A Ópera Don Giovanni

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Musicália

A Ópera Don Giovanni




A Ópera Don Giovanni
O barítono Francisco d'Andrade do papel de Don Giovanni | Pintura de Max Slevogt (1912) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Il dissoluto punito é o título alternativo da ópera Don Giovanni de W. A. Mozart e traduz-se como «O libertino punido». Trata-se da segunda das colaborações do compositor com o libretista italiano Lorenzo da Ponte – ao lado Le nozze di Figaro e Così fan tutte –, e divide-se em dois atos na narração da história dessa figura lendária da literatura. Apesar da sua conduta pérfida, Don Juan reflete as ambiguidades da condição humana. Enfrenta o Céu e o Inferno com sacrifício da própria vida, mantendo-se fiel aos seus princípios e ideais.

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Ilustração de uma cena do 4.º ato de Macbeth | Pintura de Henry Fuseli (1793) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Na segunda metade da carreira, Richard Strauss viu a sua reputação ser associada a um romantismo ultrapassado e decadente. Mas antes disso, tinha-se distinguido com um estilo de escrita orquestral vigoroso e dilacerante, inspirado em compositores como Wagner e Liszt, nos domínios da Ópera e do Poema Sinfónico. Neste último género, Macbeth foi ponto de partida. Composto entre 1886 e 1888, pode entender-se como manifesto de emancipação relativamente à tradição mais conservadora do século XIX.

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O pesadelo | Pintura de Johann Heinrich Füssli, 1781 | Fonte: Wikimedia Commons
 
No âmbito das artes, a racionalidade e ponderação do Iluminismo setecentista foi subitamente perturbada pelo movimento estético que se denominou «Sturm und Drang». O individualismo, a inquietação, as emoções, a dúvida, a ambiguidade, a liberdade… A expressão destas ideias por intermédio da música revelou-se como um desafio fascinante para várias gerações de músicos, começando por Johann Christian, Haydn e Mozart. Foi percursora da afetação romântica do século seguinte.

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Johann Christian Bach em 1776 | Pintura de Thomas Gainsborough | Fonte: Wikimedia Commons
 
Apesar da unanimidade que hoje existe em torno do nome de Johann Sebastian Bach, entre os músicos da família Bach, foi o seu filho Johann Christian quem teve maior reconhecimento em tempo de vida. A sua obra testemunha a transição que, em matéria de música, conduziu o Estilo Barroco Tardio, coroado por figuras como seu pai e Vivaldi, ao Classicismo vienense. Para lá da afinidade entre as sinfonias de J. C. Bach e as primeiras de Mozart, o ímpeto expressivo que se reconhece em obras como a última sinfonia do caderno Op. 6 projeta-se nas sinfonias de maior fôlego do músico de Salzburgo, tais como a N.º 25, celebrizada em 1984 no filme de Miloš Forman.

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«Il Commendatore», Escultura de Anna Chromý colocada junto ao Teatro Nacional de Praga, onde estreou a ópera Don Giovanni, em 1787 | Fonte: Wikimedia Commons


A ÓPERA DON GIOVANNI

 

Entre o drama e a comédia, Don Giovanni de W. A. Mozart é uma ópera dramaturgicamente brilhante. A personagem principal não é somente um nobre depravado que promete casamento às donzelas abandonando-as de seguida. Desafia-nos a questionar o mito do herói. Revela-se uma identidade complexa que vai ao encontro da dimensão humana e tolerante do libreto de Lorenzo Da Ponte.
 
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    Existem muitas maneiras de nos aproximarmos de Don Giovanni, a ópera levada pela primeira vez à cena por Wolfgang Amadeus Mozart e pelo libretista Lorenzo Da Ponte em 1787 na cidade de Praga. Tal é a sua riqueza. Para nela nos envolvermos basta percorrer com despreocupação a virtuosa sucessão de peripécias que se passa em cena, ou deleitarmo-nos, tão simplesmente, com a beleza dos trechos musicais que a compõem, onde se acham vários hits da História da Música. Podemo-nos também deixar «seduzir» pelo irresistível encanto de um protagonista que, apesar da ostensiva perfídia e crueldade das suas ações, irradia um genuíno entusiasmo pela vida e se descarta com ideais generosos, como aquele de ser o amor a sua principal motivação – afinal, «se um homem permanecer fiel a uma mulher, é cruel com todas as outras.» No mesmo sentido, a densidade psicológica de cada uma das restantes personagens é estímulo suficiente para as revisitarmos vezes sem conta. Nenhuma delas permite uma interpretação linear, revelando ao longo do espetáculo diferentes facetas que resistem aos arquétipos e se inscrevem num registo intemporal.

