A Sinfonia N.º 39 de Mozart

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Musicália

A Sinfonia N.º 39 de Mozart




A Sinfonia N.º 39 de Mozart
Pormenor da pintura «O baloiço», de Jean-Honoré Fragonard (1767) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Tal como a música, também as palavras se transformam no tempo. Por isso, quando se trata de ouvir aqueles concertos que Antonio Vivaldi reuniu no seu Op. 4, é importante termos presente que o termo «extravagância», deste modo reportado às primeiras décadas do século XVIII, não tinha a significação que lhe conhecemos hoje. São doze concertos para violino e orquestra reunidos numa publicação intitulada «La Stravaganza» e que surpreendem pelos contrastes abruptos entre melodias afáveis e momentos de virtuosismo desenfreado.

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Gravação da Ária da Suíte N.º 3 publicada no Canal Youtube pelo agrupamento Voices of Music

 

Na Suíte Orquestral N.º 3 de Johann Sebastian Bach (BWV 1068) predominam as sonoridades opulentas que todos associamos aos estilo barroco francês. Destaca-se, no entanto, a serena beleza do segundo andamento que, num registo contrastante, tornou-se numa das páginas mais célebres do compositor. É a «Ária na Corda Sol».

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Franz Schubert em 1821 | Pormenor de um desenho de Leopold Kupelwieser | Fonte: BnF Gallica

 

Há algo na música de câmara de F. Schubert que convida a sonhar. Por vezes, são sonhos turbulentos, deambulações difusas nas margens do inconsciente, vagas de estranheza que sugerem pesadelos. Noutras, paira a despreocupação, o devaneio. Em qualquer dos casos, seja a afetação expressiva ou essa aparente diletância, certo é que o compositor austríaco nunca foi um estratego do calibre de L. v. Beethoven. Schubert buscava diferentes encantos, como o comprovam o Trio com Piano D. 898 e o Quinteto de Cordas D. 956, ambos compostos em 1828, nos derradeiros meses da sua vida.

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W. A. Mozart em 1789 | Desenho de Doris Stock | Fonte: Wikimedia Commons
 

A SINFONIA N.º 39 DE MOZART

 

Wolfgang Amadeus Mozart compôs quarenta e uma sinfonias. As últimas três foram escritas em Viena no verão de 1788, num período de tempo considerado tremendamente curto, face à qualidade artística e à importância histórica que lhes é hoje reconhecida. Cada uma delas tem uma identidade própria, sendo a N.º 39 a mais discreta. Talvez por isso seja a menos conhecida do grande público. Ainda assim, e apesar de não ostentar a mesma liberalidade expressiva, está longe de se resumir à condição de prólogo numa trilogia prodigiosa.
 
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    1788 foi um dos anos mais difíceis da vida de Mozart, repleto de problemas financeiros e familiares. Aparentemente, a sua música tornara-se demasiado complexa para satisfazer o entretenimento mundano que a cidade de Viena passou a preferir em poucos anos. Teve assim início um período de progressiva decadência pessoal, o qual se estendeu ao longo de mais de três anos e culminou na sua morte. Paradoxalmente, tal decadência teve repercussões inversas no que respeita à produção artística. Isso enjeita quaisquer tentativas de estabelecer um nexo programático entre os episódios da vida do homem e o imaginário criativo do músico. Com efeito, a Sinfonia N.º 39 foi composta no preciso momento em que a acumulação de dívidas se começava agudizar, mas nem por isso transparece tais preocupações. Apesar de não ser desprovida de intensidade dramática, é a mais lírica das derradeiras sinfonias. Esta disparidade assegura-nos que o compositor não a terá composto para recreação própria, apesar de não haver notícia de qualquer encomenda. Teria em mente a obtenção de um retorno financeiro imediato, fosse através da publicação ou, mais provavelmente, de uma série de concertos públicos por subscrição, em seu benefício. Esses concertos nunca terão acontecido. Tão pouco sabemos se alguma vez ouviu a obra ser tocada.

