A Reinvenção de Penderecki

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Musicália

A Reinvenção de Penderecki




A Reinvenção de Penderecki
Retrato de Joseph Haydn | Pintura de Thomas Hardy (1791) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Nos primeiros compassos do último andamento da Sinfonia N.º 60 de Joseph Haydn, a orquestra para subitamente, e começa a afinar – como se os músicos se tivessem esquecido de fazê-lo antes. Este é um dos vários episódios que não disfarçam a singularidade desta Sinfonia composta no ano de 1774, em Eszterháza. Com efeito, se os tempos fossem outros ter-se-ia chamado Suíte, pois os seus andamentos correspondem a uma Abertura, quatro entreatos, e um Finale originalmente destinados a acompanhar uma comédia teatral intitulada «Il distratto».

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«Il Commendatore», Escultura de Anna Chromý colocada junto ao Teatro Nacional de Praga, onde estreou a ópera Don Giovanni, em 1787 | Fonte: Wikimedia Commons
 
Entre o drama e a comédia, Don Giovanni de W. A. Mozart é uma ópera dramaturgicamente brilhante. A personagem principal não é somente um nobre depravado que promete casamento às donzelas abandonando-as de seguida. Desafia-nos a questionar o mito do herói. Revela-se uma identidade complexa que vai ao encontro da dimensão humana e tolerante do libreto de Lorenzo Da Ponte.

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O baile | Pintura de Charles Wilda (1854–1907) | Fonte: Wikimedia Commons
 
As valsas da família Strauss são indissociáveis dos tradicionais Concertos de Ano Novo. Hoje em dia já não se realizam bailes, e as pistas de dança transformaram-se substancialmente. Ainda assim, essa mesma música que encantou os salões europeus do século XIX enfrenta o passar dos tempos e das modas sem grandes abalos, encontrando sempre oportunidade e propósitos renovados. Escuta-se agora em formato de concerto e associada a contextos festivos. A sua extraordinária criatividade rítmica e melódica, assim como a contagiante boa-disposição anímica que a distingue, explicam porque assim acontece.

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O violinista Isaac Stern em 1979  | Foto de Rob Bogaerts –  Anefo | Fonte: Wikimedia Commons


A REINVENÇÃO DE PENDERECKI

 

Ao longo da década de 1970, foram vários os compositores oriundos dos países do leste europeu que optaram por abandonar as técnicas modernistas em benefício de uma conciliação com as referências fundamentais da música de tradição romântica. A melodia e a consonância intervalar foram então resgatadas do anátema a que estavam votadas nos quadrantes artísticos mais vanguardistas. O Concerto para Violino N.º 1 de Krzysztof Penderecki foi uma das suas primeiras obras que denotou essa transição de paradigma.
 
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    O Concerto para Violino N.º 1 de Krzysztof Penderecki foi escrito em 1977 para Isaac Stern, quem estreou a obra nos primeiros dias do ano seguinte na Carnegie Hall, em Nova Iorque. Segundo o próprio compositor, a figura do lendário violinista influenciou determinantemente o seu trabalho, contribuindo em grande medida para o carácter romântico que – entre outros aspetos – sobressai no virtuosismo exacerbado da parte solista. Esta é, portanto, uma partitura fundamental para compreender o percurso criativo do músico polaco a partir dessa altura. A par da ópera Paraíso Perdido, de 1978, é normalmente apresentado como uma obra representativa de um momento de viragem, quando enveredou por um estilo neo-romântico e abandonou as sonoridades de cariz eminentemente vanguardista. Com efeito, de imediato reconhecemos nesta obra técnicas e procedimentos afins à escrita orquestral de compositores como Richard Wagner, Anton Bruckner ou César Franck. Uma das manifestações mais evidentes desta nova fase resulta da presença de um tonalismo explícito. Ainda assim, também é evidente que, apesar de o compositor recorrer a relações intervalares consagradas na harmonia tonal, não explana na sua música os encadeamentos e progressões harmónicas que seriam expectáveis num quadro de referências mais convencional. Existe uma suspensão permanente que protela indistintamente resoluções que se adivinham.

