Il dissoluto punito

facebook Instagram Youtube

Musicália

Il dissoluto punito




Il dissoluto punito
«Il Commendatore», Escultura de Anna Chromý colocada junto ao Teatro Nacional de Praga, onde estreou a ópera Don Giovanni, em 1787 | Fonte: Wikimedia Commons
 
Entre o drama e a comédia, Don Giovanni de W. A. Mozart é uma ópera dramaturgicamente brilhante. A personagem principal não é somente um nobre depravado que promete casamento às donzelas abandonando-as de seguida. Desafia-nos a questionar o mito do herói. Revela-se uma identidade complexa que vai ao encontro da dimensão humana e tolerante do libreto de Lorenzo Da Ponte.

saber mais



Fagote do Século XVIII / Museu da Música de Barcelona | Fonte: Wikimedia Commons
 
Os estilos musicais habitam mundividências que lhes são próprias. Identificam formas de ser e pensar. Participam na partilha comum e na dimensão introspetiva individual. Uma vez arrancados da sua origem, reinventam-se na relação com novas formas de existência. É por isso que, hoje em dia, escutar lado a lado dois concertos para fagote, separados por escassas quatro décadas no século XVIII e pelos nomes de Antonio Vivaldi e Johann Christian Bach, não é bastante para viajar no tempo. Ainda assim, permite provar um pouco do que distinguia os artifícios do barroco veneziano, conotados com os Antigos Regimes, e a «nova» simplicidade centro-europeia, de inspiração iluminista.

saber mais



Retrato de W. A. Mozart em 1777 | Autoria anónima  | Fonte: Wikimedia Commons
 
O Concerto para Oboé e Orquestra em Dó Maior é o único concerto que W. A. Mozart dedicou a este instrumento. Mas é também uma obra incontornável no repertório dos oboístas. Composto no verão de 1777, explora exaustivamente os recursos sonoros que então se tornaram possíveis graças às inovações introduzidas pelos luthiers. Durante mais de um século pensou-se que a partitura estaria perdida, até que em 1920 foi descoberto em Salzburgo um manuscrito revelador. Afinal, o célebre Concerto para Flauta N.º 2 KV 314 era resultado de uma transcrição daquela «misteriosa» obra.

saber mais




Arnold Böcklin (1827–1901), «Auto-retrato com a Morte tocando violino» (1872) / Fonte:Wikimedia Commons
O poema «A vida celestial», sobre o qual Gustav Mahler escreveu a canção que preenche a totalidade do último andamento da Sinfonia N.º 4, percorre a visão infantil de uma vida angelical. Mas não se trata de uma apropriação inocente. A composição aborda com desassombro o assunto da morte.

saber mais

 
 
 
 
 

  

O barítono Francisco d'Andrade do papel de Don Giovanni | Pintura de Max Slevogt (1912) | Fonte: Wikimedia Commons


IL DISSOLUTO PUNITO

 

Il dissoluto punito é o título alternativo da ópera Don Giovanni de W. A. Mozart e traduz-se como «O libertino punido». Trata-se da segunda das colaborações do compositor com o libretista italiano Lorenzo da Ponte – ao lado Le nozze di Figaro e Così fan tutte –, e divide-se em dois atos na narração da história dessa figura lendária da literatura. Apesar da sua conduta pérfida, Don Juan reflete as ambiguidades da condição humana. Enfrenta o Céu e o Inferno com sacrifício da própria vida, mantendo-se fiel aos seus princípios e ideais.
 
