O Violoncelo Romântico

facebook Instagram Youtube

Musicália

O Violoncelo Romântico




O Violoncelo Romântico
Um concerto na Sala do Conservatório de Paris em 1881 | Fonte: Wikimedia Commons
 

UMA SINFONIA FRANCESA

Quando se fala de Sinfonia, os primeiros nomes que nos ocorrem pertencem a compositores alemães e austríacos (tais como Beethoven, Brahms, Bruckner ou Mahler), e não franceses. Com efeito, no século XIX, a música orquestral sinfónica não era igualmente apreciada em França. Ainda assim, houve exceções notáveis, tais como a Sinfonia Fantástica de Hector Berlioz ou a Sinfonia em Ré Menor de César Franck.



Primeira página do manuscrito autógrafo d’A Flauta Mágica | Fonte: Omnifacsimiles
 

A FLAUTA MÁGICA

Quem não se lembra do motivo «Pa-Pa Pa-Pa» do dueto entre Papageno e Papagena? E dos agudos certeiros da ária da Rainha da Noite? Estes são os momentos mais populares d’A Flauta Mágica. Mas há muito mais que descobrir nesta ópera que é por muitos considerada a melhor das que W. A. Mozart assinou.



Bohuslav Martinů em 1943 | Fonte: Wikimedia Commons
 

UM CONCERTO OLÍMPICO

A par dos concertos de Richard Strauss, Elliott Carter e Vaughan Williams, o Concerto para Oboé de Bohuslav Martinů (1890-1959) é uma referência fundamental do repertório do último século para este instrumento. Datado de 1955, destinou-se originalmente ao oboísta Jiří Tancibudek (1921-2004), também de nacionalidade checa mas naturalizado australiano. Foi estreado no ano seguinte, no contexto alargado dos Jogos Olímpicos de Melbourne. O nível de exigência técnica e expressiva que se pede ao solista combina bem com essa ocasião.



 
Apesar de ter sido composta por Tchaikovsky há já mais de um século, só desde há cinquenta anos a música do bailado O Quebra-Nozes se tornou verdadeiramente conhecida do grande público, em boa medida graças à concisão e popularidade da Suíte Orquestral Op. 71a. As oito curtas peças desta suíte são recorrentemente utilizadas pelos criativos da publicidade e, sobretudo, tornaram-se presença obrigatória na paisagem sonora natalícia, fenómeno a que não é alheio o enredo do espetáculo estreado no Teatro Mariinsky, em 1891.
 
 
 


O VIOLONCELO ROMÂNTICO

 

Foi no século XIX que o violoncelo se afirmou inequivocamente como um instrumento solista tecnicamente virtuoso e expressivamente versátil. É certo que existiam, vindas de trás, importantes provas dadas, tais como as emblemáticas Suítes de J. S. Bach ou os concertos de Vivaldi, Boccherini e Haydn. Mas foi no período romântico que maior número de compositores lhe dedicou obras de grande aparato e um protagonismo sem precedentes. No caso específico da música francesa, destacam-se duas composições contrastantes: o 1.º Concerto para Violoncelo de Saint-Saëns e a Élégie Op. 24 de Fauré.

 

**

 

    Desde que o violoncelo se libertou das funções do Baixo Contínuo que a maior parte da música barroca lhe destinava, desenvolveu-se extraordinariamente enquanto instrumento. Para lá da emancipação melódica, que lhe permitiu uma presença mais dinâmica no contexto do repertório de câmara, foi-lhe destinado um crescente número de concertos solísticos. Este fenómeno foi alimentado pelo surgimento de um grande número de intérpretes virtuosos que beneficiaram das novas metodologias de aprendizagem. Exemplos como o Conservatório de Paris, fundado em 1795, contribuíram decisivamente para que assim acontecesse. Ainda em França, assistiu-se nas últimas décadas do século XIX a um revivalismo de formatos mais clássicos, tais como a Sonata ou o Concerto, o que também se traduziu em novas oportunidades para aqueles músicos.