 

    Há ainda outro parâmetro que sobressai neste concerto e que remete para a música do século XIX, designadamente, a prevalência melódica. Em cada instante, é possível identificar os temas melódicos sobre os quais discorre o fluxo musical. Porém, na vez de uma imersão sonora impressiva que proporciona a contemplação estética e a afetação emotiva, assiste-se à acumulação sucessiva de ideias e motivos que remetem o ouvinte para uma dimensão cénica, como se propusesse uma articulação dramatúrgica entre os sons que intervêm. Com efeito, este primeiro concerto de Penderecki é uma obra que se ouve como quem assiste a uma peça de teatro, atendendo em cada instante a percalços e desenlaces de um enredo meticulosa trabalhado. Dispõe-se num andamento único, ainda que se divida em cinco secções que atravessam registos expressivos muito distintos. O elemento sonoro que de certa forma unifica os cerca de quarenta minutos de duração da obra espelha-se na sucessiva transformação de movimento cromáticos que entrelaçam as partes do solista e da orquestra num tecido intrigante e encantatório.

 

 

Orquestra Académica Metropolitana

Solista: José Pereira (violino)
Maestro: Pedro Neves

 

Sexta-feira, 18 de janeiro de 2019, Auditório da Reitoria da Universidade Nova de Lisboa

 

Sábado, 19 de janeiro de 2018, Fórum Municipal Luísa Todi, Setúbal

 

K. Penderecki Concerto para Violino N.º 1

J. Braga Santos Sinfonia N.º 4, À Juventude Musical Portuguesa

 

 
      
A Sinfonia N.º 4 de Joly Braga Santos foi composta em 1950 no Monte dos Perdigões, situado a cerca de 12 quilómetros do Castelo de Monsaraz | Fonte: Wikimedia Commons
 
Os anos que se seguiram à Segunda Grande Guerra Mundial coincidiram com o período em que Joly Braga Santos atingiu a maturidade artística. Foi então que, em apenas quatro anos, compôs quatro das seis sinfonias que fizeram de si o maior sinfonista português de sempre. Em particular, a Sinfonia N.º 4 foi completada aos vinte e seis anos de idade e é dedicada «À Juventude Musical Portuguesa», instituição da qual foi mentor e cofundador.

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O barítono Francisco d'Andrade do papel de Don Giovanni | Pintura de Max Slevogt (1912) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Il dissoluto punito é o título alternativo da ópera Don Giovanni de W. A. Mozart e traduz-se como «O libertino punido». Trata-se da segunda das colaborações do compositor com o libretista italiano Lorenzo da Ponte – ao lado Le nozze di Figaro e Così fan tutte –, e divide-se em dois atos na narração da história dessa figura lendária da literatura. Apesar da sua conduta pérfida, Don Juan reflete as ambiguidades da condição humana. Enfrenta o Céu e o Inferno com sacrifício da própria vida, mantendo-se fiel aos seus princípios e ideais.

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Krzysztof Penderecki em 2008 | Fonte: Wikimedia Commons
 
Nascido em 1933, Krzysztof Penderecki desenvolveu a carreira de compositor lado a lado com as profundas mudanças que vingaram na História da Música mais recente, desde as vanguardas modernistas do pós-guerra até à globalização civilizacional da atualidade. Para lá disso, a condição de protagonista destacado no panorama musical internacional, já desde o início da década 1960, acrescenta à sua obra uma grande importância. As inflexões do seu percurso ajudam a entender aspetos que o transcendem. Ainda assim, a identidade criativa do compositor polaco permaneceu incólume. Diante das notas em papel pautado, deu sempre primazia a um espírito de busca insaciável, à intensidade expressiva e emocional, a uma música com rosto humano.

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