 **
 

    A trama tem lugar numa cidade de Espanha e relata as últimas horas de vida de um nobre sem escrúpulos cujo desígnio de vida é a sedução de mulheres. A abertura instrumental introduz-nos imediatamente no enredo. Tem início com uma melodia que viremos a reconhecer já perto do final, quando a estátua do defunto Comendador se mostra para exigir o arrependimento de Don Giovanni e fazer justiça. Foi esta a primeira vez que Mozart introduziu uma abertura com um andamento lento – viria a repetir o gesto em Così fan tutti e em Die Zauberflötte. Tudo começa nos jardins da casa do mesmo Comendador. Leporello, o criado de Don Giovanni, «guarda» pacientemente mais uma aventura de seu amo. Este aparece em cena ocultando a identidade, perseguido por Donna Ana, a qual reclama razões que devassam a sua intimidade. O Comendador desafia o insolente em defesa da honra da filha, mas é por ele morto. Os recitativos e as árias sucedem-se, sempre com grande eficácia teatral. É bom exemplo o «recitativo acompanhado» em que Donna Anna sabe da morte de seu pai, cirurgicamente pontuado pelas intervenções da orquestra.

 

    Surge então Donna Elvira, uma vítima anterior chegada da longínqua cidade de Burgos e decidida a esclarecer a sua situação. A música ajuda-nos a perceber os ânimos contraditórios desta personagem, divididos entre a fé religiosa e as tentações mundanas, com desenhos melódicos aparentemente desconexos. Uma vez mais, a música intervém de modo característico, aqui recorrendo a uma vivacidade que permite a Leporello listar as conquistas de seu amo, ao mesmo tempo consolando Donna Elvira e demovendo-a de quaisquer esperanças. Este é um dos momentos mais célebres da ópera.

 

    A cena desloca-se depois para junto de jovens camponeses, revelando-se pela primeira vez o modus operandi de Don Giovanni. Seduz Zerlina – no entender de muitos uma jovem inocente, para outros nem tanto. Ouve-se aqui outra peça de todos conhecida, o dueto «Là ci darem la mano». Mozart serve com a sua música a disposição sedutora dos personagens, através de contornos melódicos particularmente sugestivos. Nesta altura o enredo atinge um ponto de viragem: Don Giovanni é denunciado por Donna Elvira e, de seguida, identificado por Donna Anna como assassino de seu pai. A música acompanha esta mudança, tornando-se progressivamente mais precipitada e adquirindo maior intensidade dramática. Surge primeiro a ária cantada por Don Giovanni «Finch’han dal vino», vulgarmente conhecida por ária do champanhe, e depois a ária de Zerlina «Batti, batti, o bel Masetto». No fim do primeiro ato as vítimas de Don Giovanni foram, em modo representativo, dadas a conhecer.

 

    O princípio do segundo ato junta todos os ingredientes de uma ópera bufa. Entretêm-se Don Giovanni e Leporello a enganar Donna Elvira, por entre equívocos e disfarces. A também célebre ária de Don Giovanni «Deh, vieni alla finestra» revela-nos a perversão da sua personalidade, pelo sarcasmo da mais sentida expressão de afetos. Tarda assim o desfecho da narrativa, por entre tentativas de vingança e momentos de consolo das diferentes personagens. Até que, quando Don Giovanni se diverte com seu criado, ouve-se a voz do defunto comendador, personificado numa estátua temerosa. Tudo parece encaminhar-se para o final, mas Da Ponte e Mozart introduzem ainda dois momentos contrastantes. Primeiro, uma refeição que antecede a reaparição da estátua, com várias melodias muito populares na Praga de então, em particular a que se conhece da ária de Figaro «Non più andrai, farfallone amoroso». Num registo humorístico, Leporello reage exclamando «Esta conheço-a eu bem...», cantando-a de seguida. Em contraste, abre-se a porta de uma possível redenção do malfeitor, por intermédio da ária «Non mi dir, bell’idol mio», cantada por Donna Anna diante de Don Ottavio. Por fim, o desenlace. Don Giovanni recusa arrependimento diante da figura do Comendador e vê-se lançado nos infernos. A lição moral é aclamada no proscénio por todas as personagens. Esta terá certamente contribuído para a generalizada aceitação de que esta ópera gozou no século XIX, o que não aconteceu com outras igualmente assinadas pelo músico austríaco. Por sinal, o título alternativo da ópera, Il dissoluto punito, anuncia explicitamente a punição de um libertino.


