A Ópera Don Giovanni

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Musicália

A Ópera Don Giovanni




A Ópera Don Giovanni
O barítono Francisco d'Andrade do papel de Don Giovanni | Pintura de Max Slevogt (1912) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Il dissoluto punito é o título alternativo da ópera Don Giovanni de W. A. Mozart e traduz-se como «O libertino punido». Trata-se da segunda das colaborações do compositor com o libretista italiano Lorenzo da Ponte – ao lado Le nozze di Figaro e Così fan tutte –, e divide-se em dois atos na narração da história dessa figura lendária da literatura. Apesar da sua conduta pérfida, Don Juan reflete as ambiguidades da condição humana. Enfrenta o Céu e o Inferno com sacrifício da própria vida, mantendo-se fiel aos seus princípios e ideais.

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O Lago Wörthersee, Pintura de Marko Pernhart (1824–1871) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Tal como as sinfonias de Beethoven com número par, a Segunda Sinfonia de Brahms é por vezes conotada com um período de relaxamento que o compositor se ofereceu após o esforço gigantesco despendido com a sinfonia anterior. Seria então um exercício de escrita descontraído, porventura menos cuidado, em matéria de composição. Mas esta leitura não resiste, sequer, à primeira audição. Ao cabo de uma dúzia de compassos, logo percebemos que é muito mais do que isso. Com ironia, o próprio compositor chamou-lhe «Sinfonia Feliz». Mas também disse, noutra ocasião, que a partitura deveria ter uma orla negra, tal era a melancolia que a trespassava. Em que ficamos?

A Sinfonia N.º 4 de Joly Braga Santos foi composta em 1950 no Monte dos Perdigões, situado a cerca de 12 quilómetros do Castelo de Monsaraz | Fonte: Wikimedia Commons
 
Os anos que se seguiram à Segunda Grande Guerra Mundial coincidiram com o período em que Joly Braga Santos atingiu a maturidade artística. Foi então que, em apenas quatro anos, compôs quatro das seis sinfonias que fizeram de si o maior sinfonista português de sempre. Em particular, a Sinfonia N.º 4 foi completada aos vinte e seis anos de idade e é dedicada «À Juventude Musical Portuguesa», instituição da qual foi mentor e cofundador.

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Dmitri Shostakovich em 1950 | Fonte: Wikimedia Commons
 
É bem sabido que muitas partituras de Schostakovich dissimulam mensagens de teor político ou pessoal. No caso das valsas, adivinha-se uma sugestão irónica, em virtude da conotação frívola do género, tendo em conta o panorama ideológico e o clima de opressão política em que tiveram origem. Em todo caso, nunca deixam de despertar um sorriso que, uma vez reenquadrado, predispõe aos melhores augúrios.

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«Il Commendatore», Escultura de Anna Chromý colocada junto ao Teatro Nacional de Praga, onde estreou a ópera Don Giovanni, em 1787 | Fonte: Wikimedia Commons


A ÓPERA DON GIOVANNI

 

Entre o drama e a comédia, Don Giovanni de W. A. Mozart é uma ópera dramaturgicamente brilhante. A personagem principal não é somente um nobre depravado que promete casamento às donzelas abandonando-as de seguida. Desafia-nos a questionar o mito do herói. Revela-se uma identidade complexa que vai ao encontro da dimensão humana e tolerante do libreto de Lorenzo Da Ponte.
 
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    Existem muitas maneiras de nos aproximarmos de Don Giovanni, a ópera levada pela primeira vez à cena por Wolfgang Amadeus Mozart e pelo libretista Lorenzo Da Ponte em 1787 na cidade de Praga. Tal é a sua riqueza. Para nela nos envolvermos basta percorrer com despreocupação a virtuosa sucessão de peripécias que se passa em cena, ou deleitarmo-nos, tão simplesmente, com a beleza dos trechos musicais que a compõem, onde se acham vários hits da História da Música. Podemo-nos também deixar «seduzir» pelo irresistível encanto de um protagonista que, apesar da ostensiva perfídia e crueldade das suas ações, irradia um genuíno entusiasmo pela vida e se descarta com ideais generosos, como aquele de ser o amor a sua principal motivação – afinal, «se um homem permanecer fiel a uma mulher, é cruel com todas as outras.» No mesmo sentido, a densidade psicológica de cada uma das restantes personagens é estímulo suficiente para as revisitarmos vezes sem conta. Nenhuma delas permite uma interpretação linear, revelando ao longo do espetáculo diferentes facetas que resistem aos arquétipos e se inscrevem num registo intemporal.

