A Sinfonia Linz

facebook Instagram Youtube

Musicália

A Sinfonia Linz




A Sinfonia Linz
 
O baile | Pintura de Charles Wilda (1854–1907) | Fonte: Wikimedia Commons
 
As valsas da família Strauss são indissociáveis dos tradicionais Concertos de Ano Novo. Hoje em dia já não se realizam bailes, e as pistas de dança transformaram-se substancialmente. Ainda assim, essa mesma música que encantou os salões europeus do século XIX enfrenta o passar dos tempos e das modas sem grandes abalos, encontrando sempre oportunidade e propósitos renovados. Escuta-se agora em formato de concerto e associada a contextos festivos. A sua extraordinária criatividade rítmica e melódica, assim como a contagiante boa-disposição anímica que a distingue, explicam porque assim acontece.

saber mais



Batalha de Landshut, em abril de 1809 | Pintura de Louis Hersent (1777–1860) | Fonte: Wikimedia Commons 
 
Entre o drama e a comédia, Don Giovanni de W. A. Mozart é uma ópera dramaturgicamente brilhante. A personagem principal não é somente um nobre depravado que promete casamento às donzelas abandonando-as de seguida. Desafia-nos a questionar o mito do herói. Revela-se uma identidade complexa que vai ao encontro da dimensão humana e tolerante do libreto de Lorenzo Da Ponte.

saber mais



Retrato de Joseph Haydn | Pintura de Thomas Hardy (1791) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Nos primeiros compassos do último andamento da Sinfonia N.º 60 de Joseph Haydn, a orquestra para subitamente, e começa a afinar – como se os músicos se tivessem esquecido de fazê-lo antes. Este é um dos vários episódios que não disfarçam a singularidade desta Sinfonia composta no ano de 1774, em Eszterháza. Com efeito, se os tempos fossem outros ter-se-ia chamado Suíte, pois os seus andamentos correspondem a uma Abertura, quatro entreatos, e um Finale originalmente destinados a acompanhar uma comédia teatral intitulada «Il distratto».

saber mais


  
A Praça Principal de Linz em 1821 | Pintura de Robert Batty (1789–1848) | Fonte: Wikimedia Commons

A SINFONIA LINZ
 
Um dos feitos mais extraordinários da carreira de W. A. Mozart, e seguramente de toda a História da Música, foi a composição das suas últimas três sinfonias em apenas três meses, no verão de 1788. Antes disso, havia composto a Sinfonia Praga, no final de 1786, e a Sinfonia Linz, em 1783. Menos conhecida, esta última também esconde proezas notáveis. Para lá de ter sido composta em escassos quatro dias, pode ser entendida como «pé de apoio» na projeção daquelas que lhe seguiram.
 
 **
 

    A cidade austríaca de Linz situa-se a meio caminho entre Salzburgo e Viena, lugar de paragem oportuno para quem no século XVIII percorria aquela estrada. Assim aconteceu com W. A. Mozart, que vinha de apresentar ao seu pai a esposa Constanze e o primeiro filho do casal. Esse foi um encontro relativamente tenso, já que Leopold não consentira a união. Já de regresso, foi convidado a ficar alguns dias no palácio do Conde de Thun, o que obrigava uma retribuição musical a condizer. Como Mozart não trazia consigo nenhuma partitura, viu-se obrigado a compor de raiz um nova sinfonia. O resultado foi surpreendente: a sinfonia que ficou conhecida com o nome daquela cidade.

 

    Há vários aspetos que tornam esta obra fascinante. Sobretudo, destacam-se os efeitos contrastantes obtidos a partir de parcos motivos melódicos e rítmicos. Estes são recriados de múltiplas maneiras, através de variações harmónicas, dinâmicas ou da própria orquestração. Assiste-se a continuados exercícios de transformação que passam, no entanto, facilmente despercebidos. De maneira subtil, existe uma exploração dramática de opostos expressivos em que, por debaixo de uma luminosidade ostensiva, é sempre possível descortinar uma penumbra inquietante. A orquestra que Mozart tinha à disposição não incluía nem flautas nem clarinetes, mas tudo o resto é explorado até à exaustão.

