Extravagâncias

facebook Instagram Youtube

Musicália

Extravagâncias




Extravagâncias

W. A. Mozart em 1789 | Desenho de Doris Stock | Fonte: Wikimedia Commons

 

Wolfgang Amadeus Mozart compôs quarenta e uma sinfonias. As últimas três foram escritas em Viena no verão de 1788, num período de tempo considerado tremendamente curto, face à qualidade artística e à importância histórica que lhes é hoje reconhecida. Cada uma delas tem uma identidade própria, sendo a N.º 39 a mais discreta. Talvez por isso seja a menos conhecida do grande público. Ainda assim, e apesar de não ostentar a mesma liberalidade expressiva, está longe de se resumir à condição de prólogo numa trilogia prodigiosa.

saber mais



«Schubertíada», pintura de Julius Schmid datada de 1896 | Fonte: Wikimedia Commons
 

Às reuniões de convivência que ocorriam no círculo de relações sociais de Franz Schubert, chamamos «Schubertíadas». Estes eventos, patrocinados por personalidades que amparavam financeiramente o músico, tornaram-se numa verdadeira instituição na década de 1820, estendendo-se então a vários salões da cidade de Viena. Um dos principais motivos de interesse seriam, naturalmente, as canções, as obras de câmara e as peças para piano solo do compositor austríaco. Mas havia muito mais.

saber mais


  
Pormenor da pintura «O baloiço», de Jean-Honoré Fragonard (1767) | Fonte: Wikimedia Commons
 

EXTRAVAGÂNCIAS

 

Tal como a música, também as palavras se transformam no tempo. Por isso, quando se trata de ouvir aqueles concertos que Antonio Vivaldi reuniu no seu Op. 4, é importante termos presente que o termo «extravagância», deste modo reportado às primeiras décadas do século XVIII, não tinha a significação que lhe conhecemos hoje. São doze concertos para violino e orquestra reunidos numa publicação intitulada «La Stravaganza» e que surpreendem pelos contrastes abruptos entre melodias afáveis e momentos de virtuosismo desenfreado.
 
 **
 
    Ser extravagante, no início do século XVIII, poderia ser uma qualidade de apreço, designadamente tratando-se da bizarria das artes, enquanto universo distinto das excessivas regras de etiqueta que eram então impostas socialmente. Porém, quando em excesso, caía de imediato no mau gosto e na inconveniência. Tais críticas foram bastantes vezes endereçadas ao modo de tocar do músico veneziano, assim como às suas composições. Assim aconteceu no caso da coleção de concertos La Stravaganza. Muitos melómanos preferiam o equilíbrio e a elegância, na vez de efeitos instrumentais aparatosos primeiramente destinados a pasmar o ouvinte. Entretanto, passados três séculos, imersos agora no aparato do nosso mundo, os escrúpulos são bem diferentes, e podemos apreciar a música de outra maneira. Ainda assim, há algo que permanece inalterável. Não deixamos de nos impressionar diante da espetacularidade performativa que Vivaldi explorava intencionalmente nestas obras. Em 1711, tinha publicado um primeiro caderno de concertos que intitulou L’Estro Armonico (A inspiração harmónica). Apesar do sucesso, os recursos técnicos que esse Op. 3 requeria limitavam a sua aceitação em contextos participados por músicos amadores. O caderno Op. 4, La Stravaganza, colmatou essa lacuna. Era um conjunto de concertos para violino solo e orquestra de cordas, sem mais.
 
Orquestra Metropolitana de Lisboa
Violino e Direção Musical: Enrico Onofri

Antonio Vivaldi – Concerto para Violino em Lá Menor, RV 357, Op. 4/4, La Stravaganza
 
 

Domingo, 31 de março de 2019, Igreja de Nossa Senhora da Consolação do Castelo, Sesimbra
   

 

 
      
Antonio Vivaldi | Desenho de Pier Leone (1723) | Fonte BnF Gallica
 
Antonio Vivaldi assinou mais de cinquenta composições para orquestra de cordas, com quatro partes instrumentais, sem solista. Por vezes aparecem designadas como Sinfonias, outras como Concerto ripieno, e até como Concerti a quattro. São, afinal, Concertos ou Sinfonias? Na primeira metade do século XVIII as sinfonias tendiam a ser tecnicamente menos complexas, assemelhando-se às aberturas de ópera. É disso exemplo a Sinfonia em Dó Maior RV 112, composta cerca de 1720.

saber mais



Dmitri Schostakovich em 1976 | Pintura de Tahir Salahov | Fonte: WIkiart
 
Há dois episódios que ilustram bem a tensão que sempre existiu entre Dmitri Schostakovich e o regime soviético. O primeiro remonta a 1936, quando uma récita da ópera Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, assistida por Josef Estaline, resultou numa crítica feroz publicada no jornal Pravda. O segundo foi a acusação do Congresso Nacional de Compositores que, em 1948, denunciou a sua música como formalista e adversa aos desígnios da Revolução. A Sinfonia N.º 10 foi composta em 1953, logo após a morte do «Grande Líder», pelo que foi sempre associada a esse acontecimento. Porém, mais recentemente, soube-se que a composição do 3.º andamento poderá ter sido inspirada na paixão por uma mulher. Multiplicam-se, deste modo, os enigmas que povoam o legado do músico russo.

saber mais