do primeiro violino assumia quase total protagonismo, limitando-se os restantes instrumentos a acompanharem-no. Ora, aqui o conjunto ataca de início com um uníssono contundente, instalando-se depois, algo bruscamente, na atmosfera contemplativo de um Coral. É uma obra repleta de contrastes, mas meticulosamente desenhada, como se houvesse uma estória para contar. Não sabemos o que conta, mas sim que traduz as emoções mais perturbadoras que conseguimos imaginar. Inclusivamente o Scherzo, do qual se esperaria um registo mais bem humorado, surpreende com harmonias pesadas e ritmos inquietantes. Revela-se, assim, a faceta tempestuosa do mesmo compositor que assinou a espirituosa canção A truta.

 

    Folheia-se agora as páginas do Quinteto em Lá Maior, conhecido como «A Truta», em virtude de o quarto andamento consistir numa série de variações sobre a melodia de uma canção igualmente escrita em 1817 e que tornara muito popular a má sorte de uma pobre truta. Em registo sarcástico, o poema dessa canção projeta as vicissitudes do desejo amoroso transpostas no quadro rústico de um riacho onde um pescador procura atrair um peixe, e cujo desfecho se adivinha. Ao longo das sucessivas repetições da melodia, dispõe-se o diálogo que já se antevê desde início, quando se ouve o motivo original do piano. No verão de 1819, Schubert foi convidado pelo barítono Johann Vogl para uma digressão que os levou primeiro até Linz e depois a Steyr, uma pequena localidade situada no sopé dos Alpes Austríacos. Com 22 anos de idade, era a primeira vez que o músico viajava para fora de Viena. Aí, participou nos serões organizados pelo mecenas e violoncelista amador Sylvester Paumgartner no seu palacete. Schubert dedicou-lhe a partitura baseada naquela que era uma das suas canções preferidas. Talvez por isso, substituiu na configuração mais comum do quarteto de cordas com piano, o violino pelo contrabaixo. Libertava assim o violoncelo para voos mais altos, porventura altos de mais para as capacidade técnicas de Paumgartner.

 
Solistas da Metropolitana & DSCH-Schostakovich Ensemble
 

F. Schubert Trio com Piano N.º 1, D. 898 (1)
F. Schubert Quinteto de Cordas, D. 956 (2)

 

Sábado, 6 de abril de 2019, Teatro Thalia 

F. Schubert Quarteto de Cordas N.º 14, D. 810, A Morte e a Donzela (3)
F. Schubert Quinteto com Piano, D. 667, A Truta (4)

 

(1) Trio com Piano: Ana Pereira (violino), Adrian Brendel * (violoncelo), Filipe Pinto-Ribeiro * (piano)
(2) Quinteto de Cordas: Corey Cerovsek *, Ana Pereira (violinos), Joana Cipriano (viola), Adrian Brendel *, Ana Cláudia Serrão (violoncelos)

(3) Quarteto de Cordas: Corey Cerovsek *, José Teixeira (violinos), Joana Cipriano (viola), Ana Cláudia Serrão (violoncelo)
(4) Quinteto com Piano: Corey Cerovsek * (violino), Joana Cipriano (viola), Adrian Brendel * (violoncelo), Vladimir Kouznetsov (contrabaixo), Filipe Pinto-Ribeiro * (piano)

 

 
      
«Schubertíada», pintura de Julius Schmid datada de 1896 | Fonte: Wikimedia Commons
 

Às reuniões de convivência que ocorriam no círculo de relações sociais de Franz Schubert, chamamos «Schubertíadas». Estes eventos, patrocinados por personalidades que amparavam financeiramente o músico, tornaram-se numa verdadeira instituição na década de 1820, estendendo-se então a vários salões da cidade de Viena. Um dos principais motivos de interesse seriam, naturalmente, as canções, as obras de câmara e as peças para piano solo do compositor austríaco. Mas havia muito mais.

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Antonio Vivaldi | Desenho de Pier Leone (1723) | Fonte BnF Gallica
 
Antonio Vivaldi assinou mais de cinquenta composições para orquestra de cordas, com quatro partes instrumentais, sem solista. Por vezes aparecem designadas como Sinfonias, outras como Concerto ripieno, e até como Concerti a quattro. São, afinal, Concertos ou Sinfonias? Na primeira metade do século XVIII as sinfonias tendiam a ser tecnicamente menos complexas, assemelhando-se às aberturas de ópera. É disso exemplo a Sinfonia em Dó Maior RV 112, composta cerca de 1720.

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Pormenor da pintura «O baloiço», de Jean-Honoré Fragonard (1767) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Tal como a música, também as palavras se transformam no tempo. Por isso, quando se trata de ouvir aqueles concertos que Antonio Vivaldi reuniu no seu Op. 4, é importante termos presente que o termo «extravagância», deste modo reportado às primeiras décadas do século XVIII, não tinha a significação que lhe conhecemos hoje. São doze concertos para violino e orquestra reunidos numa publicação intitulada «La Stravaganza» e que surpreendem pelos contrastes abruptos entre melodias afáveis e momentos de virtuosismo desenfreado.

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