 

    Muitos musicólogos defendem que a influência de Haydn nesta sinfonia é determinante. Com efeito, esta foi a primeira sinfonia de Mozart com uma introdução lenta, o que se veio a repetir nas sinfonias 38 e 39. Esta era, precisamente, uma marca distintiva das sinfonias que Haydn vinha compondo pela mesma altura. O Adagio inicial da Sinfonia Linz instala-se num clima expectante, como se antecipasse o que se ouve ao longo dos quatro andamentos. Destaca-se aí o padrão ritmo de uma marcha, a belíssima melodia dos segundos violinos, a instabilidade harmónica e os cromatismos descendentes que sugerem premonição e mistério. Já no Allegro spiritoso que se segue, abunda a aparente facilidade mozartiana, mas também aqui com contrastes que acentuam a dramaticidade. O primeiro tema é bucólico e relaxado. O segundo é bastante mais impetuoso, de cariz operático. Após uma secção de desenvolvimento em que todas as referências parecem perdidas, regressa-se como que por magia ao ponto ideal para apresentar uma Reexposição. Com poucos recursos, a partitura discorre como se fosse uma peça de teatro em que as personagens enfrentam vicissitudes imprevisíveis. O «segundo ato» começa delicado e gracioso, com o ritmo ternário de uma siciliana e o tema melódico de um duo para violino e viola que Mozart trazia de Salzburgo. Pelo meio, há momentos de maior densidade dramática que parecem contrariar esse espírito ensolarado. Depois, esperar-se-ia a elegância aristocrática de um Minueto. Em vez disso, o compositor prefere a inspiração rústica de uma dança popular, ainda que mantendo a métrica ternária e uma secção central mais lenta, onde se destaca o diálogo entre o oboé e o fagote. Por fim, o último andamento precipita-se numa sucessão frenética de temas que se entrelaçam num contraponto concludente. Aqui, os músicos são convidados a tocarem o mais rápido que conseguirem. Se a sinfonia teve início com um registo de ópera séria, agora tudo descamba num ambiente de ópera bufa, com um tipo de humor que nos permite adivinhar o temperamento de um artista que aos 27 anos de idade, e apesar das contrariedades da existência, conseguia resguardar-se no mais genuíno prazer de criar música, como se nunca tivesse deixado de ser uma criança prodigiosa.

 

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa
Maestro: José Eduardo Gomes

 

W. A. Mozart Sinfonia N.º 36, KV 425, Linz
 

Sexta-feira, 21 de dezembro de 2018, Teatro Municipal Joaquim Benite, Almada

 

Sábado, 22 de dezembro de 2018, Refeitório dos Frades (Mosteiro dos Jerónimos)

 

 

 
      
A Praça Principal de Salzburgo em 1776 | Pintura de Carl Schneeweis (1745-1826) | Fonte: Website do Museu de Salzburgo
 
Para lá do moteto Ave verum corpus e da missa de Requiem, datadas do final da vida, W. A. Mozart compôs mais dezassete missas, diversos Kyries, ofertórios, litanias, vésperas, motetos e, entre outras, dezassete peças instrumentais para serem tocadas durante o ritual litúrgico, as sonate da chiesa. A maior parte teve origem no período anterior à sua fixação em Viena, em 1781, e, exceptuando a Missa da Coroação, é relativamente pouco conhecida. O conjunto é estilisticamente variado, com influências que se estendem desde o contraponto renascentista até à ópera. Nesta última vertente destaca-se a exploração das potencialidades técnicas e expressivas da voz solista à frente da orquestra.

saber mais



Retrato póstumo de W. A. Mozart | Pintura de Barbara Krafft (1819) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Natural de Salzburgo, W. A. Mozart passou grande parte da infância e adolescência a viajar pela Europa. Já na última década de vida, fixou-se em Viena. Resta, pelo meio, um período de sete anos em que trabalhou efetivamente na sua cidade, coincidindo com a governação do Arcebispo Colloredo. Essa coexistência nunca foi fácil, mas os primeiros anos revelaram-se auspiciosos. A Sinfonia N.º 28 e o Concerto para Fagote datam desse altura. São duas obras compostas em 1774, uma fase que maturou um estilo de escrita que se projetaria mais tarde nas obras-primas que todos conhecemos.

saber mais



Nikolai Rimsky-Korsakov em 1898 | Pintura de Valentin Serov (1865–1911) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Em 1909, Rimsky-Korsakov referiu-se nos seguintes termos ao Capricho Espanhol que havia composto duas décadas antes: «A opinião da crítica e do público que defende que o Capricho é uma peça magnificamente orquestrada, está errada. O Capricho é uma brilhante composição para orquestra. A alternância de timbres, a escolha feliz de melodias e padrões rítmicos que se ajustam a cada instrumento de forma precisa, as breves cadências virtuosísticas para os instrumentos a solo, os ritmos da percussão, etc., é isso que determina a essência desta composição – não é a sua “roupagem”, i.e. a orquestração».

saber mais