Música de Sonhar

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Música de Sonhar




Música de Sonhar

O barítono Johann Vogl, intérprete dileto das canções de Franz Schubert. Litografia de Josef Kriehuber (1830) | Fonte: Wikimedia Commons

 

A repetição melódica é um dos aspetos que, a respeito da música instrumental de Franz Schubert, são mais frequentemente criticados por aqueles que preferem a robustez formal no repertório oitocentista. É evidente, todavia, que não se trata aqui de uma limitação técnica ou criativa que resulta em redundância. Em vez disso, devemos realçar duas outras características que distinguem o estilo musical do compositor. A mais evidente é o dom melódico que todos contagia. A segundo é a importância do uso da Variação, enquanto procedimento. O segundo andamento do Quarteto de Cordas A Morte e a Donzela e o quarto do Quinteto com Piano A Truta são exemplos emblemáticos disso mesmo.

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W. A. Mozart em 1789 | Desenho de Doris Stock | Fonte: Wikimedia Commons

 

Wolfgang Amadeus Mozart compôs quarenta e uma sinfonias. As últimas três foram escritas em Viena no verão de 1788, num período de tempo considerado tremendamente curto, face à qualidade artística e à importância histórica que lhes é hoje reconhecida. Cada uma delas tem uma identidade própria, sendo a N.º 39 a mais discreta. Talvez por isso seja a menos conhecida do grande público. Ainda assim, e apesar de não ostentar a mesma liberalidade expressiva, está longe de se resumir à condição de prólogo numa trilogia prodigiosa.

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Beethoven em 1819 segurando na sua mão a partitura da Missa Solemnis | Pintura Joseph Karl Stieler | Fonte: Wikimedia Commons
 
No domínio musical, uma das mais importantes transformações que houve nos séculos XVII e XVIII foi a emancipação da escrita instrumental, contra o predomínio da Palavra. O legado de Ludwig van Beethoven é corolário disso mesmo. E é também aí que a argumentação da autonomia e suprema singularidade da Arte dos Sons acha fundamentos categóricos. Estranha-se, por isso, a motivação que levou o músico a dedicar cinco anos do seu tempo, já em final de carreira, à composição de um vitral de estilos apenso num texto religioso, a colossal Missa Solemnis.

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Franz Schubert em 1821 | Pormenor de um desenho de Leopold Kupelwieser | Fonte: BnF Gallica
 

MÚSICA DE SONHAR

 

Há algo na música de câmara de Franz Schubert que convida a sonhar. Por vezes, são sonhos turbulentos, deambulações difusas nas margens do inconsciente, vagas de estranheza que sugerem pesadelos. Noutras, paira a despreocupação, o devaneio. Em qualquer dos casos, seja a afetação expressiva ou essa aparente diletância, certo é que o compositor austríaco nunca foi um estratego do calibre de L. v. Beethoven. Schubert buscava diferentes encantos, como o comprovam o Trio com Piano D. 898 e o Quinteto de Cordas D. 956, ambos compostos em 1828, nos derradeiros meses da sua vida.
 
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    Franz Schubert assinou dois Trios com Piano. Curiosamente, aquele que conhecemos como N.º 2 foi composto primeiro, no final de 1827. O N.º 1, na tonalidade de Si Bemol Maior, foi descrito pelo próprio como a contraparte feminina do conjunto. Tem uma duração aproximada de quarenta minutos e foi pela primeira vez tocado, precisamente, numa schubertíada realizada em casa do nobre e mecenas Joseph Ritter von Spaun, numa ocasião em que este celebrava o seu noivado. O encontro aconteceu em janeiro de 1828, dez meses antes da morte de Schubert. Estaria presente cerca de meia centena de convivas. Muitos deles seguiram depois para o Café Bogner, onde permaneceram até às 2h30 da madrugada. Não espanta, por isso, o ambiente descontraído e de camaradagem que esta partitura proporciona. Distingue-se por uma espontaneidade contagiante na qual sobressaem melodias que se repetem em diferentes tonalidades. O registo lúgubre do andamento lento original, postumamente publicado como Noturno D. 897, foi preterido em favor da generosidade lírica do segundo andamento que hoje lhe conhecemos.

