As Últimas Canções

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Musicália

As Últimas Canções




As Últimas Canções
Ilustração de uma cena do 4.º ato de Macbeth | Pintura de Henry Fuseli (1793) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Na segunda metade da carreira, Richard Strauss viu a sua reputação ser associada a um romantismo ultrapassado e decadente. Mas antes disso, tinha-se distinguido com um estilo de escrita orquestral vigoroso e dilacerante, inspirado em compositores como Wagner e Liszt, nos domínios da Ópera e do Poema Sinfónico. Neste último género, Macbeth foi ponto de partida. Composto entre 1886 e 1888, pode entender-se como manifesto de emancipação relativamente à tradição mais conservadora do século XIX.

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O compositor Pedro Amaral | Foto de João Francisco Vilhena (2018)
 
Por encomenda da Casa da Música, Pedro Amaral fez estrear em março de 2013 a obra Deux Portraits Imaginaires, na interpretação do Remix Ensemble. Com origem no projeto de uma ópera baseada no imaginário poético de Fernando Pessoa, derivou numa partitura para ensemble orquestral com piano. Aí, as figuras de Fausto e Maria são postas em diálogo por intermédio de texturas sonoras diversas que alternam solos instrumentais eloquentes com malhas sonoras lacerantes, mas sempre ostentando a essência dramática de onde provêm. O compositor apresentou este seu trabalho nos seguintes termos.

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Johann Christian Bach em 1776 | Pintura de Thomas Gainsborough | Fonte: Wikimedia Commons
 
Apesar da unanimidade que hoje existe em torno do nome de Johann Sebastian Bach, entre os músicos da família Bach, foi o seu filho Johann Christian quem teve maior reconhecimento em tempo de vida. A sua obra testemunha a transição que, em matéria de música, conduziu o Estilo Barroco Tardio, coroado por figuras como seu pai e Vivaldi, ao Classicismo vienense. Para lá da afinidade entre as sinfonias de J. C. Bach e as primeiras de Mozart, o ímpeto expressivo que se reconhece em obras como a última sinfonia do caderno Op. 6 projeta-se nas sinfonias de maior fôlego do músico de Salzburgo, tais como a N.º 25, celebrizada em 1984 no filme de Miloš Forman.

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Pôr-do-sol | Fonte: www.pxhere.com
 
AS ÚLTIMAS CANÇÕES
 
Richard Strauss compôs mais de duzentas. Ao fim das «Quatro Últimas Canções» conseguiu um silêncio e uma serenidade de encher o peito. Foi em 1948, aos 84 anos de idade, que completou este breve ciclo temático onde enfrentou com despudor o assunto da Morte, evocando-a na sua expressão mais sublime, como estágio da existência propício a uma reflexão contemplativa sobre a própria Vida. A entoação dolente da voz soprano deseja com ardor o retorno da primavera. Projeta a fadiga e o descanso na descrição de um jardim outonal. Mergulha num sono eterno e livre, diante de um céu que escurece. Diz adeus às cotovias e ao perfume do ar, numa paz profunda e tranquila.
 
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    Entre as inúmeras teorias que procuram explicar os propósitos da Música – entendida enquanto fenómeno transversal a todas as Culturas e Civilizações –, algumas ensaiam a sua eventual relação com uma necessidade incontornável de buscar sentido no desfecho da Morte. Seria como se a Música nos oferecesse a possibilidade de suspender por breves instantes a existência, como se guardasse um segredo que conduz ao mistério de uma passagem tão etérea e profunda quanto o Tempo consegue alcançar, como experiência de um limbo transitório revelador de universos desconhecidos. Deste modo, tem aspetos comuns às esferas da fé religiosa e das filosofias trancendentais, confortando a angústia e a ansiedade da condição mortal do Ser. Já numa abordagem absolutamente oposta, mas complementar, a condição material da partitura projeta a criação da «obra musical» numa dimensão intemporal, para lá das fronteiras mundanas, onde tem lugar o reconhecimento póstumo.

