Os Primeiros Anos de Salzburgo

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Musicália

Os Primeiros Anos de Salzburgo




Os Primeiros Anos de Salzburgo
Retrato de Joseph Haydn | Pintura de Thomas Hardy (1791) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Nos primeiros compassos do último andamento da Sinfonia N.º 60 de Joseph Haydn, a orquestra para subitamente, e começa a afinar – como se os músicos se tivessem esquecido de fazê-lo antes. Este é um dos vários episódios que não disfarçam a singularidade desta Sinfonia composta no ano de 1774, em Eszterháza. Com efeito, se os tempos fossem outros ter-se-ia chamado Suíte, pois os seus andamentos correspondem a uma Abertura, quatro entreatos, e um Finale originalmente destinados a acompanhar uma comédia teatral intitulada «Il distratto».

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«Il Commendatore», Escultura de Anna Chromý colocada junto ao Teatro Nacional de Praga, onde estreou a ópera Don Giovanni, em 1787 | Fonte: Wikimedia Commons
 
Entre o drama e a comédia, Don Giovanni de W. A. Mozart é uma ópera dramaturgicamente brilhante. A personagem principal não é somente um nobre depravado que promete casamento às donzelas abandonando-as de seguida. Desafia-nos a questionar o mito do herói. Revela-se uma identidade complexa que vai ao encontro da dimensão humana e tolerante do libreto de Lorenzo Da Ponte.

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Carl Otto Nicolai em 1842 | Litografia de Josef Kriehuber (1800-1876) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Em 1940 o realizador alemão Leopold Hainisch assinou o seu primeiro filme, intitulado Falstaff em Viena. Em registo de comédia musical, o enredo desenvolve-se em torno da figura de Carl Otto Nicolai e da criação d’As Alegres Comadres de Windsor. Relativamente desconhecido do grande público, este compositor pertence à geração seguinte à de Ludwig van Beethoven e Carl Maria von Weber. Ainda assim, tal projeção cinematográfica traduz bem a popularidade póstuma daquela ópera, cuja abertura se destaca com frequência nas salas de concerto.

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Retrato póstumo de W. A. Mozart | Pintura de Barbara Krafft (1819) | Fonte: Wikimedia Commons


OS PRIMEIROS ANOS DE SALZBURGO

 

Natural de Salzburgo, W. A. Mozart passou grande parte da infância e adolescência a viajar pela Europa. Já na última década de vida, fixou-se em Viena. Resta, pelo meio, um período de sete anos em que trabalhou efetivamente na sua cidade, coincidindo com a governação do Arcebispo Colloredo. Essa coexistência nunca foi fácil, mas os primeiros anos revelaram-se auspiciosos. A Sinfonia N.º 28 e o Concerto para Fagote datam desse altura. São duas obras compostas em 1774, uma fase que maturou um estilo de escrita que se projetaria mais tarde nas obras-primas que todos conhecemos.
 
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    Mozart não morria de amores por Salzburgo. Para lá das condições salariais, esse sentimento devia-se à qualidade dos músicos locais e à impossibilidade de compor óperas. Ainda assim, os primeiros anos da governação de Colloredo correram-lhe bastante bem. Compôs muita música sacra, mais de uma dezena de Sinfonias, Divertimentos, o seu primeiro Concerto para Piano… Só em 1774 a cisão entre o músico e as determinações conservadoras do arcebispo começou a tomar forma, culminando na sua partida para Viena seis anos mais tarde. Já então era evidente que as oportunidades que o jovem compositor tinha para exercitar mais livremente a sua criatividade orientavam-no para as orquestras privadas, em particular a do Conde Czernin. Poderá ter sido para essa orquestra que Mozart escreveu estas duas obras.

 

    A Sinfonia N.º 28 é posterior à deslocação a Viena realizada no verão de 1773, quando procurava melhores condições de trabalho. Regressou a Salzburgo, porém, sem sucesso, tal como já havia acontecido dois anos antes, quando fez uma outra viagem a Itália. É possível conjeturar que as «Sinfonias de Salzburgo» tivessem como objetivo a sua promoção junto das casas europeias mais influentes. Mas revelam, sobretudo, o processo de desenvolvimento de um estilo pessoal, muito embora sejam relativamente menosprezadas no nosso tempo. Entre aquelas que são menos tocadas distingue-se a N.º 28, uma obra extrovertida, porventura pensada para uma ocasião festiva, de entretenimento, ainda que no primeiro e último andamentos se vislumbre a expressividade dramática que tanto é valorizada nas sinfonias mais tardias.