 

    Já o Quinteto de Cordas D. 956, foi escrito no verão seguinte e contrasta bastante. São quatro andamentos plenos de pujança, pouco menos de uma hora de música que suspende a respiração. As variações dinâmicas são arrebatadoras, entre passagens contundentes e outras etéreas, com mudanças ora bruscas ora de progressão lenta. A inventividade melódica discorre fácil, explorando sempre a identidade tímbrica de cada um dos instrumentos. A presença de dois violoncelos é, por sinal, uma das características que mais se destaca neste quinteto. Estes apresentam-se de maneira invulgarmente versátil, sem se limitarem a uma sustentação harmónica. Ao longo dos quatro andamentos, assiste-se a uma sequência de situações sem relação aparente e, por isso, carregadas de mistério. É uma verdadeira obra-prima.

 
Solistas da Metropolitana & DSCH-Schostakovich Ensemble
 

F. Schubert Trio com Piano N.º 1, D. 898 (1)
F. Schubert Quinteto de Cordas, D. 956 (2)

 

Sábado, 6 de abril de 2019, Teatro Thalia 

F. Schubert Quarteto de Cordas N.º 14, D. 810, A Morte e a Donzela (3)
F. Schubert Quinteto com Piano, D. 667, A Truta (4)

 

(1) Trio com Piano: Ana Pereira (violino), Adrian Brendel * (violoncelo), Filipe Pinto-Ribeiro * (piano)
(2) Quinteto de Cordas: Corey Cerovsek *, Ana Pereira (violinos), Joana Cipriano (viola), Adrian Brendel *, Ana Cláudia Serrão (violoncelos)

(3) Quarteto de Cordas: Corey Cerovsek *, José Teixeira (violinos), Joana Cipriano (viola), Ana Cláudia Serrão (violoncelo)
(4) Quinteto com Piano: Corey Cerovsek * (violino), Joana Cipriano (viola), Adrian Brendel * (violoncelo), Vladimir Kouznetsov (contrabaixo), Filipe Pinto-Ribeiro * (piano)

 

 
      
«Schubertíada», pintura de Julius Schmid datada de 1896 | Fonte: Wikimedia Commons
 

Às reuniões de convivência que ocorriam no círculo de relações sociais de Franz Schubert, chamamos «Schubertíadas». Estes eventos, patrocinados por personalidades que amparavam financeiramente o músico, tornaram-se numa verdadeira instituição na década de 1820, estendendo-se então a vários salões da cidade de Viena. Um dos principais motivos de interesse seriam, naturalmente, as canções, as obras de câmara e as peças para piano solo do compositor austríaco. Mas havia muito mais.

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Dmitri Schostakovich em 1976 | Pintura de Tahir Salahov | Fonte: WIkiart
 
Há dois episódios que ilustram bem a tensão que sempre existiu entre Dmitri Schostakovich e o regime soviético. O primeiro remonta a 1936, quando uma récita da ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, assistida por Josef Estaline, resultou numa crítica feroz publicada no jornal Pravda. O segundo foi a acusação do Congresso Nacional de Compositores que, em 1948, denunciou a sua música como formalista e adversa aos desígnios da Revolução. A Sinfonia N.º 10 foi composta em 1953, logo após a morte do «Grande Líder», pelo que foi sempre associada a esse acontecimento. Porém, mais recentemente, soube-se que a composição do 3.º andamento poderá ter sido inspirada na paixão por uma mulher. Multiplicam-se, deste modo, os enigmas que povoam o legado do músico russo.

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Pormenor da pintura «O baloiço», de Jean-Honoré Fragonard (1767) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Tal como a música, também as palavras se transformam no tempo. Por isso, quando se trata de ouvir aqueles concertos que Antonio Vivaldi reuniu no seu Op. 4, é importante termos presente que o termo «extravagância», deste modo reportado às primeiras décadas do século XVIII, não tinha a significação que lhe conhecemos hoje. São doze concertos para violino e orquestra reunidos numa publicação intitulada «La Stravaganza» e que surpreendem pelos contrastes abruptos entre melodias afáveis e momentos de virtuosismo desenfreado.

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