 

    Não é acaso a circunstância de tantos dramaturgos elegerem como temática das suas criações o mito de Don Juan, figura que o escritor espanhol Tirso de Molina deu a conhecer ao mundo no início do século XVII e na qual ecoam biografias de muitos e famosos aventureiros de índole semelhante. Antes de Mozart e de Da Ponte, já o haviam feito Molière e Goldoni. Se recuarmos àquela época, surpreende-nos a ousadia. Desde logo na primeira cena, onde aparece um criado maldizendo o patrão e planeando melhor sorte para o próprio futuro. Mas também por serem focadas tão explicitamente as fraquezas e as perversões do Homem. Na sequência do sucesso que a ópera Le nozze de Figaro havia conquistado desde um ano antes junto do público de Praga, entenderam os autores de Don Giovanni ser este o enredo apropriado para responder ao convite do empresário Pasquale Bondini. Porém, contrariando as expectativas deste, não se cingiram em árias melodiosas, conjunto vocais de grande efeito e finais arrebatadores. Optaram pelo género do dramma giocoso, o qual, conforme o nome indica, junta o drama à comédia, alterna momentos sérios com outros manifestamente divertidos. Com o desenrolar das cenas sobressai um dos mais estimulantes interesses suscitados por esta ópera. Designadamente, a maneira como a componente musical contribui para a clareza e a complexidade do desenho dramatúrgico, como caracteriza certeiramente cada uma das personagens nas diferentes situações, como estabelece a diferença entre os registos de tragédia e de comédia, sem nunca comprometer um fio condutor que nos «agarra» do primeiro ao último compasso.


 

Don Giovanni

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa
Coro Voces Caelestes

 

Direção Cénica e Vocal: Jorge Vaz de Carvalho
Figurinos: José António Tenente
Maestro do Coro Sérgio Fontão
Direção Musical: Pedro Amaral

 

Elenco:
Donna Elvira (soprano): Filipa Baptista Branco, Sara Carneiro
Donna Anna (soprano): Alexandra Bernardo
Zerlina (soprano): Ana Sofia Ventura, Patrícia Modesto
Don Ottavio (tenor): Marco Alves dos Santos
Don Giovanni (baritono): André Henriques
Masetto (baritono): Tiago Gomes
Il Commendatore (baixo): Tiago Navarro Marques
Leporello (baixo): José Corvelo

 

Sexta-feira, 25 de janeiro de 2018, Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém

 

Domingo, 27 de janeiro de 2018, Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém

 

 W. A. Mozart Don Giovanni, KV 527

 

 
      
Retrato de Joseph Haydn | Pintura de Thomas Hardy (1791) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Nos primeiros compassos do último andamento da Sinfonia N.º 60 de Joseph Haydn, a orquestra para subitamente, e começa a afinar – como se os músicos se tivessem esquecido de fazê-lo antes. Este é um dos vários episódios que não disfarçam a singularidade desta Sinfonia composta no ano de 1774, em Eszterháza. Com efeito, se os tempos fossem outros ter-se-ia chamado Suíte, pois os seus andamentos correspondem a uma Abertura, quatro entreatos, e um Finale originalmente destinados a acompanhar uma comédia teatral intitulada «Il distratto».

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O baile | Pintura de Charles Wilda (1854–1907) | Fonte: Wikimedia Commons
 
As valsas da família Strauss são indissociáveis dos tradicionais Concertos de Ano Novo. Hoje em dia já não se realizam bailes, e as pistas de dança transformaram-se substancialmente. Ainda assim, essa mesma música que encantou os salões europeus do século XIX enfrenta o passar dos tempos e das modas sem grandes abalos, encontrando sempre oportunidade e propósitos renovados. Escuta-se agora em formato de concerto e associada a contextos festivos. A sua extraordinária criatividade rítmica e melódica, assim como a contagiante boa-disposição anímica que a distingue, explicam porque assim acontece.

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Retrato póstumo de W. A. Mozart | Pintura de Barbara Krafft (1819) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Natural de Salzburgo, W. A. Mozart passou grande parte da infância e adolescência a viajar pela Europa. Já na última década de vida, fixou-se em Viena. Resta, pelo meio, um período de sete anos em que trabalhou efetivamente na sua cidade, coincidindo com a governação do Arcebispo Colloredo. Essa coexistência nunca foi fácil, mas os primeiros anos revelaram-se auspiciosos. A Sinfonia N.º 28 e o Concerto para Fagote datam desse altura. São duas obras compostas em 1774, uma fase que maturou um estilo de escrita que se projetaria mais tarde nas obras-primas que todos conhecemos.

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Retrato de W. A. Mozart em 1777 | Autoria anónima  | Fonte: Wikimedia Commons
 
O Concerto para Oboé e Orquestra em Dó Maior é o único concerto que W. A. Mozart dedicou a este instrumento. Mas é também uma obra incontornável no repertório dos oboístas. Composto no verão de 1777, explora exaustivamente os recursos sonoros que então se tornaram possíveis graças às inovações introduzidas pelos luthiers. Durante mais de um século pensou-se que a partitura estaria perdida, até que em 1920 foi descoberto em Salzburgo um manuscrito revelador. Afinal, o célebre Concerto para Flauta N.º 2 KV 314 era resultado de uma transcrição daquela «misteriosa» obra.

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