 

    Não é acaso a circunstância de tantos dramaturgos elegerem como temática das suas criações o mito de Don Juan, figura que o escritor espanhol Tirso de Molina deu a conhecer ao mundo no início do século XVII e na qual ecoam biografias de muitos e famosos aventureiros de índole semelhante. Antes de Mozart e de Da Ponte, já o haviam feito Molière e Goldoni. Se recuarmos àquela época, surpreende-nos a ousadia. Desde logo na primeira cena, onde aparece um criado maldizendo o patrão e planeando melhor sorte para o próprio futuro. Mas também por serem focadas tão explicitamente as fraquezas e as perversões do Homem. Na sequência do sucesso que a ópera Le nozze de Figaro havia conquistado desde um ano antes junto do público de Praga, entenderam os autores de Don Giovanni ser este o enredo apropriado para responder ao convite do empresário Pasquale Bondini. Porém, contrariando as expectativas deste, não se cingiram em árias melodiosas, conjunto vocais de grande efeito e finais arrebatadores. Optaram pelo género do dramma giocoso, o qual, conforme o nome indica, junta o drama à comédia, alterna momentos sérios com outros manifestamente divertidos. Com o desenrolar das cenas sobressai um dos mais estimulantes interesses suscitados por esta ópera. Designadamente, a maneira como a componente musical contribui para a clareza e a complexidade do desenho dramatúrgico, como caracteriza certeiramente cada uma das personagens nas diferentes situações, como estabelece a diferença entre os registos de tragédia e de comédia, sem nunca comprometer um fio condutor que nos «agarra» do primeiro ao último compasso.


 

 W. A. Mozart Don Giovanni, KV 527

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa
Coro Voces Caelestes

 

Direção Cénica e Vocal: Jorge Vaz de Carvalho
Figurinos: José António Tenente
Maestro do Coro Sérgio Fontão
Direção Musical: Pedro Amaral

 

Elenco:
Donna Elvira (soprano): Filipa Baptista Branco, Sara Carneiro
Donna Anna (soprano): Alexandra Bernardo
Zerlina (soprano): Ana Sofia Ventura, Patrícia Modesto
Don Ottavio (tenor): Marco Alves dos Santos
Don Giovanni (baritono): André Henriques
Masetto (baritono): Tiago Gomes
Il Commendatore (baixo): Tiago Navarro Marques
Leporello (baixo): José Corvelo

 

Domingo, 3 de fevereiro de 2018, Teatro Nacional de São Carlos

 

Sexta-feira, 8 de fevereiro de 2018, Teatro Thalia

 

Domingo, 10 de fevereiro de 2018, Teatro Thalia

 

 

 
      
Fagote do Século XVIII / Museu da Música de Barcelona | Fonte: Wikimedia Commons
 
Os estilos musicais habitam mundividências que lhes são próprias. Identificam formas de ser e pensar. Participam na partilha comum e na dimensão introspetiva individual. Uma vez arrancados da sua origem, reinventam-se na relação com novas formas de existência. É por isso que, hoje em dia, escutar lado a lado dois concertos para fagote, separados por escassas quatro décadas no século XVIII e pelos nomes de Antonio Vivaldi e Johann Christian Bach, não é bastante para viajar no tempo. Ainda assim, permite provar um pouco do que distinguia os artifícios do barroco veneziano, conotados com os Antigos Regimes, e a «nova» simplicidade centro-europeia, de inspiração iluminista.

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Pôr-do-sol | Fonte: www.pxhere.com
 
Richard Strauss compôs mais de duzentas. Ao fim das «Quatro Últimas Canções» conseguiu um silêncio e uma serenidade de encher o peito. Foi em 1948, aos 84 anos de idade, que completou este breve ciclo temático onde enfrentou com despudor o assunto da Morte, evocando-a na sua expressão mais sublime, como estágio da existência propício a uma reflexão contemplativa sobre a própria Vida. A entoação dolente da voz soprano deseja com ardor o retorno da primavera. Projeta a fadiga e o descanso na descrição de um jardim outonal. Mergulha num sono eterno e livre, diante de um céu que escurece. Diz adeus às cotovias e ao perfume do ar, numa paz profunda e tranquila.

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Capa da 1.ª Edição da Segunda Sinfonia de J. Brahms (1878) | Fonte: IMSLP
 
A Segunda Sinfonia de Brahms é bastante mais discreta do que a Primeira. Requer, por isso, uma atenção especial. Em muita música alemã da segunda metade do século XIX sente-se a nostalgia provocada por um modelo de criação artística que se esgotava. Em Brahms, todavia, não se vislumbra qualquer laivo de decadência. A destreza técnica e a sobriedade expressiva que se reconhecem neste seu Op. 73 ajudam a explicá-lo. Brahms não ansiava por um lugar na História. Ele interpretava o seu lugar na História. Encarava a Tradição com uma atitude construtiva, sempre buscando novos caminhos e soluções.

Retrato de W. A. Mozart em 1777 | Autoria anónima  | Fonte: Wikimedia Commons
 
O Concerto para Oboé e Orquestra em Dó Maior é o único concerto que W. A. Mozart dedicou a este instrumento. Mas é também uma obra incontornável no repertório dos oboístas. Composto no verão de 1777, explora exaustivamente os recursos sonoros que então se tornaram possíveis graças às inovações introduzidas pelos luthiers. Durante mais de um século pensou-se que a partitura estaria perdida, até que em 1920 foi descoberto em Salzburgo um manuscrito revelador. Afinal, o célebre Concerto para Flauta N.º 2 KV 314 era resultado de uma transcrição daquela «misteriosa» obra.

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