As Valsas de Schostakovich

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Musicália

As Valsas de Schostakovich




As Valsas de Schostakovich
O baile | Pintura de Charles Wilda (1854–1907) | Fonte: Wikimedia Commons
 
As valsas da família Strauss são indissociáveis dos tradicionais Concertos de Ano Novo. Hoje em dia já não se realizam bailes, e as pistas de dança transformaram-se substancialmente. Ainda assim, essa mesma música que encantou os salões europeus do século XIX enfrenta o passar dos tempos e das modas sem grandes abalos, encontrando sempre oportunidade e propósitos renovados. Escuta-se agora em formato de concerto e associada a contextos festivos. A sua extraordinária criatividade rítmica e melódica, assim como a contagiante boa-disposição anímica que a distingue, explicam porque assim acontece.

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«Il Commendatore», Escultura de Anna Chromý colocada junto ao Teatro Nacional de Praga, onde estreou a ópera Don Giovanni, em 1787 | Fonte: Wikimedia Commons
 
Entre o drama e a comédia, Don Giovanni de W. A. Mozart é uma ópera dramaturgicamente brilhante. A personagem principal não é somente um nobre depravado que promete casamento às donzelas abandonando-as de seguida. Desafia-nos a questionar o mito do herói. Revela-se uma identidade complexa que vai ao encontro da dimensão humana e tolerante do libreto de Lorenzo Da Ponte.

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Retrato póstumo de W. A. Mozart | Pintura de Barbara Krafft (1819) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Natural de Salzburgo, W. A. Mozart passou grande parte da infância e adolescência a viajar pela Europa. Já na última década de vida, fixou-se em Viena. Resta, pelo meio, um período de sete anos em que trabalhou efetivamente na sua cidade, coincidindo com a governação do Arcebispo Colloredo. Essa coexistência nunca foi fácil, mas os primeiros anos revelaram-se auspiciosos. A Sinfonia N.º 28 e o Concerto para Fagote datam desse altura. São duas obras compostas em 1774, uma fase que maturou um estilo de escrita que se projetaria mais tarde nas obras-primas que todos conhecemos.

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Dmitri Shostakovich em 1950 | Fonte: Wikimedia Commons


AS VALSAS DE SCHOSTAKOVICH

 

É bem sabido que muitas partituras de Schostakovich dissimulam mensagens de teor político ou pessoal. No caso das valsas, adivinha-se uma sugestão irónica, em virtude da conotação frívola do género, tendo em conta o panorama ideológico e o clima de opressão política em que tiveram origem. Em todo caso, nunca deixam de despertar um sorriso que, uma vez reenquadrado, predispõe aos melhores augúrios.
 
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    Para lá das sinfonias, dos concertos, das óperas e da música de câmara, Dmitri Schostakovich é autor de inúmeras peças originalmente escritas para bailado e cinema que nos revelam a sua faceta mais bem humorada. Estas foram posteriormente compiladas em numerosas suítes orquestrais que escondem pequenos (grandes) tesouros da invenção musical. Entre elas, destaca-se a provocadora trivialidade das valsas, como aquelas dos filmes Pirogov e Michurin.

 

    Enquanto jovem, o músico acompanhou ao piano a projeção de filmes mudos como forma de subsistência. Mais tarde, já nos anos 1930, com o surgimento da banda sonora, foi um dos primeiros compositores a investir o seu esforço criativo numa dimensão musical estreitamente articulada com a narrativa dramática. Já nos anos que se seguiram à guerra, em consequência dos constrangimentos que lhe foram impostos pelo regime, voltou a compor para cinema, designadamente em filmes baseados em histórias verídicas que visavam enaltecer os símbolos da nação. É o caso do filme de 1947 evocativo da figura de Nikolai Ivanovich Pirogov, um médico russo que serviu como cirurgião na frente de batalha da Guerra da Crimeia em meados do século XIX. O mesmo acontece no filme Michurin, produzido no ano seguinte, onde se evoca Ivan Vladimirovich Michurin, biólogo que se notabilizou no início do século passado no estudo sobre a importância da hereditariedade no desenvolvimento das espécies.


