Rhapsody in Blue

facebook Instagram Youtube

Musicália

Rhapsody in Blue




Rhapsody in Blue
Antonín Dvořák cerca de 1882 | Fonte: Wikimedia Commons
 
Quando Antonín Dvořák foi viver para Nova Iorque, em 1892, pairava a expectativa de aparecimento de um idioma musical genuinamente americano. Paradoxalmente, o Nacionalismo, enquanto tendência estética que procurava fundamento nos umbigos das diferentes nações, era o movimento artístico mais internacional na derradeira década do século XIX. Só assim se explica que tenha sido possível a um músico imerso na cultura da Boémia – o coração da Europa Central – participar na construção de um paradigma musical para o «Novo Mundo».

saber mais



Franz Joseph Haydn | Gravura de Francesco Bartolozzi datada de 1791 | Fonte: BnF Gallica
 

UM VERDADEIRO ACHADO

Em 1961 fez-se uma descoberta extraordinária no Museu Nacional de Praga. Tratava-se da partitura manuscrita do primeiro Concerto para Violoncelo e Orquestra de Joseph Haydn, um obra que permanecera duzentos anos silenciada. Espalhou-se a notícia, e não tardaram as gravações dos mais prestigiados violoncelistas, tais como Jacqueline du Pré ou Mstislav Rostropovich, entre tantos outros. Hoje em dia, é uma obra que se impõe nas programações das salas de concertos de todo o mundo, sempre com a aparente naturalidade do primeiro dia em que foi tocada.

saber mais



Fonte: www.pxhere.com
 
Licenciado em Composição pela Escola Superior de Música de Lisboa, Bruno Gabirro completou o Mestrado em 2008 na Royal Academy of Music. Foi durante este último período de formação, passado em Londres, que recebeu a encomenda para compor uma obra destinada ao ensemble de cordas Royal Academy Soloists. Nasceu assim a obra Rebel (Chaos), prontamente distinguida com o Premio Eric Coates para Composição.

saber mais

 
 
 

Etiqueta do disco da primeira gravação comercializada de Rhapsody in Blue (1924) | Fonte: Wikimedia Commons


RHAPSODY IN BLUE

 

Rapsódia Americana, foi este o título provisório de Rhapsody in Blue, a obra concertante para piano e orquestra que em 1924 abriu novos caminhos à carreira de George Gershwin e, bem mais importante, também à música estadunidense. Numa época em que o Novo Mundo buscava uma identidade cultural própria, à semelhança do que ocorreu por toda a Europa, o Jazz impôs-se como a mais genuína expressão musical, alastrando-se às rádios, aos discos e às salas de concerto clássicas. Em forma de Rapsódia, e por entre a azáfama dos teatros da Broadway, Gershwin compôs este precioso «caleidoscópio musical da América».

 
 **
 

    O título Rhapsody in Blue não se traduz facilmente, pois faz uso de uma palavra com contornos ambíguos no contexto específico do Jazz. O sentido literal da palavra «Blue» (Azul) dá nome à disposição afetiva que se distingue nesse género musical nascido há pouco mais de um século no seio das comunidades negras dos E.U.A. Trata-se de um sentimento melancólico que nenhuma outra palavra exprime de maneira convincente – assim como a palavra Fado nos ajuda a apresentar a canção urbana que emergiu nos convívios boémios da Lisboa oitocentista. O termo também se aplica às «Notas Blues», as notas que se desviam ligeiramente da escala diatónica própria da tradição musical clássica europeia – uma nuance que contribui para a sua singularidade. Não por acaso, todos os temas melódicos que se destacam em Rhapsody in Blue estendem-se na peculiaridade desta escala.

 

    Conhecer a motivação que trouxe esta sonoridade à Aeolian Hall, uma sala de concertos vocacionada para o repertório clássico, revela-se fundamental para perceber os contornos da obra. A sua estreia decorreu em fevereiro de 1924 naquela sala nova-iorquina onde se ouvia Rachmaninov e Prokofiev, mas também a Palais Royal Orchestra, a orquestra de Paul Whiteman que tanto contribuiu para a divulgação do Jazz junto da elite branca. Whiteman procurava conferir ao género um estatuto de respeitabilidade, já que permanecia associado ao estigma das comunidades desfavorecidas e discriminadas. No sentido de demonstrar que esta poderia ser uma prática artística «séria» e sofisticada, promoveu um concerto didático onde se propunha a fusão dos dois universos. O programa anunciava a estreia de um concerto para piano e orquestra de George Gershwin.