 

    O Concerto para Violoncelo N.º 1 de Camille Saint-Saëns, datado de 1872, foi estreado no ano seguinte pelo prestigiado violoncelista Auguste Tolbecque no Conservatório de Paris, um meio particularmente conservador. Trata-se, porém, de uma obra em que a maturidade do compositor assume uma rebeldia que seria mais própria da juventude. Apresenta os tradicionais três andamentos da forma Concerto sem quaisquer interrupções. As ideias musicais inicialmente tocadas pelo solista, ao invés de serem desenvolvidas e recuperadas ao longo do tempo, sujeitam-se a sucessivas transmutações, variando numa larga sequência de momentos distintos que nem sempre são fáceis de relacionar numa primeira audição. Este era, aliás, um dos procedimentos técnicos mais vanguardistas da época, e que se identificava claramente com a transformação cíclica dos temas tão característica dos poemas sinfónicos de Liszt. É uma peça de grande efeito cénico e de extraordinária exigência para o violoncelista, explorando até à exaustão os recursos técnicos e expressivos do instrumento. Este detém o protagonismo ao longo do tempo por cima de uma textura orquestral que lhe oferece toda a primazia. Tal acontece, sobretudo, na secção central, que corresponde ao andamento lento da obra. Este concerto evidencia a possibilidade de conciliar uma postura criativa ousada com um rigor de escrita herdado da tradição clássica.

 

    Por sua vez, a Élégie Op. 24 de Gabriel Fauré contrasta com aquela exuberância, no mais profundo lamento. A primeira versão da peça, datada de 1880, foi pela primeira vez tocada num encontro privado organizado por Saint-Saëns. Nessa ocasião ainda era o andamento lento de uma sonata para violoncelo e piano, que nunca chegou a ser concluída apesar da boa aceitação com que foi inicialmente recebido. Tornou-se mais tarde numa peça autónoma, sendo estreada publicamente em dezembro de 1883 na Société Nationale de Musique, tocada pelo violoncelista e dedicatário da obra Jules Loëb. Mais tarde, em 1896, já como professor do Conservatório de Paris, Fauré orquestrou a parte de piano e deu-lhe a forma que hoje conhecemos. A estreia desta versão para solista e orquestra aconteceu em abril de 1901, com Pablo Casals e direção do próprio compositor. O sucesso da obra deve-se em grande medida à simplicidade da melodia inicial e a uma muito clara disposição das diferentes secções da partitura.

 

 

Orquestra Académica Metropolitana

Violoncelo: Pavel Gomziakov * (violoncelo)

Direção Musical: Jean-Marc Burfin

e/ou Alunos do Curso de Direção de Orquestra da ANSO

 

* Artista Associado da Temporada de Música da Metropolitana 2017/1018

 

 

G. Fauré Élégie, Op. 24

C. Saint-Saëns Concerto para Violoncelo N.º 1, Op. 33

César Franck (1822-1890) – Sinfonia em Ré Menor, FWV 48 (1888)

 

 

Sexta-feira, 19 de janeiro de 2018, Auditório da Reitoria da Universidade Nova de Lisboa

 

Sábado, 20 de janeiro de 2018, Fórum Municipal Luísa Todi, Setúbal

 

 

 

 

 
[Ilustração sem título] Fonte: Pixabay
 
A Flauta Mágica é a mais famosa das óperas de Mozart. Mas é também uma das obras mais enigmáticas de todo o repertório lírico. Essa singularidade resulta de um conjunto de características que desperta interpretações muito variadas. Será um conto de fadas dirigido a crianças? Uma recriação dissimulada de rituais maçónicos? Uma alegoria de ideais e circunstâncias políticas?… Certo é que, enquanto obra musical, se apresenta como um faustoso mosaico de estilos e referências diversos.



Fotografia de Tchaikovsky datada entre 1880 e 1886 | Fonte: Wikimedia Commons

 

A Serenata para Cordas Op. 48 de Tchaikovsky é presença frequente nas programações das salas de concerto nos nossos dias. O segundo andamento, uma valsa, será talvez uma das peças mais conhecidas do compositor russo. Mas os restantes três pouco lhe ficam atrás, em particular no que respeita à beleza melódica e à mais genuína expressividade.


 

O CONCERTO DE ANO NOVO

Brindando com palavras, pode dizer-se que a Música é uma linguagem universal, mas nem sempre a compreendemos; que é uma arte intemporal, mas o significado que traz consigo depende do tempo e do lugar onde ocorre. Tem, todavia, uma transcendente capacidade para reunir pessoas em torno de um desígnio comum. A mensagem não lhe pertence, mas o propósito da celebração, seja festivo ou plangente, utópico ou protestativo, não seria partilhado de igual modo na sua ausência. Um Concerto de Ano Novo é isto mesmo, um palco de sons que acrescenta sentido aos sentimentos e às reflexões de um momento especial.