 

    Porventura, nunca saberemos com total rigor quais foram as motivações de Richard Strauss nesse seu derradeiro esforço, depois de ter assistido in loco às atrocidades da Segunda Grande Guerra e ao colapso do património cultural do seu país. Quando a guerra terminou, conotado com um estilo romântico incompatível com as vanguardas emergentes, mudou-se com sua esposa Pauline para a Suíça, aguardando também o desenvolvimento dos processos de justiça instaurados a todos os que, de uma forma ou de outra, mantiveram relações com o regime nazi. Adivinha-se o abalo de tais adversidades em final de vida. Mas também é certo que serviram de estímulo criativo.

 

    As quatro canções foram compostas entre maio e setembro de 1948, e não transmitem a impressão de uma agonia exasperada. Em vez disso, sobressai o consentimento sublime, a tranquilidade de uma existência que alcançou o consolo da plenitude. Percorrem apaziguadamente um caminho que separa a Vida da Morte. As primeiras três têm poemas do escritor alemão Hermann Hesse, que dois anos havia sido distinguido com o Prémio Nobel. As estações do ano (a primavera, o verão), a fadiga e a vontade de repouso, são alegorias indisfarçadas. Na última das canções, a primeira que foi composta, escutam-se palavras do poeta e dramaturgo prussiano Joseph von Eichendorff que nos falam de uma casal idoso que enfrenta a morte com grande serenidade. No momento em que se pergunta «Será isto talvez a morte?», o compositor recuperou um tema do poema sinfónico Morte e Transfiguração que havia composto sessenta anos antes. Deste modo, tudo convida a uma leitura autobiográfica.

 

    Richard Strauss morreu no dia 8 de setembro de 1949. Pauline Strauss-de Ahna morreu a 13 de maio do ano seguinte. As Quatro Últimas Canções foram estreadas nove dias depois, no Royal Albert Hall de Londres, com a soprano norueguesa Kirsten Flagstad e o maestro Wilhelm Furtwängler à frente da Philharmonia Orchestra.

 

 

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa

Solista: Elisabete Matos (soprano)

Maestro: Kristjan Järvi

 

R. Strauss Macbeth, Op. 23

R. Strauss Vier letzte Lieder, Op. posth.

A. Dvořák Sinfonia N.º 8, Op. 88

 
 
 
 
Paisagem com ribeiro, pintura de Zdenka Braunerová (1858–1934) | Fonte: Wikimedia Commons
 
As sonoridades rústicas da Sinfonia N.º 8 de Dvořák assentam em intervenções instrumentais características, padrões rítmicos simples e dançáveis, uma fluência melódica invulgar e uma disposição bem humorada que não disfarça a utilização de recursos eminentemente teatrais. Esta aparência espontânea distingue-se do rigor formal da sinfonia anterior, dando azo a comparações com o pendor bucólico da segunda sinfonia de Brahms e da quarta de Mahler. Junta-se aqui Beethoven ao cenário, e poderíamos chamar-lhe a Sinfonia Pastoral do músico checo.

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Gustav Mahler em 1898 / Fonte: Wikimedia Commons
 

A QUARTA DE MAHLER

A Quarta Sinfonia de Gustav Mahler anuncia o período de maturidade do compositor. Não se pode dissociá-la das sinfonias anteriores, mas distingue-se em múltiplos aspetos.

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O compositor Beat Furrer | Foto de David Furrer (2014)

 
 
As ideias apresentam-se muitas vezes por intermédio do recurso às imagens. Uma vez aí chegados, essa abstração visual pode transcender a uma dimensão sonora absolutamente indizível. Parece ter sido esse passo além que Beat Furrer, compositor suíço radicado na Áustria há longos anos, deu na obra intitulada «Nero su Nero» («Preto Sobre Preto»), a qual fez estrear na Konzerthaus de Viena em junho do ano passado. Trata-se de uma partitura orquestral que se aventura por entre as ténues gradações da cor preta, com um estilo de escrita mergulhado em sugestões de movimento difusas, delicado e eminentemente sensorial.

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