 

    Por seu turno, o Concerto para Fagote foi escrito em junho do mesmo ano, também em Salzburgo, pois só em dezembro o músico voltou a viajar, dessa feita até Munique. Poucos compositores do período clássico compuseram um concerto para este instrumento, até porque a sua tessitura não facilita, pois preenche um registo médio no âmbito geral da orquestra. Por isso, o todo orquestral só intervém nos momentos em que o solista não o faz. Este foi, inclusivamente, o primeiro concerto para instrumento de sopro de Mozart, pelo que se trata de um verdadeiro tesouro do repertório para Fagote. Durante muito tempo, pensou-se que havia sido escrito para um Barão de Munique, também ele fagotista. Porém a parte solista é demasiadamente exigente do ponto de vista técnico, e Mozart só veio a conhecer o aristocrata na viagem anteriormente referida. Por ser improvável que Mozart compusesse um Concerto de Fagote por iniciativa própria, este deverá ter sido escrito a pedido de um fagotista de Salzburgo.

 

    Presume-se que Mozart tenha composto mais três concertos para fagote, mas este foi o único que nos chegou. O primeiro andamento, em Forma Sonata, é o mais arrojado. Desafia o solista com movimentos amplos, explorando toda a sua agilidade por entre articulações enérgicas. Mantém sempre, todavia, o diálogo com a orquestra e uma escrita muito elaborada, que não corresponde ao estilo galante dos andamentos seguintes. No segundo, é realçada a expressividade melódica do fagote, como se se tratasse de uma ária de ópera – até porque a mesma melodia foi mais tarde recuperada em Le nozze di Figaro, na ária «Porgi, Amor» cantada pela Condessa. O Finale ostenta padrões rítmicos dançáveis, na configuração híbrida da Forma Rondó com Variações.

 

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa

Solista: Lurdes Carneiro (fagote)

Maestro: Evgeny Bushkov

 

Sábado, 12 de janeiro de 2018, Teatro Thalia

 

W. A. Mozart Sinfonia N.º 28, KV 200

W. A. Mozart Concerto para Fagote e Orquestra, KV 191/186e

 

 
      
Retrato de W. A. Mozart em 1777 | Autoria anónima  | Fonte: Wikimedia Commons
 
O Concerto para Oboé e Orquestra em Dó Maior é o único concerto que W. A. Mozart dedicou a este instrumento. Mas é também uma obra incontornável no repertório dos oboístas. Composto no verão de 1777, explora exaustivamente os recursos sonoros que então se tornaram possíveis graças às inovações introduzidas pelos luthiers. Durante mais de um século pensou-se que a partitura estaria perdida, até que em 1920 foi descoberto em Salzburgo um manuscrito revelador. Afinal, o célebre Concerto para Flauta N.º 2 KV 314 era resultado de uma transcrição daquela «misteriosa» obra.

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O barítono Francisco d'Andrade do papel de Don Giovanni | Pintura de Max Slevogt (1912) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Il dissoluto punito é o título alternativo da ópera Don Giovanni de W. A. Mozart e traduz-se como «O libertino punido». Trata-se da segunda das colaborações do compositor com o libretista italiano Lorenzo da Ponte – ao lado Le nozze di Figaro e Così fan tutte –, e divide-se em dois atos na narração da história dessa figura lendária da literatura. Apesar da sua conduta pérfida, Don Juan reflete as ambiguidades da condição humana. Enfrenta o Céu e o Inferno com sacrifício da própria vida, mantendo-se fiel aos seus princípios e ideais.

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Nikolai Rimsky-Korsakov em 1898 | Pintura de Valentin Serov (1865–1911) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Em 1909, Rimsky-Korsakov referiu-se nos seguintes termos ao Capricho Espanhol que havia composto duas décadas antes: «A opinião da crítica e do público que defende que o Capricho é uma peça magnificamente orquestrada, está errada. O Capricho é uma brilhante composição para orquestra. A alternância de timbres, a escolha feliz de melodias e padrões rítmicos que se ajustam a cada instrumento de forma precisa, as breves cadências virtuosísticas para os instrumentos a solo, os ritmos da percussão, etc., é isso que determina a essência desta composição – não é a sua “roupagem”, i.e. a orquestração».

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