 

Concerto de Ano Novo

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa
Maestro: Evgeny Bushkov

 

Terça-feira, 1 de janeiro de 2019 (11h30), Grande Auditório do Centro Cultural de Belém

 

Terça-feira, 1 de janeiro de 2019 (17h00), Grande Auditório do Centro Cultural de Belém

 

Sexta-feira, 4 de janeiro de 2019, Fórum Municipal Luísa Todi, Setúbal

 

Sábado, 5 de janeiro de 2019, Coliseu Porto Ageas

 

Domingo, 6 de janeiro de 2019, Auditório Municipal Augusto Cabrita, Barreiro

 

 

C. O. Nicolai Abertura da ópera Die Lustige Weiber aus Windsor
J. Strauss Valsa Delírio, Op. 212
J. Strauss II Polca mazurca A Emancipada, Op. 282
J. Strauss II Polca rápida Comboio da diversão, Op. 281
J. Strauss II Marcha Persa, Op. 289
J. Strauss II Polca Tritsch-Tratsch, Op. 214
J. Strauss II Abertura da Opereta Der Zigeunerbaron (O Barão Cigano)
J. Strauss Polca francesa A libélula, Op. 204
J. Strauss II Csardas da Ópera Ritter Pázmán, Op. 441
J. Strauss II Valsa Vozes da Primavera, Op. 410
J. Strauss II Nova Polca Pizzicato, do 3.º ato da Opereta Princesa Ninette
J. Strauss II Polca rápida Viva a Hungria, Op. 332
D. Schostakovich Pizzicato: Allegretto da suíte do bailado A Ribeira Brilhante, Op. 39a
J. Strauss Polca-Mazurca Amor-Perfeito, Op. 183
D. Schostakovich Valsa do filme Michurin, Op. 78
J. Strauss Polca Anna, Op. 137
D. Schostakovich Valsa do filme Pirogov, Op. 76
J. Strauss Galope Chinês, Op. 20
J. Strauss II Valsa Danúbio azul, Op. 314

 

 
      
Carl Otto Nicolai em 1842 | Litografia de Josef Kriehuber (1800-1876) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Em 1940 o realizador alemão Leopold Hainisch assinou o seu primeiro filme, intitulado Falstaff em Viena. Em registo de comédia musical, o enredo desenvolve-se em torno da figura de Carl Otto Nicolai e da criação d’As Alegres Comadres de Windsor. Relativamente desconhecido do grande público, este compositor pertence à geração seguinte à de Ludwig van Beethoven e Carl Maria von Weber. Ainda assim, tal projeção cinematográfica traduz bem a popularidade póstuma daquela ópera, cuja abertura se destaca com frequência nas salas de concerto.

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Retrato de Joseph Haydn | Pintura de Thomas Hardy (1791) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Nos primeiros compassos do último andamento da Sinfonia N.º 60 de Joseph Haydn, a orquestra para subitamente, e começa a afinar – como se os músicos se tivessem esquecido de fazê-lo antes. Este é um dos vários episódios que não disfarçam a singularidade desta Sinfonia composta no ano de 1774, em Eszterháza. Com efeito, se os tempos fossem outros ter-se-ia chamado Suíte, pois os seus andamentos correspondem a uma Abertura, quatro entreatos, e um Finale originalmente destinados a acompanhar uma comédia teatral intitulada «Il distratto».

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Nikolai Rimsky-Korsakov em 1898 | Pintura de Valentin Serov (1865–1911) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Em 1909, Rimsky-Korsakov referiu-se nos seguintes termos ao Capricho Espanhol que havia composto duas décadas antes: «A opinião da crítica e do público que defende que o Capricho é uma peça magnificamente orquestrada, está errada. O Capricho é uma brilhante composição para orquestra. A alternância de timbres, a escolha feliz de melodias e padrões rítmicos que se ajustam a cada instrumento de forma precisa, as breves cadências virtuosísticas para os instrumentos a solo, os ritmos da percussão, etc., é isso que determina a essência desta composição – não é a sua “roupagem”, i.e. a orquestração».

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