 

 W. A. Mozart Don Giovanni, KV 527

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa
Coro Voces Caelestes

 

Direção Cénica e Vocal: Jorge Vaz de Carvalho
Figurinos: José António Tenente
Maestro do Coro Sérgio Fontão
Direção Musical: Pedro Amaral

 

Elenco:
Donna Elvira (soprano): Filipa Baptista Branco, Sara Carneiro
Donna Anna (soprano): Alexandra Bernardo
Zerlina (soprano): Ana Sofia Ventura, Patrícia Modesto
Don Ottavio (tenor): Marco Alves dos Santos
Don Giovanni (baritono): André Henriques
Masetto (baritono): Tiago Gomes
Il Commendatore (baixo): Tiago Navarro Marques
Leporello (baixo): José Corvelo

 

Domingo, 3 de fevereiro de 2018, Teatro Nacional de São Carlos

 

Sexta-feira, 8 de fevereiro de 2018, Teatro Thalia

 

Domingo, 10 de fevereiro de 2018, Teatro Thalia

 

 
      
O pesadelo | Pintura de Johann Heinrich Füssli, 1781 | Fonte: Wikimedia Commons
 
No âmbito das artes, a racionalidade e ponderação do Iluminismo setecentista foi subitamente perturbada pelo movimento estético que se denominou «Sturm und Drang». O individualismo, a inquietação, as emoções, a dúvida, a ambiguidade, a liberdade… A expressão destas ideias por intermédio da música revelou-se como um desafio fascinante para várias gerações de músicos, começando por Johann Christian, Haydn e Mozart. Foi percursora da afetação romântica do século seguinte.

saber mais



Pôr-do-sol | Fonte: www.pxhere.com
 
Richard Strauss compôs mais de duzentas. Ao fim das «Quatro Últimas Canções» conseguiu um silêncio e uma serenidade de encher o peito. Foi em 1948, aos 84 anos de idade, que completou este breve ciclo temático onde enfrentou com despudor o assunto da Morte, evocando-a na sua expressão mais sublime, como estágio da existência propício a uma reflexão contemplativa sobre a própria Vida. A entoação dolente da voz soprano deseja com ardor o retorno da primavera. Projeta a fadiga e o descanso na descrição de um jardim outonal. Mergulha num sono eterno e livre, diante de um céu que escurece. Diz adeus às cotovias e ao perfume do ar, numa paz profunda e tranquila.

saber mais



Ilustração de uma cena do 4.º ato de Macbeth | Pintura de Henry Fuseli (1793) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Na segunda metade da carreira, Richard Strauss viu a sua reputação ser associada a um romantismo ultrapassado e decadente. Mas antes disso, tinha-se distinguido com um estilo de escrita orquestral vigoroso e dilacerante, inspirado em compositores como Wagner e Liszt, nos domínios da Ópera e do Poema Sinfónico. Neste último género, Macbeth foi ponto de partida. Composto entre 1886 e 1888, pode entender-se como manifesto de emancipação relativamente à tradição mais conservadora do século XIX.

saber mais



A canção «Das himmlische Leben» («A vida celestial») preenche o último andamento da 4.ª Sinfonia de Mahler. É ponto de partida e ponto de chegada, a «razão de ser» daquela obra.

saber mais



Paisagem com ribeiro, pintura de Zdenka Braunerová (1858–1934) | Fonte: Wikimedia Commons
 
As sonoridades rústicas da Sinfonia N.º 8 de Dvořák assentam em intervenções instrumentais características, padrões rítmicos simples e dançáveis, uma fluência melódica invulgar e uma disposição bem humorada que não disfarça a utilização de recursos eminentemente teatrais. Esta aparência espontânea distingue-se do rigor formal da sinfonia anterior, dando azo a comparações com o pendor bucólico da segunda sinfonia de Brahms e da quarta de Mahler. Junta-se aqui Beethoven ao cenário, e poderíamos chamar-lhe a Sinfonia Pastoral do músico checo.

saber mais