 

    Apesar da discrição atrás referida, há vários aspetos que despontam um deslumbramento notável. Um deles é a tensão que se acumula gradualmente ao longo do primeiro andamento, sem sacrifício de um fio condutor que garante a coerência do discurso musical. Com acordes imponentes e ritmos sincopados, a introdução sugere um registo solene, vagamente evocativo da abertura da ópera Don Giovanni. Desemboca depois numa Forma Sonata que, simultaneamente, reflete a transparência e a elegância tipicamente mozartianas e a densidade expressiva característica da sua última fase.

 

    Destaca-se ainda uma segunda característica que resulta impressionante nesta sinfonia. Designadamente a Orquestração, a maneira como se combinam as diferentes famílias de instrumentos ao longo dos quatro andamentos. Os instrumentos de sopro são utilizados de maneira particularmente inovadora, em permanente diálogo entre si mesmos e com os instrumentos de cordas. Curiosamente, o compositor dispensou a utilização de oboés, o que era pouco usual na época, numa altura em que os clarinetes ainda estavam a afirmar-se no seio da orquestra. Já no segundo andamento, podemos ouvir intervenções cirúrgicas da flauta, dos clarinetes e dos fagotes. A jovialidade contagiante do Minueto seguinte é interrompida por um Trio particularmente contrastante, onde uma vez mais são protagonistas os sopros, as madeiras e as trompas. A sinfonia remata com um Finale em Forma Rondó cheio de humor, pela maneira obstinada como se enreda em torno de um tema musical único.

 
Orquestra Metropolitana de Lisboa
Violino e Direção Musical: Enrico Onofri
 
Wolfgang Amadeus Mozart – Sinfonia N.º 39, KV 543
 
 

Domingo, 31 de março de 2019, Igreja de Nossa Senhora da Consolação do Castelo, Sesimbra
   

 

 
      
Antonio Vivaldi | Desenho de Pier Leone (1723) | Fonte BnF Gallica
 
Antonio Vivaldi assinou mais de cinquenta composições para orquestra de cordas, com quatro partes instrumentais, sem solista. Por vezes aparecem designadas como Sinfonias, outras como Concerto ripieno, e até como Concerti a quattro. São, afinal, Concertos ou Sinfonias? Na primeira metade do século XVIII as sinfonias tendiam a ser tecnicamente menos complexas, assemelhando-se às aberturas de ópera. É disso exemplo a Sinfonia em Dó Maior RV 112, composta cerca de 1720.

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Rachmaninov em 1925 | Pintura de Konstantin Somov | Fonte: Wikimedia Commons
 
O pianista e compositor Sergei Rachmaninov foi uma figura paradoxal no panorama musical do seu tempo. Por um lado, a sua música está impregnada de romantismo oitocentista e de uma Rússia bucólica que nunca revisitou depois da Revolução. Por outro, a carreira de concertista e a condição de exilado fizeram de si um cidadão do mundo, aficionado do automobilismo e dos barcos a motor. O seu quarto e último concerto para piano foi das poucas composições de concluiu após 1917. Muito embora «soe a Rachmaninov», de princípio ao fim, respira bastante na azáfama nova-iorquina dos anos 1920.

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«Schubertíada», pintura de Julius Schmid datada de 1896 | Fonte: Wikimedia Commons
 

Às reuniões de convivência que ocorriam no círculo de relações sociais de Franz Schubert, chamamos «Schubertíadas». Estes eventos, patrocinados por personalidades que amparavam financeiramente o músico, tornaram-se numa verdadeira instituição na década de 1820, estendendo-se então a vários salões da cidade de Viena. Um dos principais motivos de interesse seriam, naturalmente, as canções, as obras de câmara e as peças para piano solo do compositor austríaco. Mas havia muito mais.

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