A Pastoral de Dvořák

facebook Instagram Youtube

Musicália

A Pastoral de Dvořák




A Pastoral de Dvořák
Ilustração de uma cena do 4.º ato de Macbeth | Pintura de Henry Fuseli (1793) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Na segunda metade da carreira, Richard Strauss viu a sua reputação ser associada a um romantismo ultrapassado e decadente. Mas antes disso, tinha-se distinguido com um estilo de escrita orquestral vigoroso e dilacerante, inspirado em compositores como Wagner e Liszt, nos domínios da Ópera e do Poema Sinfónico. Neste último género, Macbeth foi ponto de partida. Composto entre 1886 e 1888, pode entender-se como manifesto de emancipação relativamente à tradição mais conservadora do século XIX.

saber mais



O compositor Beat Furrer | Foto de David Furrer (2014)

 
 
As ideias apresentam-se muitas vezes por intermédio do recurso às imagens. Uma vez aí chegados, essa abstração visual pode transcender a uma dimensão sonora absolutamente indizível. Parece ter sido esse passo além que Beat Furrer, compositor suíço radicado na Áustria há longos anos, deu na obra intitulada «Nero su Nero» («Preto Sobre Preto»), a qual fez estrear na Konzerthaus de Viena em junho do ano passado. Trata-se de uma partitura orquestral que se aventura por entre as ténues gradações da cor preta, com um estilo de escrita mergulhado em sugestões de movimento difusas, delicado e eminentemente sensorial.

saber mais



O pesadelo | Pintura de Johann Heinrich Füssli, 1781 | Fonte: Wikimedia Commons
 
No âmbito das artes, a racionalidade e ponderação do Iluminismo setecentista foi subitamente perturbada pelo movimento estético que se denominou «Sturm und Drang». O individualismo, a inquietação, as emoções, a dúvida, a ambiguidade, a liberdade… A expressão destas ideias por intermédio da música revelou-se como um desafio fascinante para várias gerações de músicos, começando por Johann Christian, Haydn e Mozart. Foi percursora da afetação romântica do século seguinte.

saber mais

 
Paisagem com ribeiro, pintura de Zdenka Braunerová (1858–1934) | Fonte: Wikimedia Commons
 
A PASTORAL DE DVOŘÁK
 
As sonoridades rústicas da Sinfonia N.º 8 de Dvořák assentam em intervenções instrumentais características, padrões rítmicos simples e dançáveis, uma fluência melódica invulgar e uma disposição bem humorada que não disfarça a utilização de recursos eminentemente teatrais. Esta aparência espontânea distingue-se do rigor formal da sinfonia anterior, dando azo a comparações com o pendor bucólico da segunda sinfonia de Brahms e da quarta de Mahler. Junta-se aqui Beethoven ao cenário, e poderíamos chamar-lhe a Sinfonia Pastoral do músico checo.
 
**
 

    A Sinfonia N.º 8 de Antonín Dvořák foi composta entre agosto e novembro de 1889, e estreada no mês de fevereiro seguinte na cidade de Praga. Nessa época apresentava-se como a quarta sinfonia, já que aquelas que são, efetivamente, as suas primeiras quatro sinfonias só foram publicadas postumamente, já na década de 1950. Curiosamente, também foi conhecida durante muitos anos como «Sinfonia Inglesa». Isto porque, em 1891, Dvořák apresentou a mesma partitura no âmbito do processo que lhe valeu a atribuição do Doutoramento pela Universidade de Cambridge – lembremo-nos que foi, em parte, o prestígio conquistado em Inglaterra que catapultou a sua carreira. Ainda assim, este último episódio em nada se reflete no que se ouve. É bastante mais evidente a influência da cultura boémia, emanação das paisagens idílicas de Vysoká, o refúgio onde teve origem esta e tantas outras obras do compositor.

 

    Trata-se de uma das suas sinfonias mais populares, obviamente precedida pela Sinfonia Do Novo Mundo. Porém, apesar da predileção do público, foi alvo de opiniões especializadas bastante críticas, as quais a relegaram para um segundo plano de valor, considerando-a rapsódica, por vezes vagueante. Com efeito, é uma obra que se distancia do legado mais conservador de Brahms, o que não acontece com o Quarteto com Piano N.º 2, composto imediatamente antes. Tal poderia justificar-se por um momento de maior «descontração criativa», mas também há quem alegue a demarcação do sinfonismo germânico, por razões nacionalistas. E até mesmo a influência de Tchaikovsky, cuja 5.ª Sinfonia Dvořák ouviu em Praga em novembro de 1888, estudando-a minuciosamente nos meses seguintes. A possibilidade de uma digressão pela Rússia poderá ter condicionado substancialmente a sua nova composição.