 

    Gershwin já era conhecido por difundir o Jazz na Broadway, mas não tinha experiência em escrever para orquestra. A precipitação do convite obrigou-o a compor em apenas três semanas uma partitura para dois pianos, confiando algumas partes solistas à improvisação do momento. O orquestração foi realizada por Ferde Grofé, o arranjador habitual da Palais Royal Orchestra, na ocasião reforçada com uma secção de violinos – mais tarde, o próprio Grofé fez a adaptação para orquestra sinfónica. Detalhe curioso: o famoso glissando inicial que se ouve no clarinete deve-se a um momento de improvisação do clarinetista Ross Gorman no decorrer de um ensaio.

 

    Tratando-se de uma Rapsódia, a sua estrutura distingue-se de um concerto clássico por ter um único andamento composto pela sequência episódica de ideias contrastantes, o que mereceu o reparo de personalidades tão ilustres como Leonard Bernstein. A natureza algo irregular da obra dá azo à improvisação e a rasgos expressivos exuberantes e inesperados, entre a abundância dos ritmos do Ragtime. Contrariava deste modo a ideia de que o Jazz era uma música exclusivamente dançável, jogando com os contratempos e os rubatos. Sucedem-se temas melódicos de grande beleza que prendem a atenção do ouvinte, um dos quais com o lirismo justo para o clímax da obra. Construía-se assim a ideia de uma música genuinamente americana, com tal sucesso que tornaria possível a Gershwin compor mais tarde obras como o Concerto em Fá Maior, Um Americano em Paris e Porgy and Bess.

 

 

 

Late Night Concert – Concerto do Solstício

George Gershwin – Rhapsody in Blue (1924)

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa
Solista: Mário Laginha (piano)

Maestro: Pedro Amaral

 

Sexta-feira, 21 de junho de 2019, LxFactory

 
Olivier Messiaen em 1986 | Fonte: Wikimedia Commo
 
As obras musicais Hommage à Messiaen e Modos de Expressão Ilimitada, respetivamente assinadas por Vasco Pearce de Azevedo e Eurico Carrapatoso, coincidem nalguns aspetos. Ambas estão escritas para orquestra de cordas e prestam tributo a Olivier Messiaen (1908-1992), uma figura pioneira que, de maneira audaz, soube fecundar a criação musical com inspirações improváveis, integrando-as na sua própria linguagem. Os dois compositores portugueses escrevem sobre isso, na primeira pessoa.

saber mais



Capa da 1.ª Edição da Segunda Sinfonia de J. Brahms (1878) | Fonte: IMSLP
 
A Segunda Sinfonia de Brahms é bastante mais discreta do que a Primeira. Requer, por isso, uma atenção especial. Em muita música alemã da segunda metade do século XIX sente-se a nostalgia provocada por um modelo de criação artística que se esgotava. Em Brahms, todavia, não se vislumbra qualquer laivo de decadência. A destreza técnica e a sobriedade expressiva que se reconhecem neste seu Op. 73 ajudam a explicá-lo. Brahms não ansiava por um lugar na História. Ele interpretava o seu lugar na História. Encarava a Tradição com uma atitude construtiva, sempre buscando novos caminhos e soluções.

saber mais



Brahms ao piano em 1896 | Pintura de Willy von Beckerath (1868-1938) | Fonte: Wikimedia Commons
 
SOB O SIGNO DE BRAHMS
Após um longo período em que Brahms foi pejorativamente conotado com a ala mais conservadora do século XIX, a importância do seu legado é hoje por de mais evidente. No âmbito da música coral, soube colher frutos na polifonia renascentista e barroca. Em música de câmara e no repertório pianístico, fez ressoar a mais sublime cumplicidade com Schubert e Schumann. Já na música orquestral, seguiu a peugada de Beethoven. Exemplos de diversidade, a primeira e última obras orquestrais do compositor alemão espelham bem as duas últimas vertentes. O primeiro dos seus dois concertos para piano, esboçado em 1854, evoluiu desde uma Sonata para Dois Pianos para uma obra em que o solista se funde com a orquestra. Já em 1887, surgiu o Concerto para Violino e Violoncelo, a sua derradeira partitura com orquestra, ainda que tenha sido escrita dez anos antes de morrer.

saber mais