Schubertíadas

facebook Instagram Youtube

Musicália

Schubertíadas




Schubertíadas

Franz Schubert em 1821 | Pormenor de um desenho de Leopold Kupelwieser | Fonte: BnF Gallica

 

Há algo na música de câmara de F. Schubert que convida a sonhar. Por vezes, são sonhos turbulentos, deambulações difusas nas margens do inconsciente, vagas de estranheza que sugerem pesadelos. Noutras, paira a despreocupação, o devaneio. Em qualquer dos casos, seja a afetação expressiva ou essa aparente diletância, certo é que o compositor austríaco nunca foi um estratego do calibre de L. v. Beethoven. Schubert buscava diferentes encantos, como o comprovam o Trio com Piano D. 898 e o Quinteto de Cordas D. 956, ambos compostos em 1828, nos derradeiros meses da sua vida.

saber mais



«Cruz e Catedral na Montanha» | Pintura de Caspar David Friedrich (1812) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Missa Solemnis de Ludwig van Beethoven não é uma obra evidente. Está cheia de contrastes e mudanças abruptas, sem transições. De aparência austera, é uma partitura simultaneamente grandiosa e compenetrada, tecnicamente aparatosa e subtil. Curiosamente, é na relação entre música e texto que se descobre um dos seus principais fascínios. Em cada compasso, o ouvinte é convidado a acompanhar uma leitura, a apreciar a expressão e o sentido das palavras como num desfile de esculturas sonoras.

saber mais


  
«Schubertíada», pintura de Julius Schmid datada de 1896 | Fonte: Wikimedia Commons
 

SCHUBERTÍADAS

 

Às reuniões de convivência que ocorriam no círculo de relações sociais de Franz Schubert, chamamos «Schubertíadas». Estes eventos, patrocinados por personalidades que amparavam financeiramente o músico, tornaram-se numa verdadeira instituição na década de 1820, estendendo-se então a vários salões da cidade de Viena. Um dos principais motivos de interesse seriam, naturalmente, as canções, as obras de câmara e as peças para piano solo do compositor austríaco. Mas havia muito mais.
 
 **
 
    A projeção pública da figura de Franz Schubert, em seu tempo de vida, desenvolvia-se na esfera privada. Não era conhecido, portanto, das multidões que enchiam os teatros de ópera italiana em Viena. Mas também não se limitava a um círculo restrito de amigos, como por vezes se crê. A sua música tinha ampla aceitação em muitos salões requintados da cidade. Em particular, os saraus onde o músico interpretava canções e peças de câmara para amigos e convidados eram bastante populares, contribuindo substancialmente para a promoção da sua fama. Estes encontros tinham lugar em casas de famílias abastadas – com destaque para apelidos como Spaun, Sonnleithner e Schober – e eram, curiosamente, interditados pelas autoridades com grande frequência. Com efeito, o regime repressivo que se instalou no Império Austríaco após as Guerras Napoleónicas tinha dado origem a práticas de convivência reservadas em que, à dança, aos jogos sociais, à poesia e à música, se juntava o debate político. A música de Schubert seria, ainda assim, o coração desses encontros ilustrados, os quais, uma vez terminados, transportavam as suas discussões para os cafés da cidade, onde se bebia e cantava pela noite dentro.
 
Solistas da Metropolitana & DSCH-Schostakovich Ensemble
 

F. Schubert Trio com Piano N.º 1, D. 898 (1)
F. Schubert Quinteto de Cordas, D. 956 (2)

 

Sábado, 6 de abril de 2019, Teatro Thalia 

F. Schubert Quarteto de Cordas N.º 14, D. 810, A Morte e a Donzela (3)
F. Schubert Quinteto com Piano, D. 667, A Truta (4)

 

(1) Trio com Piano: Ana Pereira (violino), Adrian Brendel * (violoncelo), Filipe Pinto-Ribeiro * (piano)
(2) Quinteto de Cordas: Corey Cerovsek *, Ana Pereira (violinos), Joana Cipriano (viola), Adrian Brendel *, Ana Cláudia Serrão (violoncelos)

(3) Quarteto de Cordas: Corey Cerovsek *, José Teixeira (violinos), Joana Cipriano (viola), Ana Cláudia Serrão (violoncelo)
(4) Quinteto com Piano: Corey Cerovsek * (violino), Joana Cipriano (viola), Adrian Brendel * (violoncelo), Vladimir Kouznetsov (contrabaixo), Filipe Pinto-Ribeiro * (piano)

 

 
      

O barítono Johann Vogl, intérprete dileto das canções de Franz Schubert. Litografia de Josef Kriehuber (1830) | Fonte: Wikimedia Commons

 

A repetição melódica é um dos aspetos que, a respeito da música instrumental de Franz Schubert, são mais frequentemente criticados por aqueles que preferem a robustez formal no repertório oitocentista. É evidente, todavia, que não se trata aqui de uma limitação técnica ou criativa que resulta em redundância. Em vez disso, devemos realçar duas outras características que distinguem o estilo musical do compositor. A mais evidente é o dom melódico que todos contagia. A segundo é a importância do uso da Variação, enquanto procedimento. O segundo andamento do Quarteto de Cordas A Morte e a Donzela e o quarto do Quinteto com Piano A Truta são exemplos emblemáticos disso mesmo.

saber mais



Dmitri Schostakovich em 1976 | Pintura de Tahir Salahov | Fonte: WIkiart
 
Há dois episódios que ilustram bem a tensão que sempre existiu entre Dmitri Schostakovich e o regime soviético. O primeiro remonta a 1936, quando uma récita da ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, assistida por Josef Estaline, resultou numa crítica feroz publicada no jornal Pravda. O segundo foi a acusação do Congresso Nacional de Compositores que, em 1948, denunciou a sua música como formalista e adversa aos desígnios da Revolução. A Sinfonia N.º 10 foi composta em 1953, logo após a morte do «Grande Líder», pelo que foi sempre associada a esse acontecimento. Porém, mais recentemente, soube-se que a composição do 3.º andamento poderá ter sido inspirada na paixão por uma mulher. Multiplicam-se, deste modo, os enigmas que povoam o legado do músico russo.

saber mais