 

    Resulta evidente que Dvořák pretendia enveredar por um rumo diferente daquele seguido nas sinfonias anteriores. E assim aconteceu, dando primazia à intuição criativa e à obtenção de efeitos expressivos, com relativo sacrifício dos padrões formais instituídos. Garantiu, todavia, uma unidade orgânica na obra baseando-se na célula melódica de três notas que se ouve de início, e da qual germina grande parte das melodias que se estendem ao longo dos quatro andamentos. O primeiro surpreende pela justaposição de temas que desembocam num clímax aparatoso. No segundo andamento voltam a reunir-se elementos dispersos num conjunto coerente, ora com protagonismo dos sopros ora das cordas, ora sombrio ora afável, mas sempre com melodias de efeito encantatório que são, a dada altura, interrompidas por uma fanfarra exuberante. O terceiro andamento, Allegretto grazioso, assemelha-se a uma valsa de cariz eslavo, com uma secção lenta pelo meio onde Dvořák recupera uma ária da ópera cómica «Os amantes teimosos» que estreara em 1881. Por fim, o último andamento irrompe com mais uma fanfarra, e prossegue na forma de variações sobre a melodia prontamente apresentada pelos violoncelos.

 

 

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa

Solista: Elisabete Matos (soprano)

Maestro: Kristjan Järvi

 

R. Strauss Macbeth, Op. 23

R. Strauss Vier letzte Lieder, Op. posth.

A. Dvořák Sinfonia N.º 8, Op. 88

 
 
 
 
Pôr-do-sol | Fonte: www.pxhere.com
 
Richard Strauss compôs mais de duzentas. Ao fim das «Quatro Últimas Canções» conseguiu um silêncio e uma serenidade de encher o peito. Foi em 1948, aos 84 anos de idade, que completou este breve ciclo temático onde enfrentou com despudor o assunto da Morte, evocando-a na sua expressão mais sublime, como estágio da existência propício a uma reflexão contemplativa sobre a própria Vida. A entoação dolente da voz soprano deseja com ardor o retorno da primavera. Projeta a fadiga e o descanso na descrição de um jardim outonal. Mergulha num sono eterno e livre, diante de um céu que escurece. Diz adeus às cotovias e ao perfume do ar, numa paz profunda e tranquila.

saber mais



O compositor Pedro Amaral | Foto de João Francisco Vilhena (2018)
 
Por encomenda da Casa da Música, Pedro Amaral fez estrear em março de 2013 a obra Deux Portraits Imaginaires, na interpretação do Remix Ensemble. Com origem no projeto de uma ópera baseada no imaginário poético de Fernando Pessoa, derivou numa partitura para ensemble orquestral com piano. Aí, as figuras de Fausto e Maria são postas em diálogo por intermédio de texturas sonoras diversas que alternam solos instrumentais eloquentes com malhas sonoras lacerantes, mas sempre ostentando a essência dramática de onde provêm. O compositor apresentou este seu trabalho nos seguintes termos.

saber mais



 
A canção «Das himmlische Leben» («A vida celestial») preenche o último andamento da 4.ª Sinfonia de Mahler. É ponto de partida e ponto de chegada, a «razão de ser» daquela obra.

saber mais



O barítono Francisco d'Andrade do papel de Don Giovanni | Pintura de Max Slevogt (1912) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Il dissoluto punito é o título alternativo da ópera Don Giovanni de W. A. Mozart e traduz-se como «O libertino punido». Trata-se da segunda das colaborações do compositor com o libretista italiano Lorenzo da Ponte – ao lado Le nozze di Figaro e Così fan tutte –, e divide-se em dois atos na narração da história dessa figura lendária da literatura. Apesar da sua conduta pérfida, Don Juan reflete as ambiguidades da condição humana. Enfrenta o Céu e o Inferno com sacrifício da própria vida, mantendo-se fiel aos seus princípios e ideais.

saber mais